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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O mata-burro


Cláudio Messias*

Quando adolescente assisti a uma cena forte na Água da Cruz, bairro rural situado nas proximidades do Tabajara, entre Assis e Lutécia, aqui no Médio Vale do Paranapanema. Chegava ao sítio de meu tio Miguel Sussel e lá estava uma vaca sendo executada a marretadas. Iria para a panela, forçadamente. À força porque havia quebrado uma pata dianteira e, gorda, não acompanharia o rebanho nos deslocamentos rotineiros e estaria fadada a perder peso, produzir menos leite e jamais reproduzir.

Era mês de julho, recesso escolar, e lá para aquele sítio eu ia para curtir o que a zona rural nos dá de lições de vida. Adorava a conversa com os mais velhos. Ouvir contos, lendas e, hoje eu sei, mentiras que mais serviam para amedrontar crianças do que necessariamente para orientá-las. E estávamos em plena estação das secas, período do ano em que o rebanho procurava os brotos da grama do pasto, pois as folhas, secas, ficavam indigestas. Para impedir que o gado saísse para a estrada e, assim, acessasse plantações de milho da propriedade vizinha, fora instalado um mata-burro.

Aos leigos explico de que se trata um mata-burro. Abre-se um buraco da largura da porteira e com suficiência para escoar a água da chuva e não formar erosão. Sobre esse buraco é colocada uma esteira de madeira, cujas vigas têm espaço largo entre si. O som oco e a falta de visibilidade sobre o que há debaixo dessa estrutura de madeira intimidam que animais atravessem de um lado a outro. Sei de história de um cão que passava sob a cerca de arame farpado, no mesmo limite de propriedade, mas jamais transpunha o mata-burro.

Aquela vaca abatida lá, à minha frente, havia arriscado aventurar-se além do mata-burro. Seduzida pelo verde das folhas do milharal ou mesmo pelo aroma das espigas em formação, não olhou abaixo dos próprios pés, também conhecidos como patas, e quebrou os ossos em diversas partes. No nada cômico cenário do espetáculo carnívoro uma parte do mocotó estava perdida. Nas palavras de ‘tio Migué’, “vaca vacilona perde o mocotó mas rende o filé”. Referia-se, ele, à única circunstância de morte forçada de um bovino que permite o consumo da carne. Afinal, afora esse tipo de episódio, até mesmo quando parte de um gado morre em decorrência de queda de raio enterra-se tudo, sem aproveitar nada.

Eu, adolescente, era afeito a caçar rolinhas e pombas, especialmente nas férias escolares. Para tanto, usava de estilingue a arapuca. Saía logo cedo para caçar, não sem antes ouvir de tio Miguel o conselho: “não vá avançar o mata-burro”. Seguia, portanto, do lado avesso ao que aquela vaca enfiou a pata dianteira e virou, em partes, carne de panela. Na véspera de voltar para casa daquelas férias julinas, entusiasmei na caça e não retornei à casa de meus tios, na sede do sítio, para o almoço. Sem relógio, perdi o tempo no espaço e quando notei que o sol estava muito, mas muito mais quente, deduzi que havia avançado no horário. No caminho de volta avistei uma rolinha, preparei o estilingue e soltei a pedra. Quem já caçou de estilingue sabe bem do mistério que é a pedra, em vez de passar no meio do “y” da forquilha, acertar uma das hastes laterais e, claro, estourar no dedo. Quase arranquei a unha do dedão da mão direita e, com a dor, voltei correndo para a casa de meus tios.

Cheguei e vi que a mesa estava posta, somente com um prato e um garfo. Sim, só faltava o bonito aqui para comer. Minha tia Luzia viu meu semblante de dor e em vez de sermão me deu foi atenção. Quis saber o que havia ocorrido mas eu, com vergonha, escondi a mão, já lavada e com o sangue seco retirado dos dedos. Lógico que quando eu, destro, comecei a comer, minha tia viu o machucado, mas preferiu nada falar novamente. Comi e fui para o quarto, onde, mesmo sujo, cochilei durante o resto de tarde.

No final do dia meu tio e meus primos começaram a chegar da roça. Banho tomado, tinham como missão separar o gado cujo leite seria retirado no dia seguinte. Tio Miguel chegou, sentou e perguntou o que havia acontecido com meu dedo. Não, ele não era adivinhão. Tinha, sim, dialogado com minha tia, que lhe contara sobre o ocorrido no almoço. E meus olhos esbugalharam quando aquele velhinho, amolando o mesmo punhal com que tirara o couro da vaca do início desse causo, cobrou: “eu não disse para você não passar do mata-burro?”. Eu, tremendo, garanti que não havia passado por aquela estrada, nem por aquele trecho. Tinha, sim, ido caçar em uma mata que, fechada, ficava na propriedade vizinha, distante uns 500 metros da sede do ‘nosso’ sítio.

