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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Javaporco no quiosque 2 do ATC: máfia reunida

31 Janeiro 2012

Nessa noite de 31 de dezembro de 2013 reunimos amigos da hidromusculação do Assis Tênis Clube no quiosque 2 e comemoramos os aniversários de janeiro. Cheguei atrasado devido a reunião de trabalho, mas peguei a festa no meio. No cardápio, o prato especial javaporco. O que é isso? Um animal que resulta do cruzamento de leitoa com javali. Explico.

Zé Roberto, bombeiro hoje na reserva, comprou uma leitoa para o abate. Levou a bichona pra casa e quando foi abater, eis que havia sarna na pele da coitada. Tratou e, quando foi novamente abater, a porquinha deitava, fazia cara de dó e, deitada ao chão, pedia carícias na barriga. Claro, Zé ficou com dó. Comentou com  um amigo e recebeu um javali para cruzar com a leitoa. Fez o teste. E dali nasceram 11 javaleitõezinhos. Um por período, cada um deles foi sendo abatido. Até chegar ao décimo, que pesava, segundo Zé, 140 quilos (eu peso 97kg, só como parâmetro).

A leitoa continua viva, mas o último dos javaporcos foi sacrificado neste dia 31. Não, claro, sem render histórias. Segundo Zé Roberto, no primeiro tiro na cabeça o javaporco saiu em disparada. A equipe toda munida de porrete nas mãos e nada... só então o bicho cansou (imagine o quão cansados estavam os matadores) e, rendido, recebeu quatro - sim, eu disse QUATRO - punhaladas co  uma fala de açougueiro que os mais pessimistas chama de espada, com 40 cm de lâmina.

Javaporco morto, temperado e assado, lá fomos nós experimentar. Arroz com suã feito por Faé e carne assada na churrasqueira preparada sob o comando de Alfeu Volpini. Chope a dar com rodo e som ambiente sob viola e violão da dupla Jaime & João, também chamada de Já e Mijão. Momentos inesquecível, eternizados em forma de fotografias e vídeos.

As publicações, abaixo, resultam de gravações feitas por mim. Não autorizo, portanto, conforme descrito no Blog, reprodução, nem parcial muito menos total, dos conteúdos. E não adianta, igualmente, solicitar autorização para replicar.










A triste notícia da morte de um jovem de 18 anos


31 Janeiro 2013


Cláudio Messias*




Passei por situações de demissão por mais de uma vez nessa vida de quase 43 anos de idade. Ora pedi, ora me demitiram. No balanço geral, prefiro recordar das vezes em que fui demitido, pois meus pedidos de saída ou eram motivados por propostas para trabalhar em outras empresas ou simplesmente encerravam, conscientemente, determinados tipos de passagem por organizações. Ser demitido significa que você não faz mais parte dos planos de determinada organização, o que por incrível que pareça pode ser ótimo. Explico ao longo desse texto.

Nessa quarta-feira, dia 30 de janeiro de 2013, fiquei sabendo de uma senhora demissão de jornalistas. De uma vez só, todos, mas exatamente todos os funcionários do jornal Oeste Notícias, de Presidente Prudente/SP, foram comunicados da demissão. Simplesmente, deixaram de figurar nos planos daquele que um dia foi chamado de Grupo Oliveira Lima, resultado da divisão societária familiar de Agripino e Paulo Lima, respectivamente pai e filho. Nos últimos anos, somente Paulo e a esposa Luciane faziam a gestão do impresso. Mais ela do que ele, e, o que é pior, com uma paciência cada vez mais esgotada para os resultados obtidos. Claro, resultados financeiros.

O fechamento, por mais que fosse iminente, chocou a todos. Tal qual a vida, estamos acostumados e preparados para o espetáculo de olhos abertos, sorriso saudável e semblante reluzente. Ver, testemunhar um fim, tem impacto ruim, incomoda. Ainda mais quando envolve algo tão novo e atinge muitas, mas muitas vidas, direta ou indiretamente. O fechamento do Oeste Notícias, a meu ver, é uma morte simbólica que corresponde a um jovem de 18 anos. O jornal nasceu no dia 1º de fevereiro de 1995 e deixou de estar entre nós neste 31 de janeiro de 2013. Paulo Lima praticou metaforicamente a eutanásia de sua empresa sob a fria estratégia de interromper a circulação quando completados 18 anos. Nem esperou que o Oeste fizesse alistamento.

Fui funcionário do Oeste Notícias no período de outubro de 1995 a março de 1997. Era supervisor da sucursal de Assis/SP e acumulava a função de repórter. Meu contato inicial foi comercial, mas tive o respaldo de contratação de Júlio Cézar Garcia e Ulisses de Souza, respectivamente editor-adjunto e editor executivo do jornal. A ponte foi outra plataforma já extinta, ou seja, a Ficar, que em 1995 estava na oitava edição. Através da agência de propaganda MCP eu fiz assessoria de imprensa para a feira e, conhecedor dos projetos de expansão do então recém-criado Oeste Notícias, cuidei dos contatos para trazer o jornal ao evento.

O projeto de Paulo Lima, à época deputado federal pelo extinto PFL – hoje DEM -, era ousado. Além de Assis, sucursais em Dracena, Tupã, Epitácio, Marília, Rio Preto e Ourinhos. Somente Assis e Tupã deram certo, ainda assim, mais a primeira do que a segunda. Foi a política de Paulo Lima que inviabilizou o projeto em sua integridade. Ele e o pai, Agripino, nunca se entenderam em família, pior ainda nos negócios e, fatalidade a exceder, na visão sobre veículos de comunicação. A gestão editorial de Júlio Garcia e Ulisses de Souza, ali, não completou dois anos, coincidindo com a frustração dos planos de expansão via sucursais. Os editores pediram demissão em um mês, eu em outro, rompendo com Agripino. E a vida seguiu.

Meses depois de minha saída da sucursal de Assis o escritório fechou as portas, algo em torno de um ano e meio subsequente. Não sem antes já ter abocanhado uma fatia de mercado publicitário que resultou no fechamento de outro negócio jornalístico familiar semelhante, a Gazeta do Vale. Assisti a isso tudo estando vinculado ao único jornal que continuou a sobreviver no mercado editorial de Assis em 1998: Voz da Terra. No espaço de 12 meses Assis viu fechar Gazeta e a sucursal do Oeste Notícias, voltando a ter apenas um jornal diário em circulação. Ali, a marca Voz da Terra atingiu aquele que acredito ter sido o auge de valorização de sua marca, principalmente pela “ameaça” que significou a vinda do Oeste Notícias para a região. Ou seja, apesar do poder, do dinheiro e da qualidade gráfica do Oeste, VT perseverou e, tal qual Davi, golpeou Golias.

Compúnhamos uma equipe de assisenses que, no Oeste Notícias, era chamada de Máfia de Assis. Tínhamos Reinaldo Nunes, Paulo Tito, Paulo Godoy, José Arthur Gonçalves e Júlio Garcia. Éramos Seis, para parodiar a literatura de Maria José Dupré. Debandamos todos concomitantemente. E sempre ouvi, depois, que aquele grupo era primordial o suficiente para a vitalidade do jornal, de maneira que a desconfiguração do trabalho coletivo realizado surtiria resultados irreparáveis. Um deles, a iminência de fechamento.

Em 2005 e 2006 fiquei no quase-retorno ao Oeste Notícias. Assumiria funções de jornalismo comercial, editoria que aprimorei durante passagem pela imprensa de Marília na primeira metade da década de 2000. Alguns dias de vivência na empresa que quase dez anos antes me contratara e dara a condição de registro, em memória, do melhor emprego de jornalista de minha vida profissional. Frustrante, contudo, ver a pobreza tanto editorial quanto comercial do jornal. Tudo bem, o Oeste nunca deu um centavo de lucro, ou seja, em seus 18 anos de vida jamais faturou 1 real a mais do que custou à família Lima. Mas, em 2005 a disparidade receita/despesa gerava um abismo complicado ainda mais pelo fato de Paulo Lima amargar a pior decadência de capital político de sua vida, não conseguindo a reeleição como deputado federal e, pior, vendo seu nome em condição secundária e até mesmo terciária no cenário político do Vale do Paranapanema, seu berço eleitoral.

