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quinta-feira, 17 de abril de 2014

MEDIDA INCERTA - Dois anos depois, treze quilos a menos

Cláudio Messias*

Exatamente 730 dias depois de tomar a segunda, em então 42 anos de vida, decisão que me levaria a uma completa reeducação alimentar, cá estou, dois anos depois, publicando mais uma seção, no Blog, a que denomino Medida Incerta. Incerta por não ter compromisso com metas, nem orientações formais para aquilo que devo fazer ou comer. Busquei conhecimento mediante consultas médicas e navegação pela internet, e atribuí responsabilidade exclusiva a uma pessoa: o cidadão Cláudio Messias. Esse que vos escreve.

Em abril de 2012 eu me preparava para viajar a Florianópolis, onde prestei concurso na universidade estadual de lá (UDESC). Fiquei uma semana na Praia do Sonho, em Palhoça, onde meu primo, Ilonso Sussel, tem, com a família, casa e restaurante. Não foi naquela vez que assumi cargo efetivo docente em universidade pública, mas a parada de 5 dias em uma desértica praia já sem o caloroso movimento do verão serviu de inspiração para algumas revisões sobre minha vida. Precisava, pois, equilibrar corpo e mente.

No janeiro anterior eu havia passado pela tradicional bateria de exames a que me submeto todo início de ano. Na passagem pelo Centrocor, em consulta com o amigo e competente cardiologista Marcos Elias Nicolau, pesagem e aferimento da pressão arterial antes de entrar na consulta. Pressão na casa dos 14 por 9 e o peso de 105 quilos (com roupa, pois a partir dali passei a pesar, no clube, sem roupa e a balança marcava 104 kg). Exames de sangue pedidos e feitos, ecocardiograma daqui, eletrocardiograma dali, esteira, bicicleta e, enfim, a constatação. O coração continuava em ordem, mas a pressão arterial, no limite e os elementos sanguíneos, idem, indicavam que providências precisavam ser tomadas.

Quem já leu minhas postagens anteriores no Medida Incerta está confirmando que, sim, quem passa dos 40 anos de idade repete as mesmas histórias e não se dá conta. Finjamos que não me dei conta disso, pois é necessário ratificar, aqui, essa trajetória de dois anos. Digo isso porque muitas pessoas têm lido minhas postagens e enviado comentários ou e-mails dizendo terem-se identificado com minha realidade e, o que é melhor, sentindo-se estimuladas a fazer o mesmo. É a comprovação de que qualquer um, a qualquer momento, pode mudar seus hábitos e, sem pressa, colher resultados. Basta saber o que vai começar, planejar os caminhos que percorrerá e, desde, já saber exatamente onde quer chegar, seja em peso, em composição sanguínea ou densidade de atividades físicas. Sim, claro. Não há resultado algum sem que as atividades físicas sejam agregadas ao cotidiano.

Naquela semana que passei na catarinense Praia do Sonho fiquei todos os dias sem consumir carne vermelha, uma vez que adaptei-me à rotina da família que acolheu-me, fartamente adepta de peixe no cardápio. Já tinha decidido que, retornando a Assis, iniciaria essa mudança gradativa e ao mesmo tempo drástica na minha postura cotidiana, começando pela alimentação. Mas foi lá, na orla da praia, que perguntei-me, logo no segundo dia, por que não começar minha mudança exatamente ali. Fiz, durante cinco dias, caminhadas desde a Ponta do Papagaio até a Ponta da Pinheira, em ida e volta, percurso que deve ter, no total, uns 7 km, ou até mais. Com refeição à base de peixe e saladas, senti a diferença no metabolismo antes mesmo da viagem de retorno a Assis. Intestino funcionando perfeitamente e as refeições sendo feitas em intervalos menores, em porções igualmente reduzidas.

Cheguei de volta à minha casa, em Assis, com mais de um quilo a menos naquela ocasião. Eu e Rozana, a esposa, compramos uma dessas balanças digitais caseiras e passamos a nos monitorar. Ela, mais sedentária, não é muito adepta de atividades físicas, ao contrário de mim, que durante toda a vida pratiquei esportes, só que sem regularidade. Relembrei, na ocasião, a conversa que havia tido com Marcos Elias Nicolau, o cardiologista, meses antes. Havia uma ordem e não uma recomendação de (i) perder peso, (ii) adequar a alimentação e (iii) iniciar atividades físicas, caso realmente eu quisesse chegar, vivo, à idade que meu tinha naquele 2012, ou seja, 71 anos. Hoje, meu velho está prestes a comemorar saudáveis 73 anos.
O caminho percorrido nesses 24 meses está fartamente relatado nas postagens anteriores, que constam no acervo desse Blog. Costumo dar um panorama sobre meu peso a cada dois meses, não muito regular nesse controle periódico. Tive, sim, períodos de relaxamento, em que, especialmente nas férias de final de ano, voltei a ganhar peso. Sempre, contudo, com entusiasmo para logo em seguida retomar o controle e dar sequência à meta de, daqui exatamente um ano, em abril de 2015, atingir o limite de 88 quilos, pelo que tinha quando casei, em 1994. A estratégia de marcar minhas consultas com Marcos Elias Nicolau nos meses iniciais de cada ano favorece para esse reenquadramento de postura.

