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quinta-feira, 10 de abril de 2014

SE A BOLA FALASSE - Edmar Frutuoso e o vice-campeonato que valeu título

Cláudio Messias*

O mundo da bola tem suas próprias regras, suas crenças peculiares e alguns mistérios cercados por quatro linhas que nem a vã filosofia desafia explicar. Não há uma lógica que fundamente determinado resultado, da mesma forma que em apenas um lance o maior perna-de-pau de um time torna-se ídolo e, no paradoxo, o craque de um elenco transforma-se em vilão para a massa das arquibancadas. Pior, há segredos que tal qual o Santo Graal podem até ser especulados, mas jamais integralmente revelados.

É nesse universo de explicações incompletas que surgem histórias relacionadas às inúmeras injustiças protagonizadas pelo futebol. Via de regra, todo mundo já conheceu alguém e o viu jogar de perto, na rua, no campinho ou na quadra, o suficiente para compará-lo a craques renomados pelos holofotes da grande mídia. Dali, da vila Santa Cecília e arredores, Márcio Eloy, o Marcinho, com seus dribles desconcertantes, nos remetia a Cafuringa e Garrincha, guardadas as devidas proporções e respeitadas as diferenças de posições táticas. Carlos Sabará talvez superasse Cafú nos avanços pelas laterais, disparado e deixando mais de um marcador na saudade. Joelson Nascimento, o Branco, era daqueles zagueiros que poucas faltas faziam, colocavam a defesa em ordem e corrigiam até mesmo o posicionamento dos goleiros, lembrando o xerifão Oscar, de 82.

O futebol varziano de Assis tem essas lendas, ora vivas, ora já eternizadas na memória como boas lembranças de quem por aqui já passou. Algumas delas chegaram ao time profissional do Vocem. E como era bom encontrar, nas ruas, vendo-os trajando camiseta, bermuda e chinelo de dedos, mortais como Adilsinho, Carlão, Pelé, Jamil, Biro Biro, Marinho, Zé Davi, entre tantos outros nascidos na Sucupira do Vale. Simples e iguais mortais, como o professor de geografia Geraldo, que um dia vestiu a camisa da Ferroviária nos áureos tempos da Sorocabana. Cada um desses personagens tem histórias para contar. Alguns dos personagens, inclusive, sequer na cidade ficaram para narrar suas passagens históricas. O zagueiro Renatão, por exemplo, não encontrou clima para permanecer em Assis na primeira metade da década de 1980.

Na peneirada dos causos do futebol amador de Assis aparece a eterna pergunta, que não cala. Afinal, por que Edmar Frutuoso, o Zico, nunca foi titular do Vocem e jamais consagrou-se nos grandes clubes de futebol do Brasil e do mundo? Obviamente que estou falando de um craque. E não sou eu, apenas, que compactuo dessa opinião. Quem teve o prazer de ver Edmar jogando, a honra de tê-lo no mesmo time e o azar de encará-lo como adversário sabe do que estou falando. O cara era um show à parte. Tirar a bola de seus pés, nem a lei da física. Defender seu chute seco e potente era para poucos goleiros. E fechar as canetas de que jeito? Jogar futebol exige passadas e com as pernas abertas lá estava Edmar canetando. Entrar duro na jogada significava sair de campo ou quadra com o cabelo penteado pelos bonés recebidos ou com a coluna doendo, tamanha variedade de dribles.

Dia desses, no clube em que somos somos sócios, Edmar e eu tomamos algumas cervejas e colocamos a conversa em dia. No meu caso, um atraso de prosa de 44 anos. Nossos pais, hoje ferroviários aposentados, construíram casas a uma distância inferior a 100 metros. Eu, na Santos Dumont, Edmar, na José Coelho Barbosa. Não sei o quanto ele, o craque, é mais velho do que eu. Mas, lembro-me menino vendo aquele já jovem petecando a bola sem deixar cair, com uma habilidade típica de quem conhece e domina a arte. Digo isso porque poucos conseguem fazer as tais embaixadinhas independentemente do calçado que têm nos pés ou mesmo descalço. Edmar controlava a bola com tênis, sem tênis, de sapato, de sandália... acho que até de coturno de Tiro de Guerra ele seria capaz de fazer as mesmas manobras com a redonda.

Eu, moleque, fã de Edmar. Não era seu amigo, até porque algumas primaveras separam nossas idades e os mais velhos, com toda razão, não suportam os pentelhos mais novos. E sempre tive curiosidade de falar sobre futebol com aquele vizinho que, apesar de próximo, mostrava-se distante. Alguns cumprimentos aqui, outros acolá, mas prosa que é bom, nada. Até que um dia, alguns meses atrás, na companhia de Júlio César Amorielli, dividimos o balcão do restaurante do ATC, aguardando, em vão, a liberação de mesas em happy hour animado pelo competente Catedral do Samba. Lá, tive a oportunidade de confidenciar a idolatria, desde a infância, pelo Zico, vulgo Edmar Frutuoso. Bastou para que o craque da Santa Cecília encanasse e encarnasse. Ficaria, ali, a promessa de outra oportunidade para nova prosa sobre o universo do futebol, já que desisti do plano de curtir o happy hour em pé naquela ocasião.