De 2008 a 2010 faço retorno ao mercado de trabalho prudentino, agora como professor universitário. Docente no curso de Jornalismo da Uniesp, quando assumi a função de coordenador, em julho de 2009, contratei imediatamente para nosso time o competente André Barbosa, que na equipe de fundação do Oeste Notícias era um menino paparicado por todos da “máfia”. Especialista (lato sensu) pela Unoeste, ele contribuiu sobremaneira na formação de nossos discentes. E já naquela época sinalizava para situações nada favoráveis relacionadas à vitalidade do jornal.

Nesses 18 anos em que sobreviveu, o Oeste Notícias teve quase duas dezenas de gestores, tanto na linha editorial quanto na comercial, Exceto nas equipes iniciais, no restante Paulo Lima colocou, no comando, pessoas que não tinham competência nem para operar suas estratégias políticas, como comprovam os resultados das últimas eleições gerais que disputou para deputado federal, quiçá para viabilizar um jornal diário com circulação regional. Essa série sucessiva de tropeços deu dinheiro a muito gestor-amigo, mas representou a excessiva retirada de capitais financeiro e de credibilidade do jornal de Paulo Lima. Ao ponto de, nos últimos anos, Luciane Lima ter assumido o comando geral e misturado vida familiar com vida editorial. A primeira ela com certeza administra com competência.

Em 2012 o jornal deu o primeiro sinal de tentativa desesperada de permanecer no mercado. Ulisses de Souza voltou mais uma vez ao comando editorial e, com a competência que lhe é peculiar, inovou ao criar a versão digital para atender assinantes. Chegou aos 65 mil acessos em um só mês, ou seja, outubro de 2012, e desde então mantinha a média mensal de 50 mil leituras do conteúdo online. Ao todo, tinha 125 pontos de leitura e comercializava a versão impressa em 76 pontos de venda. Números que poderiam ser um grande atrativo para os olhos do mercado publicitário mas que com certeza não foram transformados em capital simbólico pela equipe que fatalmente ajudou a bater o martelo e, assim, decidir pela eutanásia desse jovem que, de 18 anos, há um bom tempo respirava à base de aparelhos.

* Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.


segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

O lamento de Binato e seus fundamentos


27 Novembro 2012


Cláudio Messias*

Li, e não ouvi, a entrevista que o empresário João Antônio Binato deu a meu amigo e eterno parceiro de reportagens Alves Barreto, pela Cultura AM. Li porque o Jornal da Segunda Online transcreveu a entrevista em seus principais trechos. O destaque, por conta do jornalista Reinaldo Nunes, ficou para a possibilidade de Assis perder o Centro de Distribuição da Rede Avenida de Supermercados.

Aqui, no Assiscity.com, li pelos mesmos dias que João Antônio Binato poderia ser candidato a presidente da Associação Comercial e Industrial de Assis, sucedendo Name Sabeh. Cargo elegível para um suplente de deputado estadual que logo na primeira eleição pública que disputou quase, por muito pouco, deu a Assis a condição de voltar a ter um representante na Assembleia Legislativa do Estado. Para chegar a presidente da Acia, Binato precisa somar votos, ter a maioria, mesmo que seja candidato único.

Citei os três níveis de relação direta ao nome de Binato por um motivo simples: não acredito que João Antônio e seus irmãos retirem de Assis o Centro de Distribuição da Rede Avenida. As questões financeiras alegadas são fúteis perto de um fato diretamente envolvido nesse bojo: o capital político. Estou falando de um capital simbólico que João Antônio Binato tem. Não me refiro, pois, a qualquer outro Binato que tenha sido eleito ou tentado eleger-se no passado recente ou remoto de Assis.

Das três circunstâncias envolvidas, uma delas tem de não corresponder à verdade para que João Binato concretize a especulação de que retiraria o Centro de Distribuição de Assis. Conheço pouco, muito pouco desse empresário, mas o suficiente para saber que mentiroso ele não é. Já disse aqui, nessas linhas, que trabalhei com ele na Rede Super Marca, em Marília, uma central de negócios que reunia grandes grupos supermercadistas do interior paulista. Eu, assessor de imprensa. Ele, presidente.

Também aqui, nesse espaço, admiti que a vivência com João Antônio quebrou um paradigma. A imagem construída a seu respeito, envolvendo, conforme Carl Jung, arquétipos e estereótipos da comunicação, não correspondeu àquele presidente da Rede Super Marca com quem convivi. Sério, claro, mas não arrogante. Uma pessoa que conversa olhando nos olhos, não manda recado e cobra resultados. E tudo isso de maneira educada, condizente a um gestor que tem sob seu comando milhares de funcionários.

Foram somente seis meses de vivência e convivência. Nessa rotina de meio ano, ida a feiras como a Apas, na capital paulista, e a inúmeros eventos relacionados à Super Marca. O suficiente para ter uma dimensão do império chamado Rede Avenida e da representação que o grupo tem na economia de mais de uma dezena de cidades paulistas e paranaenses por onde espalha suas filiais.

Não estou, aqui, para rasgar elogios a João Antônio. Quem sacrifica preciosas piscadas de olhos fixando leitura nessas linhas que variavelmente aqui posto sabe muito bem que não é do meu feitio nem puxar saco, nem rasgar ceda, muito menos atacar com ou sem fundamento. Apenas escrevo, registro. Se alguém ler, legal. Se não lerem, tudo bem também. O calendário maia não será alterado e o mundo não deixará de acabar em 21 de dezembro por conta disso.

Igualmente, quem acompanhou meu trabalho na imprensa de Assis, nas idas e vindas para e da cidade para outras localidades, ao longo de duas décadas e três anos consecutivos, sabe ainda mais do meu perfil de jornalista. Processado judicialmente, com mais de uma dezena de reportagens escritas e jamais publicadas devido aos interesses hegemônicos das empresas jornalísticas locais por onde passei, construí o meu capital simbólico. Igualmente, fiz muitas besteiras também. Errei. E errei feio em algumas dessas vezes. E meu nome, pois, não está associado a falcatruas, esquemas ou simplesmente a reportagens fúteis. Se saía da redação para trabalhar, era para retornar com fatos, e não suposições. Ou seja, nunca precisei assinar um release, me apropriar de um texto que não era meu, durante todo esse tempo.

Mas o assunto, aqui, gira em torno de João Antônio Binato. Precisei, sim, justificar a você, raro e exceto leitor, o por quê de eu não acreditar na tormenta que gira em torno da saída do Centro de Distribuição da Rede Avenida de Assis. O respeito enquanto empresário. E dos bem sucedidos, pois se olhar para trás, nas últimas três décadas, o que vejo são supermercados que abriram, badalaram e... fecharam as portas em Assis. Nesse ínterim, um dos negócios que tiveram os dedos de João Antônio e hoje representam uma marca sólida é o Vitória, uma rede que nasceu em Assis e tem filiais em outras cidades. Vitória que um foi A Barateira, que concorreu com o Avenida, fechou e cujo gestor depois foi trabalhar... com João Antônio Binato.

A mágoa de João Antônio vem da nada razoável votação que seu filho teve para prefeito de Assis. Uma dor que, sei, bate igualmente em outro João, Rosa, vice-prefeito que apesar do bom capital político também teve inexpressiva votação nas urnas em outubro passado. Fossem candidatos somente eles e o eleito Ricardo Pinheiro e, todos sabemos, o desempenho nas urnas poderia ter sido outro. O desempenho, e não necessariamente o resultado. Mas, meu amigo, SETE candidaturas foi demais. E, João Antônio Binato, você me desculpe, mas Kiko Binato tinha a reeleição para vereador garantida. E, nesse ínterim, se houve um erro nessa história, esse erro foi ter insistido na candidatura de Kiko para prefeito. O eleitor e a cidade não erraram ao não elegê-lo. Até porque mais de 15 mil eleitores simplesmente não foram votar, um contingente que elegeria outra composição da Câmara se assim quisesse. A eleição como um todo, em 2012, tem de ser esquecida pela cidade.

