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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A inocuidade do prefeito e os riscos do estádio Tonicão

Cláudio Messias*

Paremos de brincar de hipócritas. E refiro a uma hipocrisia quase lúdica, que advém de décadas. Prefeitos fingindo que têm propostas salvadoras e nós, na plebe, fingindo acreditar. Focamos, nesse tempo todo, nossos olhares para discussões irrelevantes sobre a vinda ou não de indústrias ou, pasmem, se a cidade tem mais ou menos do que 100 mil habitantes. Enquanto uma minoria pobre de pensamento parava para discutir isso e outras futilidades, outros grupos caminharam, avançaram. E, de repente, enquanto uns comemoram a nada significativa primeira centena de milhar de habitantes de Assis, a capital do Médio Paranapanema, outra parte reconhecia seus próprios méritos pelo fato de a Sucupira do Vale ser a 28ª melhor localidade do país para se viver.

Paremos, repito, de brincar de faz-de-contas. Estamos cristalizando na identidade de Assis uma personalidade de gestão da coisa pública que prima pelo incompleto. Exagero meu? Vamos, pois, aos exemplos. Retornemos a um passado não muito distante e peguemos o início da década de 1980, quando foi levantado o Hospital Regional. A capital do Médio Vale atendendo à micro-região com leitos hospitalares para as mais variadas emergências. Lá está, até hoje, um pronto-socorro improvisado, por onde certamente quem está no comando da prefeitura só entra em circunstâncias de 8 ou 80, ou seja, quando há alguma inauguração isolada a fazer ou quando alguém morre e isso ganha as páginas dos jornais sérios e as telas das hegemônicas redes de televisão. E olha que nos últimos dez anos tivemos um prefeito médico e hoje temos uma vice-prefeita médica.

O Hospital Regional nunca funcionou em sua plenitude. Tudo bem, é competência mais do Estado do que do município. Só que está aqui, dentro de Assis, fincado no coração da cidade, e traz responsabilidades complexas para a Sucupira do Vale pelo simples fato de haver convênios com o SUS, por exemplo. É como dizer que eu vou morar na sua casa, raro e exceto leitor, ocupar um quarto e você atribuir-me-á a total responsabilidade sobre aquele cômodo. Eu pago um valor a você mas não mantenho esse quarto limpo, a ponto de aparecer rato, aranha e outros inconvenientes. Eu faço a pergunta: você vai deixar esse quarto, no miolo de sua casa, apodrecendo e não tomará nenhuma atitude só porque a responsabilidade, ali, é minha? Há mais de 20 anos o Hospital Regional é uma estrutura deficitária, motivo de passa-ou-repassa de culpabilidade entre PSDB e PMDB. Quércia já partiu dessa para uma melhor - ou pior, sei lá - e ainda se ouvem tucanos dizendo que apesar de estarem há 19 anos no poder do Estado, aquele elefante branco fincado ao lado da Santa Casa não funciona por culpa da dupla Quércia/Fleury.

A avenida Paschoal Santilli é um dos mais ousados projetos de reestruturação urbana da história da cidade. Fazia parte, na década de 1980, de um complexo viário que tiraria o pesado trânsito da região central e o distribuiria por marginais. De um só pacote saíram a Paschoal Santilli, a Otto Ribeiro, a Perimetral e a Mário de Vitto. Em uma rota imagética poderia-se sair da Fema e chegar à saída para a rodovia Benedito Pires, rumo a Cândido Mota, em duas opções de trajeto: um pela direita, passando pela Unesp, e outra passando por trás do Terminal Rodoviário. Vias expressas, que nasceram em um período em que aqui, no interior, pouco ou nada falava-se nisso. E continuam somente na imaginação, pois a Paschoal Santilli sequer chegou à Dom Antônio, projeto interrompido judicialmente por uma igreja e que provoca transtornos sérios até hoje, quando Assis colhe frutos de um bom projeto de reestruturação de suas vias urbanas. Já as vias expressas... sim, quais vias expressas? O anel viário periférico ficou inacabado e a cada governante que entra o projeto é colocado de lado, faltando coragem de encarar o problema.

Só vou citar três problemas entre os tantos exemplos que temos de projetos iniciados e concluídos na condição de inacabados. O terceiro deles é o Tonicão. Teve torcedor que frequentava o inferninho, ou seja, o miolo da torcida do Vocem, tanto no estádio da Ferroviária quanto no "Marcelino de Souza", que morreu mas não viu a cidade ter um estádio que comportasse aquela multidão que acompanhava o Vila Operária Clube Esporte Mariano em jogos tanto dentro quanto fora de Assis. De promessa em palanque político o estádio Tonicão passou a mais um elefante branco, ou seja, uma obra pública inacabada. Cidades com porte muito menor do que Assis, que apenas sonham ter a qualidade de vida que as coloque na condição de 28º melhor lugar do país para se viver, têm estádios muito melhor estruturados do que Assis. Digo isso com a propriedade de quem, em 28 anos de jornalismo, percorreu estádios não só em território paulista, mas em outros Estados, na América Latina e na Europa. Mas, sem entrar na arrogância, fico somente com os parâmetros da própria Segunda Divisão, que é o torneio em que o Clube Atlético Assisense está inserido.

