Jovem Pan Online - RSS

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Os meus cheiros pela Assis da minha vida

Cláudio Messias*

Sou um assisense que vê o sol nascer antes do que qualquer outro nativo dessa cidade dos três esses que resida na Cidade Fraternal. E nem preciso estar em outro país para tal. No nosso Brasil continental, sou um cidadão assisense, sem título honorífico - diga-se creditado política e hipocritamente - para tal, que vive na Paraíba, o estado da Nação onde o dia começa primeiro. Apesar de, ultimamente, a melhor definição para essa circunstância seria 'sobreviver' por aqui, quão árdua tem sido a batalha por, a cada data, testemunhar esse primeiro brilhar do dia. Tenho, pois, como recomendado por meus médicos, vivido e contemplado cada dia, e um assim, de cada vez.

Trabalho em Campina Grande, cidade de 400 mil habitantes, prestes a completar 150 anos de idade em 2015, a 110 quilômetros de João Pessoa, a capital. Mas, quando perguntado sobre onde moro, instintiva e naturalmente respondo "em Assis". Não é menosprezo a essa Campina que aprendi a amar e deliciar. É amor de filho para mãe. Uma mãe igualmente centenária, com um cheiro de Assis. Sim, recordo de Assis e lembro dos seus cheiros. E cheiro, cá no Nordeste, remete a um peculiar modo de, em forma de expressão, dizer "te gosto", "te quero bem", "fique bem". Os cheiros de Assis vêm e vão na minha saudade diária da família que deixei na Santa Cecília, ora vila Orestes, mas que o CEP dos Correios teima em dizer que é Vila Boa Vista.

Sou desses cidadãos sem parada no mundo. E de tanto andarilhar quase dele parti, exatamente ao completar 45 anos de idade. Aprendi um pouco nessa passagem por esse átomo chamado Terra. Tirar a gordura da picanha, por exemplo, é necessário, mas em nada adianta se você sapecá-la de sal grosso, quase engolir o vasilhame do litro de cachaça de acompanhamento e deixar metade das crianças da festa sem a sobremesa. Sim, chegou o bendito dia em que sinto saudade dos meus joelhos que não doíam, de usar remédio somente para eventual dor de cabeça e duvidar que verei tal Copa do Mundo ou Olimpíada, apesar de isso ser, na realidade, tão bom quanto desnecessário. E não são dias, é dia. Um dia de cada vez.

Por muitos dias acordei, em Assis, ao som do cantar do galo. Ou era o galo que minha avó paterna, Florcela, criava, na casa exatamente ao lado daquela onde hoje resido (olha eu ratificando minha residência em Assis, mas cá, agora, escrevendo no Bairro Liberdade, em Campina Grande), ou era o galo branco, 'de granja', que minha mãe mesmo criava, quando morávamos na mesma Santos Dumont, mas a duas quadras do Tênis Clube. E era um acordar movimentado. Padeiro entregava pão em casa, no portão, todo dia cedo. Igualmente, o leiteiro trazia as garrafas de vidro com a quantidade acertada. Não por acaso existem as anedotas maldosas contra as trabalhadoras donas de casa, assediadas por leiteiros e padeiros. Quantos filhos, brincam, não têm a cara do padeiro ou do leiteiro! Do lixeiro, não! Pois esses passam muito rápido. E olha que leiteiro e padeiro daquela época, caso surpreendidos fossem no imagético cenário do humor, nem tinham chance romântica de escapar, pois faziam entregas mediante uso de carroças. Padeiro com carroça de cor verde, leiteiro com carroça de cor branco.

Ouvir o cantar do galo remete a um som que vem de Assis. E aqui, ao lado, na rua Martins Júnior, a 2.800 quilômetros (em linha reta, de avião, pois via BRs da vida dá 3.100 km), meu vizinho, seo Luiz, tem um galo. Um galo que canta menos que o galo anterior. E pensem num galo que cantava. Foi parar na panela com menos de um mês, mas não sem antes ecoar seu canto a cada, digamos, meia hora. Ainda não ouvi definição folclórica ou científica que justifique o cantar de um galo, mas seja lá o que for, aquele galo tinha um repertório vasto de motivos. O de agora, não. Canta conforme a demanda. E foi com ele que despertei nessa manhã de quarta-feira, 1.o de julho. Não exatamente ao lado dele, no galinheiro, mas a questão de metros. Moro no primeiro andar e da minha sacada na varanda vejo o galinheiro. Deixo a porta da cozinha aberta para o diferenciado ar do clima de Campina Grande percorrer a casa e com ele entram os sons. O canto do galo, hoje, cá entrou suficientemente para me acordar e festejar mais um dia às 5h15. Céu claro, sol já alto e termômetro marcando 20 graus.

A porta aberta traz cá, no meu escritório, o cantar do galo e os cheiros. E, quem diria, um dia eu gostaria de sentir cheiro de bosta de galinha. Lá pelas tantas na vida já me acusaram de ter tititica de galinha na cabeça. Talvez sim, pois li certa vez que o cheiro contém resíduos invisíveis da matéria de que é exalado. E se isso procede, os neurônios envoltos em cocô de galinha e de galo advêm das minhas casas da infância em Assis. Uma época em que a vigilância sanitária permitia criar galinha em casa, sem multa via de regra mais prejudicial ao bolso do que a economia de comprar frango no supermercado. A mesma época em que podíamos ter pés de limão e laranja no quintal. Nunca acreditei na lorota de que o cancro cítrico fosse a tal real ameaça à laranja nacional. Entendo, até hoje, que, na realidade, cortar os pés de mexerica, limão e laranja das casas nas cidades foi uma maneira encontrada de evitar que a população, em regime de auto-sustentabilidade, produzisse os próprios citros e, lógico, não comprasse ou comprasse menos esses produtos nos supermercados. Uma articulação das políticas públicas em prol do cartel da indústria da laranja.