Essa ira, que por sinal já deveria ter passado, é compreensível. Mas, para o bem do capital político de João Antônio, não pode passar de polêmica fútil. Até porque entra em rota de colisão de coerência para esse outro projeto político especulado, ou seja, assumir a presidência da Associação Comercial e Industrial local. Eu, que também já fui assessor de imprensa na Associação Comercial mais bem sucedida em um raio de 200 km ao redor de Assis, ou seja, a Acim, de Marília, sei bem que um gestor do setor comercial, que se propõe a representar a maior corrente econômica de qualquer localidade, não pode querer tirar da cidade uma fonte geradora de receita e tributos que corresponda às cifras citadas por João Antônio na entrevista a Alves Barreto.

Compete a um presidente de Associação Comercial prezar para que o setor cresça. E perder um Centro de Distribuição da magnitude do da Rede Avenida representa, hoje, a maior perda que a cidade de Assis pode imaginar, na contramão de conquistas significativas ocorridas nos últimos meses. Decidir por isso, portanto, não pode coincidir com o projeto de assumir a Acia. Eu, se comerciante fosse, jamais votaria em um candidato com tão bizarro projeto de transferir para Ourinhos um patrimônio que foi construído a partir do que a população de Assis consumiu ao longo de sofridas décadas de crise que o país passou. Portanto, eleitor é uma coisa, consumidor é outra coisa, totalmente diferente.

Mudanças no trânsito da cidade afetaram a todos. De eleitores a consumidores, cada morador de Assis teve de se adequar a uma nova cidade. Mas, João Antônio, as reclamações de um ano atrás deram, aos poucos, lugar a um cenário inverso. Não somente ouço, mas leio e compartilho de mensagens e postagens feitas por internautas assisenses ou da região, aqui no Assiscity ou nas redes sociais, reconhecendo que o trânsito de Assis teve mais resultados positivos do que negativos. Uma sinalização de que pode haver saldo positivo nisso é o setor de funilaria e pintura de automóveis, que teve drástica redução no movimento de recebimento de veículos com pequenas colisões implicadas de acidentes de trânsito.

Tradicionalmente, por ser morador na vila Santa Cecília, comprei e compro na loja da Rede Avenida da Dom Antônio, nas proximidades da vila Rodrigues. A mesma filial que João Antônio disse que pode fechar por causa do trânsito. Ele se refere ao bloqueio das passagens que cruzavam a avenida Dom Antônio, agora fechadas por canteiro central, forçando retorno por rotatórias. Mas, mesmo antes de o trânsito ter sido alterado eu já percebia movimento mais tranquilo naquela filial da Rede Avenida. Queda de movimento que, na minha opinião, coincide com outro mega-investimento de João Binato, ou seja, o Avenida Max, que fica na mesma avenida Dom Antônio. No meu caso, não deixei de comprar na outra loja, pequena. Mas se as pessoas o fizeram, foi para transferir o local de consumo, e não necessariamente para ir comprar no Amigão ou no São Judas, mas exatamente no Max. E não será a vinda do Wall-Mart ou da Americanas que fará piorar o sufocamento do trânsito na Dom Antônio. Cada coisa, cada realidade relacionada ao crescimento da cidade, no seu devido lugar.

João Antônio Binato continua sendo o nome político mais forte de Assis na atualidade. Mais forte, inclusive, do que o prefeito eleito Ricardo Pinheiro e do próprio filho, Kiko. É ele o atual suplente de deputado estadual do Médio Vale do Paranapanema. E tomar decisões radicais, nesse momento, como a de mexer na sede do Centro de Distribuição do Grupo Avenida, seria uma bobagem nada condizente aos mais de 20 mil votos creditados a seu capital político nas últimas eleições gerais dois anos atrás. Quase, mas por muito pouco mesmo, ele não se tornou o nosso representante na Assembleia Legislativa mais importante do país. Sua trajetória mostra que daqui a menos de dois anos as condições locais e regionais favorecem para que isso se concretize.

O momento, pois, é de colocar a cabeça em ordem, os projetos no papel e o capital político no patamar condizente à expectativa que a cidade de Assis lhe colocou. Amigão, São Judas, Wall-Mart, Americanas só vieram para cá porque fizeram pesquisa de mercado e concluíram pela viabilidade do negócio. A mesma pesquisa de mercado que a Rede Avenida fez para ir a cidades como Santo Antônio da Platina, Presidente Prudente e Ourinhos, cidades que não só não tiveram supermercados fechados pela presença do empreendimento da família Binato, como experimentaram crescimento do setor como um todo.

O que quero dizer é que, críticas e lendas à parte, o mercado consumidor de Assis só foi descoberto como potencial porque um dia os grandes que aqui estão tiveram o interesse despertado exatamente pela competência de gestão da Rede Avenida, um dos cinco mais respeitados grupos supermercadistas do país na atualidade. Se Ourinhos quer o nosso Centro de Distribuição, então eles que justifiquem ter, um dia, o que Assis já tem: solidez e qualidade de consumo. Não por acaso Assis está recebendo outros dois Centros de Distribuição, sendo um de artigos esportivos e outro de materiais de construção. É a vida que segue e não pode parar.

Passou da hora de a boca maldita existente e sobrevivente de gerações frustradas pelo passado reconhecerem que empresas que consolidam-se no mercado há décadas colaboram com o desenvolvimento, e não travam-no. Um dia falaram que a Nova América impediu a vinda da Coca-Cola para cá, da mesma forma que a Rede Avenida foi acusada de ter impedido o Sé de instalar-se aqui. Nesse último caso, o prédio onde seria o Sé fora erguido para ser alugado. E às vésperas da instalação do hipermercado a marca Sé foi comprada pelo Grupo Pão de Açúcar, que parou todo o projeto de expansão e descatou Assis. No lugar de um esqueleto de concreto  largado ao lado da Unesp a cidade ganhou o Avenida Max e o Centro de Distribuição da Rede Avenida, um autocenter e a primeira franquia multinacional de fast-dood de sua história. E aí fica a pergunta: isso é travar o desenvolvimento da cidade ou contribuir? Eu tenho convicção de que é a segunda opção.

*Professor universitário, jornalista e historiador, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.


FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA


FORMATAÇÃO

No texto anterior essa coluna saiu fora de formatação. Tudo emendado, feito texto de Saramago. A comparação com o escritor português deve-se tão somente ao fato de o mesmo ter dito, em uma de suas passagens pelo Brasil, quando vivo, resistir ao “enter” do teclado que dá origem ao novo parágrafo. Falha minha, agora corrigida.

ÁGUA

Quem quiser tirar dúvidas sobre a legislação que incide sobre o uso da água tem duas fontes de consulta. No Estado, o decreto 50.667/2006. Em nível nacional, a resolução 274/2005 da ANVISA. Em ambas são estabelecidos critérios para cobrança por vasão de água em espaço público e responsabilidades por tal gestão.

CADA CASO...

Leitor amigo questiona por que Marília, que tem cinco fontes públicas de abastecimento com água, não fechou tais “minas”, que na realidade são poços artesianos com vasão por pontos de distribuição. A pergunta tem origem a partir do caso da demolição da popular Mina da Cristalina.

... UM CASO

Acontece que em Marília os tais poços são administrados pelo DAEM, que é uma autarquia pública do município. Sua manutenção e, com o vigor da lei do uso da água, o controle de vasão e consequente custeio passam a ser feitos dentro de uma política de gestão dos recursos hídricos da cidade.

EM TEMPO

O prazo para adequação ao que estabelece a lei estadual de uso da água venceu em 2006, e não vencerá em 31 de dezembro de 2012 como eu disse na coluna anterior. A tolerância de cinco anos resulta de bom senso de quem fiscaliza, uma vez que mexe diretamente com a rotina e a cultura de milhares de pequenos proprietários rurais paulistas, a grande maioria deles isentos de cobrança mas obrigados a alterar a gestão de seus recursos hídricos.