O Tonicão foi inaugurado inacabado, no início da década de 1990. Tudo bem, perto do que a torcida do Vocem tinha na Ferroviária e no Marcelino de Souza, com arquibancadas improvisadas, já havia melhora significativa com aqueles assentos em concreto. Chovesse, contudo, e todos estariam molhados. Sol quente na cabeça de 100% dos torcedores que pagassem ingressos. Banheiros que não conseguiam atender 200 pessoas simultaneamente, quiçá as 5 mil que cada setor do estádio comportava. Jogos à noite, impossível, pois não havia iluminação. Era, parafraseando Vinícius, realmente, uma casa muito engraçada. E continua sendo uma casa, do Assisense, muito engraçada. Só falta cantarolar que "ninguém podia entrar nela, não, porque na casa não tinha chão". Esse campo com grama esmeralda é o fim da picada, e desde o início. Duro, prejudica aos times visitantes, mas também aos donos da casa, engraçada. Lembro-me da temporada de 2004, quando o Assisense era treinado por Sérgio Caetano, que reuniu uma equipe de jogadores extremamente técnica. Fazia excelentes jogos como visitante, quando encontrava gramados de verdade, mas sofria para jogar no Tonicão. E isso refletia diretamente na confiança da torcida, que não via, com os próprios olhos, o bom futebol do time que quase chegou à Série A-3.

Passados mais de 20 anos o Tonicão é exatamente o mesmo estádio inaugurado com o confronto Vocem x Corinthians. Há, sim, uma melhoria ou outra na estrutura. Mas, me desculpe, estádio de futebol tem que ter setor de arquibancadas com cadeiras cobertas, iluminação e um gramado decente. Quem viu a Paraguaçuense no áureo tempo da segunda metade da década de 1990 sabe bem o que é um gramado bem cuidado, pois o tapete do estádio Carlos Affini, em Paraguaçu Paulista, era impecavelmente cuidado. E falta cuidado ao gramado do Tonicão? Claro que não. A grama é que é inadequada para o clima da região, uma vez que a esmeralda seca-se no outono e no inverno, voltando a formar-se somente entre o final de setembro e o início de outubro, reta final dos campeonatos mais importantes. No verão, quando a grama está perfeita, o estádio fica praticamente fechado para competições oficiais.

Hoje à tarde a Federação Paulista de Futebol faz reunião com representantes de todos os clubes que disputam competições oficiais no Estado de São Paulo. O assunto em pauta é justamente a condição dos estádios para a disputa de torneios oficiais na temporada de 2014. Sim, a Federação, em conjunto com a Polícia Militar, a Defesa Civil e a Vigilância Sanitária, está antecipando a tratativa de assuntos relacionados a segurança, acesso e conforto dos torcedores, de maneira que até dezembro todos os estádios, inclusive o Tonicão, passem por nova vistoria até 30 de novembro. Os clubes cujas sedes de jogos forem reprovadas terão até 30 dias antes do início dos campeonatos que disputarão para providenciar reparos em eventuais laudos que apontem irregularidades. Problemas à vista para o Tonicão, que chegou a ser interditado pela Federação no início deste ano e só foi liberado na semana da estreia do Assisense na Segundona. Quem vai fiscalizar isso? "Só" o Ministério Público Estadual.

O rigor cada vez maior da Federação em relação aos estádios faz sentido. Não basta um clube contratar bons jogadores, formar comissão técnica, captar apoio comercial da comunidade, enquanto o poder público submete a torcida a situações muitas vezes de risco de vida. Relembremos que o estádio Tonicão não tinha sequer sistema de pára-raios, motivo principal de interdição no início de 2013. É preciso que a água que sai das torneiras seja potável, pois nem todos têm condições de adquirir refrigerante ou água mineral no setor de bar do estádio. Do ponto de vista da acessibilidade, cadeirantes ou amputados, por exemplo, dependem da força braçal de voluntários para acomodarem-se no meio da torcida, pois caso contrário ficam postados no piso principal, no topo, com visão prejudicada pela distância do gramado. Sim, a 28ª cidade do país para se viver precisou ter o estádio interditado para pensar nisso, ou seja, nossos políticos não têm o mínimo planejamento e só funcionam no tranco, à base do chacoalhão que os acorde.