Ali, nos arredores da Santa Cecília, cheiro nunca faltou. Havia o cheiro da fornada de pão da Padaria São Sebastião. Quando o vento virava, lá vinha o cheiro do Buracão. Cheiro no jeito romântico de escrever a crônica, fedor na prática cotidiana de tolerar o resultado final do processamento do esgoto de parte da cidade. Em dias mais secos, no outono ou no inverno, quando a pressão atmosférica traz à superfície parte dos resíduos do ar, nos finais de tarde, o lixo queimado no Buracão proporcionava outro cheiro característico de uma Assis que não sabia o que fazer com seu fálico cartão postal, denominado como maior erosão urbana do Brasil. O medo era tamanho, gerado por linguarudos sem-noção da época, que quem morava em Cândido Mota temia acordar no dia seguinte com a beirada do Buracão de Assis à sua porta. Passassem 50 anos e o Buracão engoliria os Andes.

Nos anos 1980 o cheiro do Buracão mudou. Ficou só o fedor de esgoto. Com a instalação da usina de reciclagem e compostagem de lixo, na saída para Cândido Mota, já não mais ameaçada pela visita ingrata da voçoroca e ficando, basta, com a Lagoa do Sapo, o cheiro mudou de lugar. E com a novidade de ter o brinde das moscas varejeiras. Situação facilmente controlada pelas políticas públicas, que deram conta de desativar a usina e intercalar fases de reativação e novas desativações. E a cidade, que tem o cérebro pensante chamado Unesp, um dia chamada popularmente de Faculdade, deu conta de, à frente do que ocorre em localidades de igual porte país agora, adotar a coleta seletiva do lixo domiciliar. Se os políticos são insuficientes, a universidade faz o projeto e a população, adere. Não por acaso, prefeito para se eleger em Assis precisa ter 15 mil votos, de 65 mil possíveis. Assis não acredita na pirita, em ouro de tolo, ou, ao menos, dá a entender isso.

O cheiro mais recente, prevalente em Assis, vem também da mudança na direção do vento. Se antes ameaçávamos, no imaginário popular, Cândido Mota com o gargalo do Buracão, de uns anos para cá sentimos o cheiro do desenvolvimento que um dia rendia impostos e trabalho a Assis e hoje fazem desses fatores a base da economia da deserdada Tarumã. Cheiro azedo do processamento da cana de açúcar, quando chega a Assis, é sinal de quem vem chuva pela frente, uma vez que a passagem circular das massas de ar quente ou frio transitam exatamente na rota climática das duas cidades. Choveu em Tarumã, pode esperar, dali a 10 ou 15 minutos cai água em Assis. E quando é água, melhor ainda, pois limpa o outro cheiro que advém da usina. Um cheiro em forma de sujeira, resultado da criminosa queima da palha da cana-de-açúcar, razão principal de pelo menos metade da lotação de postos de saúdes e Unidades de Pronto Atendimento logo pela manhã.

Respiramos e sobrevivemos em uma Assis que para alguns parou no tempo e para outros, continua ideal. Sou do time que considera a cidade ideal. Jamais quis que a cidade passasse dos 100 mil habitantes. E dou gargalhadas, sozinho, quando vejo que o controle do Seade, órgão que regula estatisticamente o perfil dos municípios do Estado de São Paulo, mostra que não só temos menos de 100 mil habitantes, como levaremos pelo menos mais duas décadas para atingir tal utópica e alienada forma local de associar desenvolvimento a número de habitantes. Carinha casa com quase 30 anos de idade, tem no máximo dois filhos e ainda quer, da noite para o dia, que sua cidade cresça demograficamente. Não bastasse a anedota da TV em casa, agora quase todos têm internet, parafraseando a propaganda da incompetente operadora de telefonia.


Nesse momento, em que já passa das 8h00 e preciso dar um jeito na vida, o único cheiro que sinto de Assis é o cheiro da saudade. Saudade da minha casa, da minha esposa, dos meus filhos, dos meus cachorros, da minha gata, do meu quintal que tem jabuticabeira que dá florada quatro vezes ao ano. Com esses cheiros vem o som da André Perini, mas não tem o galo que canta; tem a corruila que visita minhas plantas junto com os primeiros raios de sol, alimentando-se dos bichinhos que habitam minhas orquídeas.


E nesse ritmo sigo por mais um dia que a natureza humana, na forma das mãos de médicos, me deu. Em Assis é feriado, aqui em Campina Grande é dia de labuta, apesar da greve na universidade. Amanhã sigo para Natal, onde coordeno grupo de trabalho no Congresso Regional da Intercom, a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação. De Natal sigo direto para Presidente Prudente. Aí sim, compensarei toda essa tristeza da distância da minha Assis aniversariante. Porque, como sempre digo, o que seria da felicidade não fosse a tristeza como parâmetro. Sou feliz em Campina Grande, mas muito mais feliz quando estou no meu ninho chamado Assis. E que eu consiga viver muito mais anos em Assis do que meu corpo tem sinalizado permitir. Eu, cidadão do mundo, sou apenas um anel nessa mão chamada Assis.

* Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.