FEDERALIZAÇÃO

A notícia foi tornada pública em 18 de outubro: a confirmação de Assis como Núcleo Avançado do Instituto Federal de São Paulo. Em 2013, com sede na Fema, serão formadas turmas em dois cursos técnicos: Administração, com duração de 3 semestres, e Manutenção e Suporte em Informática, em 4 semestres. Cada turma com 40 vagas, no período vespertino. Inscrições para o processo seletivo terminam nesse dia 28 de novembro.

PRESSÃO

Essa especulação existe há décadas, mas ganhou força nas últimas semanas: uma possível proposta para que a família Camargo venda o Sistema Cultura de Comunicação, formado pelas rádios Cultura AM e FM. Um grupo religioso estaria disposto a assumir o comando total da empresa. Que fique só no boato, pois a Cultura FM continua sendo a única sintonia do dial regional em que não se ouvem, das 7h00 à meia-noite, o sertanejo, o pagode e o funk, muito bem explorado por outras emissoras concorrentes.

PLANO B I

Acostumei ir a Bauru seguindo pela Raposo Tavares, depois Orlando Quagliato, João Batista Cabral Rennó e, enfim, Comandante João Ribeiro de Barros. Duzentos e dois quilômetros em duas horas e quinze minutos de viagem e quatro praças de pedágio, com o transtorno de trecho de pista simples e trânsito pesado entre o ponto referente ao final da Castello Branco e Bauru.

PLANO B II

Domingo passado levei meu filho mais velho para o vestibular da Fuvest, naquela cidade do sanduíche famoso. Fui pelo trecho já citado, mas, por estar na Instituição Toledo de Ensino, ou seja, próximo da saída para Marília, resolvi retornar por esse caminho alternativo. Uma hora e quarenta de viagem, 167 km de trevo a trevo, nenhum pedágio pago e velocidade autorizada de 110km/h. Mudei, claro, de costume e rota.

CÁ ENTRE NÓS...

...coisa feia ficar oito anos no poder e deixar a cidade nessas condições, não?

A máfia no TCM: do poderoso chefão ao homem que sabia demais


23 Novembro 2012

Cláudio Messias*

A vida imita a arte ou a arte imita a vida? Um dia, nas mesmas telas reduzidas das tevês tubões, fizemos paródia da máxima sheakesperiana ao filosofarmos no senso comum da propaganda em torno de uma inquietação fútil: Tostines vende mais porque está sempre fresquinho ou está sempre fresquinho porque vende mais?

Minha provocação, aqui, remete igualmente a uma paródia característica dessas situações em que vemos na vida real o que teorizamos ou simplesmente banalizamos na ficção. Episódios cotidianos de nossa Sucupira do Vale – e dá-lhe metáfora que sai da literatura e passa às telas ainda em preto e branco – que também se assemelham àquelas situações em que, acho, todos os seres humanos devem passar quando vivenciam determinada circunstância e logo pensam: “parece que já vivi ou vi isso antes”.

Não por acaso cito o TCM. Sigla amplamente em evidência nos últimos dias. Terceiriza o que há de melhor – e muitas vezes de pior – e facilita as gerações mais amadurecidas, com cabelos quase ou já grisalhos, que sabem exatamente como tudo começou nas ‘belas’ artes. E de tanto saber, essas testemunhas da história dramática se perguntam: pra que isso tudo? Ou, ainda, “precisava disso?”.

Mas o público carece de bons conteúdos. Nem que esse conteúdo simplesmente arranque o nome do ator principal. E ninguém nem dá bola a isso, pois no mundo do faz de contas um centavo a mais, outros milhares a menos, não fazem falta. Então, para que saber o nome do dono da obra, do ator principal ou do diretor, se o importante, mesmo, está em outros interesses?

Em “A montanha dos 7 abutres” Kirk Douglas, em 1951, já mostrava bem a que sociedade do espetáculo se referiria Guy Debord. Aliás, Kirk, não... Charles Tatum, seu personagem, um jornalista que produz factoides. A comunicação como edição da realidade; edição do mundo, como teorizaria nossa Maria Aparecida Baccega, professora aposentada na ECA/USP e atual coordenadora do programa de pós-graduação em Jornalismo na ESPM/São Paulo. Vejo “A montanha” em TCM, e não é de hoje.

A mais pesada das novelas globais a que assisti foi Vale Tudo. No final, Reginaldo Farias, corrupto, foge de avião, impune, dando sinal de bananas ao Brasil inteiro que o assistia e queria ver o desfecho da autoria do assassinato que eternizou Odete Roythman na pele de Beatriz Segall. Porque sim, nós temos bananas. Aliás, Reginaldo Farias, não... Marco Aurélio, seu personagem. Não vi no TCM, mas o enredo cai como uma luva, pois é esse o filme que vem à tona na atualidade.

Nunca fui afeito a lead, ou simplesmente, lide. Na comunicação, trata-se do eixo central da notícia, podendo ser resumido em cinco ou seis perguntas, não necessariamente nessa ordem: o que, quem, onde, quando, por que, como? Como vemos, no caso TCM o “quem” é sujeito oculto e a construção ganha mais contexto da linguística do que necessariamente do jornalismo. Mas aí o chamaríamos de sujeito nulo e isso recorreria a uma circunstância que beiraria a recente passagem das eleições municipais.

De qualquer maneira, no TCM os atores que estrelam a ficção não têm o nome divulgado. É quase uma antecipação do amigo secreto do final do ano. Quando começa, ninguém sabe quem tirou quem. Mas a ânsia, a curiosidade tipicamente humana faz com que um revele ao outro, nos cantos escondidos, na condição de ficar só ali, entre eles. E quando chega a festa esses dois, com sorriso amarelo, “revelam” o que quase todos sabiam com antecedência mas fingia ser novidade. Amigo oculto, sujeito oculto, e os enunciados publicados continuam sem ter o “quem” tão trivial para a prática do jornalismo da Sucupira do Vale.

Dar nome aos bois é uma tarefa complicada só até aparecer uma figura mais forte, em quem se ampare e, assim, tome-se coragem. Nessa hora, a revista Veja, que costuma ter seção que critica os lançamentos que posteriormente chegarão ao TCM, sai da condição de sótão da privataria tucana para fonte inquestionável do mais recente lançamento da ficção jornalística da Sucupira do Vale. E se a Veja elogiou o filme, quem são eles, pequenos, para contestar? Nessa hora, se os capangas cobrarem a proteção ao chefe da máfia, a arguição é sólida: foi Veja quem criticou o filme; eu apenas reproduzi.

Ao lado da Sucupira do Vale, em Neverland, o filme é outro. O filho do dono da cidade uniu-se ao chefe do comércio para dominar a cidade. E conseguiram, contando com a ampla maioria dos ocupantes da montanha dos sete abutres. Mas antes de assumir, outro pequeno chefe do comércio tentou provar que havia areia na maionese da festa. E tudo parou, podendo ter nova eleição. Lá, a montanha dos sete abutres não escondeu caras, nomes, nem clãs. A diferença é que a montanha dos sete abutres constrói o factoide mas tem por trás uma estrutura que viabiliza cada página impressa e levada às bancas. Ah, claro: e circula aos domingos e o que vende nesse dia impede que a folha de pagamento saia com atraso e o vale chegue em dia conforme o acordo coletivo firmado com o sindicato. Mas filme assim não tem graça, é chato. Bom, mesmo, é sofrer reclamando que a Sucupira não vai pra frente.

Perguntas continuam a ser feitas e permanecerão sem resposta. Esse negócio de língua do P em jornalismo não dá certo na vida real, só no imaginário. Uma coisa é você ignorar o nome de um personagem por uma hora e meia, duas ou até três horas. Outra coisa é fazê-lo a vida inteira. Na tela do cinema o cansado simplesmente fecha os olhos e dorme. Na vida real, o espectador quando fecha os olhos é porque não quer mais ver. E não por acaso, o pior dos cegos é aquele que não quer ver.

Quanto ao TCM, vai continuar aparecendo como marca, mas sem diretor aparente. Rende, sim, bons filmes, principalmente quando olha-se para o passado e veem-se bons longas, ótimas produções. O duro, mesmo, é tentar descobrir, no ambiente da montanha dos sete abutres, o pior dos três patetas diários. Tudo isso, no canal pago TCM. Quem nem paga tão bem assim.