Reencontrei Edmar, o Zico, na cantina da sauna do clube, já tomando uma cerveja, eu, para retornar para casa. Veio, trouxe uma garrafa, sentou-se e perguntou se realmente era verdade aquilo, de eu ter sido dele na infância. Confirmei, claro, por tudo que já relatei aqui. E, então, lá vieram inúmeras histórias sobre sua trajetória no futebol, com destaque a uma passagem que eu, quando repórter na imprensa escrita, não deixaria escapar do registro. É, como venho discorrendo ao longo desse texto, um desses exemplos de que há, sim, uma Justiça específica no tribunal chamado futebol. E não são os homens ou os santos que ali decidem destinos; é a bola. Ah, essa danada da bola, que também dá tantas voltas...!

Esse reencontro aconteceu questão de semanas atrás. E pela primeira vez conheci um desses casos reais em que o campeão foi, na prática pragmática, vice. Explico.

O ano era 1988 e Edmar acabara de retornar de Pirapozinho, onde fora trabalhar. Bancário, o Zico da Santa Cecília sempre foi destaque na Copa Assis de Futsal, um desses torneios que a competência criou e a insuficiência administrativa pública tratou de extinguir. Edmar toda vida teve relação direta, indireta, subjetiva e objetiva com o Banespa, banco hoje adquirido pelo Santander e que tanta história fez na Copa Assis. Mas, naquele ano, apesar de o craque disponível estar ali e de todas as condições mostrarem que Edmar disputaria o torneio pelo Banespinha, na hora H, no último dia, ele não foi inscrito. Sua ficha não foi levada à Liga Assisense de Esportes. Ninguém entendeu nada. Acho que nem Deus compreenderia aquela confabulação que envolveu a não inscrição de Edmar.

O Itaú também disputava a Copa Assis e, além de concorrer com o Banespa em contas corrente e poupança, travava boas disputas na quadra do Gema. E a ficha de Edmar foi inscrita, na LAE, pelo Itaú, sob a supervisão de Jamil Haddad Filho. Claro, não deu outra. Itaú e Banespa, tal qual Corinthians x Palmeiras, Flamengo x Fluminense, Real Madri x Barcelona, fatalmente se cruzariam na reta final. Cruzariam e cruzaram. Estava, pois, armado o universal tribunal da bola.

Gema lotado, semi-final da Copa Assis de 1988 e no primeiro duelo da noite, Itaú x Banespa. Gol aqui, gol ali, jogaço de futebol de salão é aquele com placar magro, não precisando, necessariamente, que haja um vencedor no tempo normal. O Banespa fez 1x0 no primeiro tempo e o Itaú virou no segundo. No resultado definitivo, 2x1 para o Itaú, com gol de quem? Claro, Edmar Frutuoso, o Zico da Santa Cecília, algoz da eliminação do time que o preteriu na Copa Assis. No canto dos olhos as gotas de suor disfarçavam as lágrimas conforme a relembrança de Edmar. O jogador que respeita o futebol faz gol, nem que seja contra a agremiação que é dona de seu coração, pois gol é o fundamento da alegria que vem da arquibancada. E naquela noite o Gema, lotado, queria ver gol. Gol de Edmar, contra o Banespa, no fechar do cronômetro. Itaú finalista da Copa Assis, Banespa eliminado.

No jogo da final o Fernandel enfiou 3x1 no Itaú e levantou a taça real, física, da Copa Assis. Edmar, porém, não lamentou o vice-campeonato. Afinal, o título metafísico, da justiça do futebol, havia sido comemorado na semi-final. Edmar Frutuoso, o Zico da Santa Cecília, é um desses campeões que os anais da história não registram, mas que a memória coletiva, popular, perpetua e legitima.

Nessa sexta-feira, 11 de abril, Edmar Frutuoso pode fazer sua estreia como comentarista esportivo na Rádio Assiscity Online. Sabe muito de futebol, é chato torcedor do Flamengo e do São Paulo e tem todas as condições de consagrar-se na crônica esportiva de Assis. De minha parte, retiro o chapéu da cabeça e cumprimento meu novo colega de crônica, desejando-lhe uma trajetória de muito sucesso, paciência e equilíbrio para lidar com o obscuro universo do futebol profissional de Assis. Edmar soma-se às competências de Bruna Fernandes, Augusto César e Carlos Perandré para a transmissão de Bandeirante x Vocem, em Birigui. Não tenho dúvidas, terá ainda mais histórias para contar. E, menos dúvidas ainda, será um prazer coletivo ouvi-lo com suas prosas ora normais, ora aumentadas, mas, jamais diminuídas.


Foto: Blog do Messias
Foto registrada por Roberto Cardoso de Almeida, no ATC: Edmar (à direita) e suas histórias



*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

Um comentário :

Fábio Manfio disse...

Belissima matéria e que justiça seja feita mesmo que tardia, Edmar (Zico) realmente era show de bola. Parabéns amigo Claudio, sucesso Edmar !!!!