O problema estava exatamente naquilo. O mata-burro era imaginário, ou seja, não era necessariamente aquele obstáculo artificial que substituía a porteira e, assim, permitia que se passasse de carro, caminhão ou moto sem necessidade de descer, abrir/fechar e continuar o trajeto. O mata-burro a que tio Miguel se referia era o bom-senso de não distanciar-me da zona de conforto, de segurança, propiciada pelo raio em torno da casa ora sede do sítio. Queria, ele, ir trabalhar com a sensação de que o hóspede estaria em segurança, sem que eu me transformasse, vacilão, em filé.

Depois de amolar a faca, tio Miguel pediu para eu dar a mão direita, cujo dedão estava sem a “tampa”, pela pedrada. Chorando, eu neguei o pedido. Afinal, se a vaca foi sacrificada por ter quebrado a pata, morreria, eu, por ter ferido o dedo ao distanciar perigosamente da casa? Tio Miguel insistiu para que eu desse o dedo para ele, colocando sobre a mesa da varanda. Quase aos berros, neguei novamente. Com semblante sério, ele disse que eu teria sorte, pois em vez de ter o mesmo destino da vaca, apenas perderia o dedo machucado. Acalmei um pouco, mas o desespero continuava o mesmo, pois ter o dedo cortado por um punhal não deve render a melhor dessa sensações.

Tio Miguel, então, abriu um sorriso e, tirando um fumo de corda do bolso da calça, fez uma mistura com cânfora, tirou toda a sujeira do machucado e, finalmente, passou pomada Minâncora. Recomendou que eu jantasse, deitasse, dormisse e, logo, voltasse à caça na manhã seguinte. Garantiu que eu não deveria temer que outra pedra acertasse o mesmo local atingido naquela tarde. Deveria, sim, temer a linha do mata-burro, a partir de onde se tem cascavéis, jaracuçus e outros animais venenosos que, caso me atingissem igualmente como a pedra do estilingue, impediriam que eu chegasse a tempo, na casa, para os necessários socorros. Nem para filé eu serviria.

Uma coisa, porém, me intrigou naquilo tudo. Por que mata-burro, e não mata-vaca, mata-cavalo, mata-bezerro? Tio Miguel, usando a narrativa peculiarmente popular, caipira, explicou, entre um trago e outro de cigarro de palha e numa conversa já amistosamente normal, que inteligente é o burro que não avança no mata-burro, e burro é aquele, racional ou irracional, que avança o mata-burro. Voltei, pois, para casa, sabendo que tive meu dia, meu momento de burro. E com direito a troféu, em forma de um dedão sem tampa.

Em Assis vejo, atualmente, uma linha imaginária que mostra até em que ponto pode-se, com segurança, avançar. A prefeitura da 28ª melhor cidade brasileira para se viver começou 2013, o ano da serpente no calendário chinês, com declarada dívida de milhões de reais. Primeiros meses do mandato do ‘novo’ prefeito e sequer todos os secretários foram nomeados, sob o argumento de não onerar os cofres públicos. Seria louvável, caso a adequação ao caos não se estabelecesse. Natural, pois de tanto doer, uma pedrada no dedo tem o sangue estancado e a dor, assim, nem é a pior das consequências. Feridas ganham casca, cicatrizam, aos olhos do dono do dedo. O olhar do espetáculo, de outrem, busca somente o sangue, a ferida aberta. Cicatrização e cura não fazem parte do espetáculo.

Tem uma, várias serpentes além da linha imaginária do mata-burro que delimita o mundo do bom senso e o mundo da corrupção. Ter boa intenção quando se assume uma prefeitura corresponde, inversamente, à pedrada no dedo. Administrar uma cidade como Assis e com uma dívida como a declarada é fazer das tripas, coração; do limite de gasto do dinheiro público, um mata-burro.

O trocadilho, reconheço, é forte, mas na metáfora que marcou minha adolescência advirto que inteligente é o gestor público que não avança o mata-burro. E o que não tem faltado, no passado recente, são burros públicos, racionais ou irracionais, que têm ultrapassado a linha imaginária do mata-burro. Esses, todos sabemos, encontraram as serpentes ou quebraram as pernas, passíveis que são, agora, da execução que, pública, choca, surpreende. Afinal, a ferida está permanentemente aberta e não falta quem queira uma parte do filé.


*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

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