*Professor universitário, jornalista e historiador, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA

Primeiro escalão – Ricardo Pinheiro, prefeito eleito com 14 mil votos, tem parte do alto comando da Prefeitura definido. E não esconde de assessores mais próximos a preferência, no momento, por uma relação harmoniosa com a Câmara, onde não terá maioria.

Como assim? – O mercado imobiliário de Assis nunca esteve tão aquecido. Nesse pós-feriadão uma sondagem deixou o setor ainda mais agitado: a vinda da rede Decathlon para essa parte do Estado.

Variedade – Fui a uma loja Decathlon em Lisboa, em outubro passado. A mais completa do gênero de artigos esportivos que já frequentei. Aqui no Brasil não vi nada igual.

O talento não para – Kallil Dib, de quem tive a honra de ser professor e  colega de coluna aqui neste Assiscity.com, defendeu TCC no curso de Jornalismo da Fema, na quarta, 14. E no domingo estava prestando vestibular da Unesp, atraído pela literatura do curso de Letras local.

Teoria viciante I – Outro jornalista que defendeu TCC é Nestário Luiz, colunista do site Assisnotícias.com.br, de meu amigo Alexandre Takasawa. Minha honra, nesse caso, foi ser professor e o orientador de Nestário, a quem conheci adolescente, na época em que, na companhia de Matheus Orlando, faziam “ensaios” de narração e comentários esportivos nas partidas do Clube Atlético Assisense no estádio Tonicão, lá pelos idos de 2004.

Teoria viciante II – Nestário Luiz e Diego Faustino, que formam a derradeira turma de Jornalismo da Fema, também não param na graduação. Estão inscritos na seleção para o lato sensu (especialização) em Comunicação Popular e Comunitária na UEL, em Londrina. Sairão com pós-graduação de lá em 2014.

Números – Interessados em dar continuidade à história do curso de Jornalismo de Assis indubitavelmente há. No vestibular da Fema aplicado na segunda, 12, houve 68 inscrições para o curso. São necessárias, no mínimo, 35 matrículas para formar turma. Foram convocados para matrícula 50 vestibulando, sendo 40 em primeira opção e 10 em segunda opção.

Credibilidade – A Fema, aliás, continua sendo, juntamente com a Unesp, a instituição de ensino superior de maior credibilidade da cidade. A começar pelo processo seletivo, que segue os moldes do que é feito pela Fundação Vunesp, autarquia que faz a gestão do vestibular da Unesp. Para 2013, 1.500 candidatos se inscreveram no vestibular da Fema. Sem prova de seleção agendada.

Mínimo – Na quarta-feira, 21, saía eu da bocha de um clube da cidade quando, no caminho até a portaria, ouvi um discurso ao microfone. No alto som, um candidato a alguma coisa dizia que “para votar tem que ter inteligência. E eu sei que 99,99% de vocês são inteligentes”. Se eram 200 pessoas na ‘plateia’ questionavelmente inteligente, quem teria 0,2% de falta de inteligência ali? O enunciador, creio.

Água capital – O nível do rio Paranapanema está 9 metros abaixo do normal em plena véspera do verão. O cenário desolador recai em toda a bacia do Paraná, exigindo que as usinas hidrelétricas daqui de cima negociem – leia-se comprem – cotas de água com as lá de baixo, como Itaipu. Além de energia, a Duke Energy também vende água.

Ignorância – A população desconhecer a Lei do Uso da Água, debatida no final dos anos 1990 e sancionada dez anos atrás no estado de São Paulo, tudo bem. Agora, jornalistas ignorarem isso e colocar em pauta só a desativação da mina da Cristalina, aí já é demais.

Realidade – Pela lei, que deu prazo de 10 anos para os paulistas se prepararem para o vigor, paga-se por toda vazão de água. De poço artesiano a minas, toda fonte de água terá um contribuinte responsável. Foi o que fez, por exemplo, o Assis Tênis Clube desativar a igualmente histórica mina que ficava ao lado de sua portaria.

No bolso – Pela lei, também, Tênis Clube e Malta teriam de pagar por cada litro de água que sai das bicas. Pagariam para manter a tradição de centenas de pessoas, diariamente, levarem água sem tratamento para suas casas. E pior: em caso de algum tipo de intoxicação pelo consumo dessa água, seriam responsabilizados por tal.

In loco – Acompanhei, como jornalista, o piscicultor Ivo Guiotti, de Cândido Mota, na audiência pública realizada pela Assembleia Legislativa, em 1998, para tratar especificamente da discussão do então projeto de lei. Os arquivos do jornal Voz da Terra têm pelo menos dois anos de registros de reportagens que assinei, cobrindo o debate regional sobre o impacto dessa lei principalmente junto a pequenos proprietários rurais.

Vô de volta – O mais competente dos jornalistas que conheci está de volta. Mas, não a Assis. Júlio Cezar Garcia deixou Brasília e já está em São José do Rio Preto, com a família.

Origens – Júlio Garcia é sonho de consumo do jornal Oeste Notícias, de Presidente Prudente, onde está Ulisses Souza. Os dois são os editores fundadores do jornal impresso que abalou a imprensa do Vale do Paranapanema na segunda metade dos anos 1990.

Cá entre nós... e se tivesse sido candidato a prefeito, assumiria o cargo na Embaixada?

