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sábado, 24 de janeiro de 2015

CAUSOS - 'Tudo bi', de Bentinho, na realidade era 'tudo "bis..."'

Cláudio Messias*

Não escondo de ninguém minha paixão pelo meio rádio. Diversos são os relatos, cá no Blog, em que descrevo o fascínio que sempre tive por aquele que, espero, será por muito mais tempo o mais popular dos veículos de comunicação de massa. Uma paixão despertada desde o início da infância e, quis a vida, materializada na forma de profissão ao longo de muitas décadas dessa minha passagem por terra.

Carrego o orgulho de ter trabalhado com figuras emblemáticas do rádio do interior paulista. Nelson Fernandes, o Bentinho, é uma delas. Cachaceiro e mulherengo, aquele baixinho com fama de 'grande' tinha uma personalidade e uma cultura sólida que somente os mais chegados conheciam. Bentinho era tímido, na dele. Não se expunha publicamente e preteria o assédio. Nada, contudo, que o impedisse de andar pelas ruas de Assis com sua famosa boina e seus óculos escuros. Suas roupas sempre eram de cores claras e, nos pés, ora sapato ou bota pretos impecavelmente polidos, ora sandálias de couro para os dias mais quentes.

Fui sonoplasta do exigente Bentinho quando ingressei na rádio Cultura, em 1985. Eu era aprendiz de técnica de som e logo de cara pegava a mesa com locutores do período da tarde que tanto admirava quando não passava de um fanático ouvinte de rádio. Primeiro, Márcia Gianazzi, com intervalos de módulos informativos na voz de Luiz Luz. Depois, Bentinho e sua chulipa, personagem imaginário com o qual o locutor sertanejo 'dialogava', ou melhor, divagava. Chulipa, na realidade, era um patinho plástico de cor amarela, daqueles que damos a crianças de colo e que, quando apertados, soltam um som agudo. A habilidade de Bentinho com o brinquedo era tamanha que, às vezes, parecia que tulipa realmente respondia às perguntas e provocações feitas pelo locutor.

A abertura do programa de Bentinho na Cultura AM, pontualmente às 16h00, tinha um jingle, ou seja, uma música gravada em estúdio especificamente para o locutor. A letra cantada dizia exatamente assim: "Quem dá o bom recado e alegra seu coração... é o Bentinho da Cultura com a sua programação... Tudo bi, tudo bi, tudo bi com o Bentinho". Muitas vezes, mesmo não havendo programação comercial para aquele horário, Bentinho pedia para que colocássemos, em cortesia, a propaganda da Eletro Quintino, de Cândido Mota, também com letra cantada. O locutor adorava aquele jingle comercial, cuja letra dizia assim: "Cândido Mota está de parabéns e os motoristas estão muito mais... é que agora tem a Eletro Quintino, que trata seu carro com todo carinho".

Mas, voltando ao jingle de abertura do programa de Bentinho, as vozes masculina e feminina que gravaram a letra cantada ratificaram uma história que ele próprio me contou numa das ocasiões em que, já na redação de jornalismo da Cultura, eu intercalava minha produção de trabalho com longas e deliciosas conversas com os locutores, sentado à mesa do estúdio. Não raro, Bentinho pedia a abertura do segundo microfone e lá batíamos, no ar, papo sobre os planos econômicos da época de inflação alta, no final dos anos 1980, ou mesmo sobre futebol, uma vez que nos provocávamos sobre as situações de meu Corinthians e do seu São Paulo. Mas era fora dos microfones que ele confidenciava histórias cabeludas, pesadas, de sua longa história no rádio.

Bentinho, todos sabem, ia, via de regra, trabalhar depois de passar em alguns botecos como os Bares do Mineiro e do Papai, na JV da Cunha e Silva, e tomar umas branquinhas. Exalava aquele bafo azedo e expunha olhos que, avermelhados, sempre estavam apenas entreabertos, como que sonolentos. A aparência, contudo, não condizia ao conteúdo. Bentinho não atrasava um minuto sequer. Podia, sim, tomar suas pingas pelo caminho. Mas, meia hora antes de entrar no ar, estava passando pela recepção e dando beijos em minha irmã, Marcilene, e nas meninas do escritório, onde pegava sua pastinha de plástico amarela, contendo os textos comerciais que leria em 'propaganda americana' e, claro, sua chulipa.