No domingo que vem o Assisense recebe a Inter de Bebedouro no mesmo Tonicão, debaixo, aparentemente, de sol escaldante. A meteorologia fala em temperatura de 32 graus ao meio-dia, o que é humanamente castigante, tanto para torcedores quanto para jogadores, árbitros, gandulas, enfim, os sujeitos sociais envolvidos no espetáculo. Caso vença seus compromissos em casa e busque ao menos dois empates fora o time de Assis garante, até dia 13 de outubro, vaga para a Série A-3 de 2014. E aí o bicho vai pegar ainda mais, pois a fiscalização sobre o Tonicão será outra, do ponto de vista estrutural. Além de comprovar a existência de 10 mil lugares para pessoas sentadas o estádio terá de dotar de sistema de iluminação para receber jogos à noite, no meio de semana, como estabelece o regulamento da A-3.

Considerando que quase entramos em outubro e que a Série A-3 do Campeonato Paulista de 2014 começará em final de janeiro, estamos a menos de 4 meses de o Tonicão estar pronto para receber jogos de uma divisão que Assis ainda desconhece. Esse calendário aperta-se ainda mais quando sabe-se que a classificação do Assisense para a A-3 representa a realização de jogos até o encerramento da Segunda Divisão, cuja rodada final está prevista para o dia 27 de outubro. A partir de lá a Prefeitura terá menos de 90 dias para providenciar seus procedimentos de maneira a garantir que Assis receba jogos pela nova divisão.

É sabido por todos que o grupo de empresários que assumiu o desafio de colocar o Assisense na Série A-3 manteve diálogo anterior com o prefeito Ricardo Pinheiro. Não assumiriam um projeto dessa envergadura caso não tivessem a contraparte da Prefeitura, que é responsável pelo estádio. Foi-se, sim, o tempo em que as prefeituras auxiliavam os clubes com dinheiro, impedimento que passou a ser fiscalizado pelo Tribunal de Contas do Estado a partir da segunda metade da década de 1990 mas que ganhou rigor extremo de 2000 para cá. Se a Prefeitura de Assis, pois, não precisa desembolsar irregularmente recursos e destiná-los ao Assisense, que, então, cumpra seu papel de gestora do patrimônio público da cidade e faça do Tonicão, definitivamente, um estádio decente.

As parcerias público-privadas são realidade explícita, aos olhos da sociedade brasileira como todo, com as obras que envolvem construção de estádios para a Copa de 2014. A iniciativa privada fazendo investimentos em setores antes exclusivos das costas do poder público. Exemplo local e recente nós temos no ginásio Jairão e no Parque Buracão, cujas quadras esportivas foram reformadas por uma cervejaria e isso rendeu, por um lado, economia aos cofres do município, e, por outro, ações de marketing à marca que liderou o projeto. Esse, a meu ver, é o caminho para solucionar, no tempo escasso necessário, o sério problema do Tonicão. Mas, se for fazer, que seja já, de imediato. Tire-se a bunda da cadeira macia da Prefeitura, sente-se no chão quente da arquibancada de concreto do Tonicão no domingo e já lá faça-se a reunião com os grupos de empresários que podem assumir ao menos a troca do gramado e o sistema de iluminação.

Vi e cheguei a elogiar aqui, no Blog, a presença do prefeito Ricardo Pinheiro no estádio Tonicão, lá no início do campeonato. Sim, pode ser uma questão de desencontro (ressalto que estando em Campina Grande/PB não fui aos dois últimos jogos do Assisense aqui, em Assis, na semana passada), mas faz algum tempo não vejo o prefeito nos jogos do time da casa. Se ele tem ido, está vendo o que aponto aqui nesse texto. Pois é, senhor prefeito, já não dá mais para ficar nessa novela histórica de empurrar o inacabado Tonicão com a barriga. A iniciativa privada mostra-se tão ou mais competente do que vocês, gestores públicos, quando o assunto é pôr a mão na massa e viabilizar as coisas. Caso o senhor necessite de um exemplo eu peço que quando for ao Tonicão olhe bem para o sistema de pára-raios e recorde-se de como aquilo foi providenciado a tempo de o Assisense iniciar a brilhante campanha atual diante de sua torcida.

Que o Tonicão seja o marco inicial de uma operação pública que termine o que foi começado. Caso contrário, que a cidade entre em contagem regressiva, suporte os três últimos anos de mandato do atual prefeito dos 15 mil votos e feche-se coletivamente de maneira a só colocar na Prefeitura um gestor que, primeiro, faça funcionar em plenitude o que está inacabado. Colocou a cidade em ordem, aí então fale daquilo que pretende fazer como sendo novo. Porque de promessas nós já vivemos em Assis há algum tempo. No meu caso, há 43 anos.



Foto: Blog do Messias - 28ABR2013

O torcedor que vai ao Tonicão fica exposto a sol 
ou chuva, senta no concreto e enfrenta fila para usar 
os dois únicos banheiros nos intervalos de jogos


*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.


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