domingo, 27 de janeiro de 2013

Filhos bastardos de uma Assis velha de guerra


13 Novembro 2012


Cláudio Messias*

Nunca fui afeito a velórios e sepultamentos. A morte assusta, sim, a esse que aqui escreve. Nada que me faça morrer de medo de morrer. Mas, sinceramente, não gosto muito de pensar naquele momento em que o olho vai derradeiramente cerrar.
Nem preciso entrar nos detalhes, portanto, de minhas restrições a circunstâncias que envolvam mortes. Feliz decisão foi tomada, a meu ver, quando velórios passaram a ser feitos em igrejas ou mesmo em locais específicos para tal. Sempre tive calafrios de ver caixões no centro de salas cujas casas acabaram de perder seus patriarcas ou matriarcas.
Meu vodrasto, ou seja, segundo casamento de minha avó paterna, que ficou duplamente viúva, foi velado na sala da casa de madeira até hoje existente ali, na Santos Dumont, a uma quadra da André Perine. Eu tinha 9 anos e, pra mim, aquele negro que, soubemos mais tarde, integrou a tropa que matou Lampião e seu bando, era realmente meu avô. Meu cabelo, liso não é, assim como minha pele não é das mais brancas. Mas, nem é esse o assunto.
O velório de meu avô varou a noite. Estranho até hoje lembrar daquele cheiro e das conversas que rolaram madrugada afora. Lá pelas tantas, lembro, chegaram com um saco enorme contendo pão e mortadela. Logo depois, vieram as tubaínas. E o que era choro virou burburinho. Da sala para a cozinha, e todos comiam. E contavam piadas! Riam, como se festa fosse. Fui entender, depois, que se estivéssemos em alguns países do oriente aquele ambiente seria normal, desde que a nossa cultura assim concebesse.
 Na minha fase adulta assisti, em VHS, ao filme “A Excêntrica Família de Antônia”. Um dos mais belos e instigantes filmes que já vi. A cada exibição, uma leitura. E tudo gira em torno da morte. A morte que não é o fim, mas, sim, um prenúncio do que irá recomeçar. Na filosofia de Schopenhauer, o eterno retorno. Fácil, hoje, refletir dessa forma a única de todas as certezas da vida. Mas, na construção do imaginário infantil não era tão simples assim.
Ouvi inúmeras teorias sobre a morte. Em uma delas, todos nos reencontraríamos em um jardim florido, cada um vestido com roupas longas e brancas, cantando músicas celestiais e sob o olhar carinhoso de um velho barbudo responsável por isso tudo. Em outra, antes de adentrar à porta do céu teríamos de prestar contas do que fizemos aqui na terra. Só para citar mais uma, o fim de tudo ocorreria com cavalos e anjos descendo de um céu vermelho, em fogo, ou seja, no fim do mundo.
Unindo essas três teorias não foi difícil para mim, criança, achar que a vida após a morte seria uma verdadeira chatice. Razão suficiente para temer a morte. Não medo exatamente pelo momento da despedida, que pode ter o corpo físico inteiro, meio inteiro ou totalmente despedaçado, em circunstâncias de ausência de dor, um pouco de dor e muita dor, respectivamente. Meu medo, mesmo, era ficar o resto da vida (da vida após a morte) junto a uma multidão, cantando e caminhando campos floridos. Isso porque não estou citando o caos que seria para entrar na fila do purgatório, vendo mais de 200 milhões de pessoas entrando para o céu ou preparando para torrar no inferno.
Como se pode ver, nunca fiz plano de ir para o inferno. Merecer ou não ir para lá, no recanto dos maldosos, já é outra história. O máximo que fiz de maldade na infância foi matar passarinho no ninho, arrancar perna por perna de moscas, jogar sal em lesmas e sapos e... ok, confesso. Um dia furei latas de leite condensado na despensa da casa de minha avó paterna. E quando perguntado sobre o ocorrido, disse que poderia ter sido um rato. Menti e fiquei desesperado com a possibilidade de ir para o inferno por causa daquilo.
Pânico, mesmo, eu vivi em uma noite de carnaval em 1983. Evangélicos que éramos, ouvíamos do pastor que carnaval era festa do demônio. No culto, naqueles dias, o pastor perguntou ao fieis, na igreja Batista da 9 de julho, se imaginávamos o que ocorreria com as pessoas que estavam pulando carnaval se o mundo acabasse naquele exato momento de folia. Perguntou e respondeu de imediato: todos iriam diretamente para o inferno. E naquela noite de sábado de carnaval minha irmã havia ido à avenida Rui Barbosa ver o desfile das escolas de samba da cidade. E se o mundo acabasse exatamente naquele momento e eu não fosse para o céu com minha irmã? Seria um tédio ficar o resto da vida no campo florido, cantando, sem ter minha irmã para eu azucrinar lá no céu.
Da adolescência à juventude e, depois, na fase adulta, fui e venho perdendo pessoas de quem gostei e gosto. As responsabilidades que a vida proporciona fazem o imaginário fantasioso, infantil, dar lugar a uma visão mais crítica das vivências. Já citei aqui que soube somente anos atrás que o primeiro grande amor de minha adolescência teve a vida marcada por tragédias. Mais velha de dois filhos, viu pai, mãe e irmão mais novo serem assassinados em Mato Grosso no final dos anos 1980. Sozinha no mundo e tendo escapado de tiros recebidos, retornou grávida e, mãe largada pelo mundo, pela vida, não suportou esperar para ver os campos floridos, lançando-se sob as rodas de um caminhão na SP-333. Eu, jornalista, noticiei aquilo, em finais da década de 1990.
Vez em quando saio de casa e vou, por exemplo, ao centro de Assis, a pé. Desde que o sol não esteja gerando marcas de 35 graus nos termômetros, boto meu chapéu e percorro com as duas pernas os caminhos que fazia na infância, na adolescência, na juventude, na ‘adultice’ e, agora, na véspera da terceira idade. Também já registrei aqui, nessas linhas, a sensação mórbida de passar por casas antes agitadas pela presença de crianças e hoje caladas pela ausência de vida. Patriarcas e matriarcas partiram para os campos floridos. As crianças passaram a ser adultos, da mesma forma que aqueles adultos hoje são os patriarcas e matriarcas que começam a ouvir o som das músicas a serem cantadas nos campos floridos.
Não raro, os palcos dessa vivência coletiva de outrora desaparecem em um piscar de olhos. Histórias inteiras caem em forma de escombros e vão para a caçamba. Historiador que sou, vejo um tonel de pinga na caçamba, nas proximidades da rádio Difusora. Estou com meus dois filhos, pequenos. Pego o tonel, para desespero dos envergonhados adolescentes. Pego e levo para casa, sob a indagação dos pequenos. Afinal, para que levar aquilo se sequer bebo cachaça? O que me interessou não foi o objeto; foi sua história.
Delícia olhar para objetos e fotos do passado e relembrar a vida. Quanto mais janeiros somados, mais essa sensação é agregada ao desespero. Observar casas ou o que sobrou delas é isso, ou seja, entender o contexto em que cada comunidade foi constituída. Poucos concebem, por exemplo, que nas proximidades da escola Thomaz Menk deve ainda haver ossadas humanas debaixo de casas e muros e mesmo da rua. Sim, ao lado da capela Santo Antônio, ali já existiu um cemitério. Quem ali reside sabe ou ouviu dizer. Mas quem apenas passa por ali dificilmente entenderá ou aceitará isso. Histórias que, orais, sobrevivem a partir de relatos de patriarcas e matriarcas cada vez mais próximos dos campos floridos ou que lá estão já algum tempo..
Nos apegamos a um ou outro parente que passa dos 70 anos de idade. São muitos, pois as gerações estão cada vez mais adelongadas pela longevidade da população brasileira. Se cem anos atrás sonhávamos chegar aos 50 anos, hoje sabemos que corremos o risco de só ir ver os campos floridos depois dos 80 anos. No entanto, se olharmos para fora de nossas famílias, veremos que são poucos os líderes que chegam a essa idade. Não sei no seu caso, exceto e raro leitor, mas no meu, há mais pobre com idade além de 80 anos do que ricos. E os pobres chegam, diríamos, mais inteiros a essa idade. Não que isso tenha algum tipo de importância.
Enfim, de tanto falar em morte e enrolado por minha rotina de professor/pesquisador, deparo-me com uma situação complicada. Comecei a escrever este texto aqui lido por você, exceto leitor, na noite da segunda, dia 5. E na noite seguinte recebo a notícia da morte de seu Guerra, vizinho aqui de quarteirão, velado... na sala de sua casa. Segundo nota de falecimento, ele morreu com 84 anos de idade. Marcou sua história na ferrovia, desde a época da Estrada de Ferro Sorocabana, tendo trabalhado com meu vodrasto a que me refiro parágrafos atrás neste texto.
Mais um a juntar-se a uma geração que a essas horas deve estar a olhar para os campos floridos e imaginar o que pode ser inovado naquilo tudo. Sim, na minha proposta inicial deste texto eu queria chegar ao findar de uma geração de figuras que muito mais do que insubstituíveis fizeram a diferença na história centenária de Assis. Homens e mulheres que aqui nasceram ou para cá vieram quando acabáramos de sair da condição de patrimônio do bispado ou meramente distrito de Campos Novos Paulista. Assisenses que cresceram vendo a cidade ganhar corpo e contribuíram para a composição de uma história rica, densa e de orgulho.
Quando ingressei na imprensa de Assis o homem forte da política local era Cridão, ou simplesmente Euclides Nóbile, braço direito de Zeca Santilli. Esteve no segundo mandato daquele que foi um dos fundadores do PSDB e despediu-se de nós nos anos 1990. Àquela época, ao ver um seo Zeca raramente emocionado, ouvi do ex-prefeito, em sua chácara, que começava a findar-se uma geração que trouxera a cidade até o estágio em que se encontrava na segunda metade da década passada.
Depois de Cridão foram-se Abílio, Rui Silva, seo Zeca, dona Cida, Renato Rezende Barbosa e, surpreendentemente, José Luiz Guimarães. Para fechar o ciclo teorizado por Zeca Santilli, mais recentemente perdemos Paulo Rezende Barbosa. E a cidade ficou órfã do que eu chamo de políticos de verdade. E se você me questionar sobre o ex-deputado Hélio Rosas, a resposta está na obviedade de meu enunciado. Afinal, tenho o meu direito de definir o time de políticos com importância a partir de meu olhar de cidadão.
E em se tratando de políticos que partiram para os campos floridos, finda-se um ciclo. Daí o fundamento de a cidade ter ficado órfã. Lideranças políticas que emergiram nas últimas décadas não herdaram de nossos finados ex-gestores a política que corre nas veias em forma de sangue. Olho para a composição da Câmara Municipal nas últimas legislaturas e vejo um marasmo só. Vejo oposição só nas legendas, e não na postura. Pseudo oposição que se deixa levar por negociatas de cargos pequenos, tão curtos em duração quanto a passagem de determinados edis pela Casa de Leis.
Muito me admira – e não tenho escondido esse espanto aqui, em minhas linhas – que o cenário político de dois anos atrás tenha mudado tão drasticamente. A ordem natural das coisas mostrava José Fernandes e Márcio Veterinário na mesma chapa, mas na entrada de 2012 os pactos mudaram e separaram aquilo que politicamente não deveria ser rompido. A mais imbatível de todas as coligações tirou, em uma só tacada, quando do racha, três vereadores com índice expressivo de votos na Câmara: José Fernandes, Márcio Veterinário e Célio Diniz. O quarto vereador a sair da atual composição da Câmara elegeu-se prefeito: Ricardo Pinheiro.
Volto à filosofia presente no roteiro do filme “A Excêntrica Família de Antônia” para confiar nas sábias palavras de seo Zeca quando da partida de um de seus melhores amigos, Cridão. Afinal, da experiência de um velho nasce a inspiração para os caminhos de um jovem. A renovação, logo, se dá a partir dos exemplos que a vida nos mostra através de histórias vividas. Assim, a história recente, que não precisa ser contada, mas meramente lembrada a partir dos últimos 24 meses, mostra que sede demais pode quebrar o pote.
A rabugentice de Cridão, Zeca Santilli e Paulo Rezende é lida por seus admiradores como competência de quem viveu a política sem a sede do poder a qualquer custo. Sabedoria de entender o público, os cidadãos, como fazia João Corinthiano, que engrossa o coro dos frequentadores dos campos floridos e nos dá a certeza de que o atrativo não estava somente nos pasteis que corriam o risco de ter azeitonas dentro e, como tais, contemplar-nos tal qual o bilhete premiado da Mega Sena; estava no homem sério, compromissado com a família e, principalmente, com o negócio. Assim, o homem quando parte leva consigo não só a alma, mas a essência do negócio. E política é exatamente isso: um negócio difícil de ser entendido e que vai junto com a alma do dono.