Era sempre nessas condições, com Bentinho meio sóbrio, meio de fogo, que dialogávamos. E, acho que isso pode ser normal, algumas das histórias contadas por ele eram necessariamente colocadas em xeque. Quanto mais cabeluda a história, maior era a dúvida sobre a autenticidade. Nada, contudo, que reduzisse a sensação prazerosa de ouvir contos, causos e piadas daquele pequeno homem contador de histórias, a quem eu podia chamar de amigo e de quem ouvia o carinhoso chamamento de "amiguinho". Que bom era, logo cedo, receber Bentinho na redação, depois de ele apresentar seu programa sertanejo das 6h00 às 8h00, e ouvir dele o educado cumprimento de "bom dia, amiguinho". Digo isso porque Bentinho só chamava a mim de 'amiguinho', talvez pelo fato de eu ter sido tão precoce, em idade, no jornalismo.

Lembro-me de ter perguntado a Bentinho sobre o por quê daquele seu tradicional "tudo bi", principal característica de suas falas, tanto no ar quanto fora dos microfones. E o locutor relembrou que em certa ocasião foi contratado para fazer a animação de um show sertanejo de músicos desconhecidos na época e que, realmente, nunca emplacaram. O evento aconteceu nas imediações do Mercado Modelo Municipal, numa tarde de sábado. Tudo estava muito chato. A banda tocava muito mal, os técnicos de som não acertavam uma e o próprio público se reduzia a algumas mulheres que, de programa, se concentrava naquelas imediações todo final de tarde. Mas o show musical tinha patrocínio e, lá pelas tantas, Bentinho cumpriu com o compromisso de, usando o telefone do Bar do Vicente, ligar para a rádio Cultura e, ao vivo, falar sobre o 'espetáculo', que de espetáculo não tinha nada.

O locutor de estúdio era Celso Camilo Costa e, na técnica de som, Adilson Afonso, professor competente que por anos ocupou o cargo de diretor de Ensino e, hoje, advoga na cidade. Celsão, o Broa, chamou Bentinho e lascou a pergunta ao vivo: "como é que está o público aí, Bentinho?", ao que o locutor respondeu, já influenciado por algumas doses que graciosamente recebeu de Vicente, do Bar: "Aqui tá tudo bis, tudo bis, tudo bis...". Aqueles que estavam por perto, ao vivo, arregalaram os olhos, assustados com a possibilidade de Bentinho completar o substantivo "...cate". Mas, não, Bentinho, como eu já disse, não misturava embriaguês com irresponsabilidade no ar. Ficou, contudo, famoso por seu "tudo bis(cate)", brincadeira que passou a usar, no estúdio, pelo restante de sua carreira.

Nas conversas em que confidenciava sua crítica à sociedade assisense, em especial aquela formada por uma casta hipócrita que se achava e acha superior aos demais pelo simples fato de ter alguns reais a mais no bolso ou em dívidas, Bentinho se divertia com as versões que tentavam dar ao seu "tudo bi". A pseudo ala intelectual, por exemplo, dizia que Bentinho, caipira, adaptava o cumprimento de 'tudo bem' ao uso do verbo "to be", em inglês. Vãs tentativas de entender um locutor que preteria a elite, amava a boemia, valorizava o rádio, porém morreu esquecido, em Londrina, onde, sozinho, na companhia da filha, chorou em seus últimos dias a maior injustiça que o rádio brasileiro já protagonizou, ou seja, a até hoje inexplicável demissão que a rádio Cultura lhe deu.

EM TEMPO... Essa versão sobre a origem da expressão "tudo bi", de Bentinho, foi confirmada, recentemente, por meu amigo Adilson Afonso, com quem compartilho, quando em Assis estou, jantares às quartas-feiras na bocha do Assis Tênis Clube. Adilson Afonso, repito, era técnico de som, na década de 1960, quando do episódio relatado acima.




*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.

Um comentário :

XUXU disse...

Muito bom Claudio, parabéns ! Em breve postarei no Museu do Radio Assisense (pagina do facebook) que eu criei, uma entrevista em video com o Bentinho que eu e o Márcio Ribeiro fizemos em 1996 no estúdio da Rádio Difusora de Assis. Um abraço... Nilson Luis Gomes (Xuxu)