*Professor universitário, jornalista e historiador, é mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo.

FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA


DEFINITIVO

A vinda da rede Lojas Americanas para Assis é resultado de pesquisa de mercado feita um ano antes em três unidades próximas: Presidente Prudente, Marília e Londrina. Isso confirma um movimento que há mais de vinte anos mostra o consumidor assisense conciliando compras e lazer fora daqui. Nas três cidades próximas a rede varejista está instalada em shoppings centers. Em Assis, a Americanas chega tendo adquirido o prédio. Fora de shopping.

CONCLUSÃO LITERAL

A última turma do curso de Jornalismo da Fema apresenta os trabalhos de conclusão nessa quarta-feira, dia 14. Os onze derradeiros jornalistas diplomados ingressaram em 2009. Desde então, não houve número suficiente de matrículas que justificasse a formação de turma. A última esperança, em 2011, quando mais de 80 vestibulandos fizeram opção pelo curso no processo seletivo, esgotou quando nem assim, com estimativa favorável, as matrículas migraram para o Jornalismo, ficando com a Publicidade.

ESPERANÇA

Nessa segunda-feira, 12, mais de 1.100 vestibulandos lotaram as instalações da Fema para o vestibular 2013. Jornalismo continuou sendo um curso procurado. Mais de 50 vestibulandos manifestaram interesse pelo curso como primeira opção. São necessárias 35 matrículas para a formação de turma em 2013.

VIDA QUE SEGUE

Fui fiscal de sala durante a aplicação das provas no vestibular deste dia 12, na Fema. Trabalhei com os professores Bia e Paulo, quer também ministram aulas no curso de Comunicação. Dos 72 vestibulandos de nossa sala, três haviam sido meus alunos na escola Léo Pizzato, no final da década passada. E no trabalho conjunto reencontrei Ariane, que naquela mesma escola integrou o projeto que coordenei denominado Jornal D´Escola. Ariane está concluindo o primeiro ano do curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas.

COMPETÊNCIA

Marcos Smania, formando de Jornalismo da derradeira turma da Fema, é mais um dos egressos que sai de Assis já empregado. O jornalista foi aprovado em teste feito há um mês em uma produtora de São Paulo. Apresenta-se imediatamente após a defesa do TCC.

EMBALADO

Meu amigo Emílson Cavalcante foi uma das vítimas da tempestade Sandy, que varreu a costa leste dos Estados Unidos. O publicitário e professor universitário estava em Nova Iorque quando a Maratona que leva o nome daquela metrópole norte-americana foi cancelada. Maratonista, Emílson passou os últimos meses preparando-se para o desafio.

PAI FRESCO

Nasceu a filhinha de meu amigo André Amaral, no Rio de Janeiro. Formado em Jornalismo pela Unesp/Bauru, Amaral é superintendente de entretenimento da Globo Esporte.com.

ANOS DOURADOS

O eletricista de autos Luizinho, da vila Orestes, levou a sério o hobby de DJ. De animador de festinhas de aniversário ele foi ganhando estrutura e agora ensaia eventos maiores. Neste dia 14 ele promove o Baile dos Anos 60, no Clube São Paulo. Depois, pretende fazer festa igual com as temáticas dos anos 70 e 80.

VEIA

Meus companheiros de hidromusculação Jura e Vágner Staut acabam de sair do molho. Ficaram mais de um mês fora das atividades físicas. Jura, o cozinheiro mais famoso da cidade, com uma inflamação no tendão de uma das pernas. Vágner, com um deslocamento na retina.

ORIENTE

Nivaldo, empresário do ramo gráfico, e o professor Rubens Cruz farão dupla no bando de loucos que vai ao Japão ver o Corinthians disputar o Mundial de Clubes da Fifa. Passagens aéreas, hospedagem e ingressos já estão adquiridos e contratados.

CAMAROTE

Um assisense que vai praticamente atravessar a rua para ver o time do coração disputar o Mundial é Ivo Barros. Meu ex-companheiro de trabalho na época da Gazeta do Vale está em Tóquio há quase dez anos. Por lá, casou-se com uma japonesa.

ASCENÇÃO E QUEDA

O Prudentão pode ser o palco de duas situações totalmente distintas no Campeonato Brasileiro deste ano. Depois de ver o Fluminense comemorar o título, o estádio de Presidente Prudente poderá assistir o rebaixamento do Palmeiras, que fará, lá, um dos três jogos que restam para encerrar o campeonato.

CÁ ENTRE NÓS...

... por que dinheiro para pagar o primeiro escalão tem?

A incômoda sensação de cidade abandonada


18 Outubro 2012



Cláudio Messias*

Leio que o Ministério Público Estadual impediu a utilização de algumas praças esportivas de Assis para a prática de competições oficiais. As razões que levaram a isso são conhecidas exatamente pelo público que prestigia torneios de futsal, por exemplo. Aos poucos, ginásios e estádios foram abandonados. Até chegar à condição caótica em que, pasmem, não oferecem segurança para o público.

Retornei a Assis, profissionalmente, há 9 anos. Desde então, testemunhei dois prefeitos, comandando três gestões. Modos totalmente opostos de gerir o esporte na cidade. Carlos Nóbile, com todas as críticas que sua administração merece e mereceu, foi o único prefeito que vi, em meus 42 anos de vida, adotar uma política pública de incentivo ao esporte, seja ele amador ou profissional. Sem aprofundar nos detalhes cito dois exemplos bem sucedidos de diálogo com a iniciativa privada: o Clube Atlético Assisense, no futebol de campo, e o Conti Assis, no basquete masculino.

No primeiro mandato do prefeito Ezio Spera, sucessor de Nóbile, mudanças bruscas no modo de administrar o esporte na cidade. O foco no esporte amador deu certo, sim, bastando olhar para centros esportivos construídos em complexos de bairros antes desabastecidos desse tipo de estrutura. O esporte profissional, contudo, foi tratado como se fosse um corte, um machucado, um trauma no organismo chamado poder público municipal. Ações diretas do gabinete do prefeito tiveram o efeito, na carne, de um torniquete. De tanto apertar, nesses oito anos, e o local que antes era tido como sangria agora mostra-se passível de amputação. Vejo o esporte morrendo em Assis.

O nome de uma cidade paga preço caro quando uma agremiação local o tem na denominação. O MAC era o “Marília” nos áureos tempos em que Palhinha e Andrei o levaram da Série A-2 à Primeira Divisão, ou então disputou a Série B do Brasileirão, dez anos atrás. Bastou uma década, contudo, para os investimentos cessarem e o mesmo clube levar Marília a um despencar íngreme de divisões, seja no estadual, seja no nacional.

Com Assis não tem sido diferente. Iguais dez anos atrás víamos o basquete masculino levando multidões ao Gema e, depois, ao Jairão. O fenômeno Conti Assis marcou uma geração inteira, que aprendeu a idolatrar Arnaldinho e Marcinho. Quase concomitante ocorreu a ascensão do Clube Atlético Assisense, que por 1 gol no saldo de gols não conseguiu o acesso à Série A3 em 2004. Basquete campeão do torneio Novo Milênio, futebol em alta. E o nome de Assis projetado. Nos últimos cinco anos, no entanto... Conti Assis tornou-se Assis Basket, e o Clube Atlético Assisense conheceu o lado extremo das dificuldades. O nome de Assis despencou junto, ano a ano, com as campanhas.

Desde que foi inaugurado, o Tonicão nunca foi um exemplo de instalação esportiva. No meu entender, aquele estádio foi inaugurado sem estar pronto. E continua incompleto até hoje. E a cada ano, a cada virada de gestão na Prefeitura, o caos se estabelece naquela praça esportiva. Quando Ezio Spera assumiu a prefeitura foi anunciada uma política que, confesso, me agradou. O Tonicão seria para competições profissionais, enquanto o esporte amador ficaria com o estádio municipal Marcelino de Souza. Se contar isso em Brasópolis ninguém vai acreditar, mas passaram-se oito anos, duas gestões e o prefeito não conseguiu reinaugurar o Sãopaulinho. É como se tivessem preparado a festa, confeitado o bolo, enchido a boca de todo mundo com água, mas, jamais servido o prato.

Como já disse aqui, neste espaço, nunca troquei uma palavra sequer com Ezio Spera. Faltando pouco mais de dois meses para terminar a administração o tenho como prefeito caviar, ou seja, nunca vi, não conheço, só ouço falar,. Como cantado por Zeca Pagodinho. E no começo ouvia falar bem, mas muito bem do pediatra, do articulador. Como jornalista, na época em que ele era candidato, em 2004, tentei falar com sua pessoa por diversas vezes, sem sucesso, pois um batalhão de assessores o blindava. Assessores esses que com o tempo caíram feito casca da ferida que o torniquete estancou parágrafos atrás.

Tudo bem, prefeito tem que agir. Falar é um detalhe. Logo, vou à práxis cotidiana desse prefeito a que me refiro. Sim, fomos administrados por um médico nesses oito anos. E médico bom no futebol eu só conheço dois: Zanini e André Gava. O primeiro, eterno parceiro do Vocem e do Assisense. O segundo, por sua atuação naquele fatídico jogo em que o Assisense foi prejudicado pela arbitragem e viu o Campinas conquistar a vaga para a A3. Não entremos em detalhes...

Um prefeito que não tem afinidade com o esporte e é médico tem, então, de resolver pelo menos parte dos problemas relacionados à saúde em uma cidade de pretensos 100 mil habitantes. Sim, nesse contexto temos o ambulatório de atendimento da Vila Maria Isabel, cujo funcionamento descongestionou Santa Casa e Hospital Regional, certo? Nem tão certo assim. Igual investimento, feito no Jardim Paraná, nunca saiu de uma construção inacabada. O ambulatório é para o bairro o que o Hospital Regional foi durante anos do governo do PMDB para toda a região: um elefante branco.

Em minhas duas décadas de atuação como jornalista em Assis sempre noticiei as crises da Santa Casa. Eu, meus irmãos e meus dois filhos nascemos naquela maternidade. Nessas etapas, que correspondem a gerações, meus filhos nasceram em momentos da história da Santa Casa marcados por séria crise financeira. No final dos anos 1990, por exemplo, aderi e trabalhei nas campanhas que tentavam, junto à sociedade assisense, arrecadar dinheiro para pagar as contas daquele hospital. E quando pela primeira vez vi um médico chegar à condição de prefeito imaginei, confesso, que ações concretas partiriam das políticas públicas para equacionar o problema da saúde não só da Santa Casa, mas da cidade como um todo.

Hoje leio que a situação financeira da Santa Casa de Assis continua séria. Sim, não é exclusividade daqui, mas de praticamente todas as cidades do país. Mas, gostaria muito que me convencessem do contrário desse enunciado lógico: nem todas as cidades cujas santas casas passam por crise são ou foram administradas por um médico.

Óbvio que um prefeito que seja policial não vai solucionar todos os problemas relacionados a segurança pública de sua cidade. E não seria o médico Ezio Spera que faria de Assis uma Havana dos anos 1990. Aquilo a que estou me referindo nessas linhas está centrado nas atitudes. Não se fez, mas, também, não tentou-se fazer. Ou se foi tentado, não mostrou-se.

De dois anos para cá o que percebo é uma falta de apetite pela coisa. Segundo e último mandato e surgem alianças antes inimagináveis. E o DEM faz pacto local com o PT, facciona parte da gestão e inicia-se uma fase da gestão totalmente sem identidade. Claro, pontos extremamente positivos sugiram daí. O Cine Piracaia, por exemplo, mostra isso. Exclusiva exceção (sic me!).

As alterações feitas no trânsito da cidade me parecem como os jogos da Seleção Brasileira na Copa de 1970. Todos os bairros foram afetados, direta ou indiretamente. E enquanto falávamos de uma ou outra rua com mudança de direção, não víamos as praças com mato alto, o parque Buracão sem investimentos, as escolas municipais com atraso na entrega de uniformes. Sim, um dia, só nos demos conta de que um ou outro amigo desapareceu para sempre enquanto assistíamos jogos da Seleção Brasileira depois que acordamos para a realidade da ditadura. E era tarde.

A cegueira coletiva foi tamanha nesses últimos meses de mudança na engenharia de tráfego da cidade que até mesmo a arte de rua do talento chamado Alemão desapareceu das paredes do túnel da Fepasa, e ninguém se deu conta de que a tinta que hoje arbitrariamente censura a expressão pela arte do grafite tem as cores do partido do prefeito. Vivemos a cegueira branca a que se referiu Saramago em seu “Ensaio sobre...”.

Vejo cada vez mais amigos, alunos e ex-alunos despedindo-se. Não da vida, graças a Deus, mas da cidade. Um certo desânimo paira nesse ar que por menor que seja a umidade relativa é carregado por cinzas das queimadas ilegais de cana. Cinzas que parecem poeira radioativa, cujo efeito letal será sentido aos poucos. Um exemplo dessa apatia coletiva? Dou, sim. E para mim, nesse interim, não há parâmetro melhor do que a opinião pública materializada no voto.

Se por um lado houve redução da vontade de governar a cidade, por outro houve diminuição na vontade de votar. Nietszche contemporâneo ratificaria sua teorização sobre vontade de potência. Nos fechamos nesse sentimento coletivo de amargura e deixamos de acreditar. Basta ver que elegemos Ezio Spera, por duas vezes, com mais de 60% dos votos válidos. E nessa última eleição nem os candidatos a prefeito e vereador apoiados por ele chegaram lá.

Partindo desse parâmetro, que tenhamos na figura do novo prefeito eleito uma esperança de que a energia de sua juventude de 36 anos contagie a todos. Tudo bem, não houve consenso na eleição de 2012 em Assis, isso todos já sabem e refletiram nos encontros coletivos de socialização, sejam eles físicos ou virtuais. De repente, é da falta de aposta sumária que sai a boa gestão. E estamos esperando isso já há algum tempo.


*Jornalista, historiador e professor universitário, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.