E se eu pesava 104 quilos, afora roupas, em abril de 2012, hoje, dois anos depois, estou pesando 91 quilos. Precisamente, a balança que comprei semana passada marcava, no início da manhã dessa segunda-feira, 91,3 kg. A realidade cotidiana, minha, é outra. Se 24 meses atrás eu iniciava a reeducação alimentar e de postura física na expectativa de trocar Assis por Florianópolis, hoje vejo-me tendo trocado Assis por Campina Grande, na Paraíba, onde na semana passada assumi cargo docente efetivo na Universidade Federal. Quinze dias aqui, no Nordeste, e uma necessidade de nova adaptação, agora ao cardápio e à rotina totalmente diferente daquela que levava em Assis.

Nem tudo, porém, aconteceu conforme o programado nesses dois anos. Ou, ao menos, conforme o imaginado. Queria, eu, chegar nesse abril de 2014 abaixo da marca dos 90 quilos. Isso quase foi possível, mas a instabilidade que marcou minha rotina de janeiro passado para cá provocou alguns desequilíbrios. Não contrariando meu próprio discurso, porém, não encano com marcas e números não atingidos. Isso evita que seja gerada frustração ou tipos de decepção que, comuns em dietas tidas milagrosas, acabam desestimulando o adepto e implicando no conhecido efeito sanfona. O gráfico demonstrativo de peso nesses dois anos, publicado ao final desse texto, sinaliza bem o quão oscilante foi a marca de minhas balanças no período referido.

Estou pouco mais de 1 kg acima daquilo que imaginava chegar agora. Creio que metade desse peso a mais esteja relacionada à estagnação de atividades físicas a que fiquei submetido em Campina Grande nos primeiros 10 dias desde a chegada. Minha prioridade, além de formalizar a burocrática posse na UFCG, era encontrar um apartamento para alugar e iniciar a estruturação de minha vida pessoal cá, no maior polo tecnológico do Nordeste, a capital do São João. Cumprido, em partes, isso, tracei estratégia para minhas caminhadas-corridas matinais e inicie busca por lugares onde possa praticar atividades físicas na água. Ou seja, reproduzir em Campina Grande a rotina de práticas esportivas que caracterizou meus últimos 24 meses em Assis.

Durante mais de uma semana fiquei submetido a refeições de restaurantes. Não bastasse a culinária típica ser totalmente diferente, os pratos têm concentração de gordura e sal muito além do que meu paladar passou a tolerar desde que adotei a reeducação alimentar. Isso só foi resolvido na semana passada, quando passei a cozinhar meu próprio almoço e, assim, voltei a reduzir ao mínimo as porções de gordura animal-vegetal, sal e açúcar. Senti, em questão de dias, a diferença no meu próprio metabolismo. Não ganhei muito peso nesse período de exceção, mas minha pressão arterial, que monitoro em casa, deu alguns pequenos saltos. Tudo, agora, equilibrado.

Minha rotina, hoje, é de um despertar mais cedo do que costumava fazer em Assis. Se na Sucupira do Vale o meu despertar acontecia às 6h20, para preparar o envio dos filhos ao colégio, aqui em Campina Grande, pelo fato de a Paraíba ser um dos estados brasileiros a compor o extremo leste da América do Sul, o sol nasce por volta das 5 horas. Não consigo despertar depois disso e, assim, pulo da cama antes das 6h00. Meia hora depois estou a caminho do Açude Velho, em percurso de 20 minutos de caminhada. Naquele espaço público campinense dou duas voltas no entorno da lâmina d’água, o que soma mais 45 minutos. O retorno, de mais 20 minutos, já é feito de forma moderada, sem forçar, uma vez que subo uma ladeira considerável.

No apartamento chupo algumas laranjas que, preciso relatar, são deliciosamente doces. Vêm, segundo explicou-me seo Chico, do Mercadão de Campina Grande, a duas quadras de meu lar, de plantações da Bahia, nos arredores do Rio São Francisco. Não confundir com laranja da variedade “baiana”. Tem dia que chupo 4, tem dia que consumo mais do que esse número de laranjas, dependendo da sede com que retorno das caminhadas. Feito isso, ajeito minhas coisas e, meia hora depois, tomo um café da manhã que também consigo manter igual ao que havia colocado na rotina em Assis. Digo isso porque, depois de frustradas peregrinações por supermercados e hiper centers de Campina enfim encontrei, nas lojas Americanas, as torradas da linha Magic Toast, da Marilan, que, saborosas, têm baixíssimo teor calórico. Assim, meu café tem torradas, requeijão e café preto feito com açúcar light.

Meus almoços seguem a composição de arroz e feijão preparados com óleo de canola e pouco sal. Além de salada, acompanhamento com carne cozida. Mesclo frango com peixe, favorecido pelo fato de a proximidade com o mar paraibano, pernambucano, cearense e potiguar proporcionar preços mais convidativos. Resisto no preparo de carne vermelha, mais cara, aqui, do que em Assis. Igual restrição guardo à carne-de-sol, que mesmo preparada assada contém alto teor de gordura e tem no sódio o seu fator de conserva. Para beber, impossível não aderir ao suco de goiaba, servido na maioria dos restaurantes por onde passei.

No restante do dia, lanche por volta das 17 horas. Tradicional que sou, não resisto a um café com leite com bolacha do tipo “maria” juntada, em bloco, com a mediação de margarina. Trago esse costume desde a época em que lanchava na casa de minhas avós materna e paterna. Mania que passa de pai para filho, pois meus dois rapazes volta e meia são vistos fazendo o mesmo com as bolachas em seus lanches vespertinos ou noturno.

É sob esse controle alimentar, acompanhado por rotina de atividades físicas, que chego ao dia 15 de abril completando exatos dois anos de reeducação integral na postura alimentícia e corporal. Calças, cuecas, bermudas e, agora, camisetas estão ficando para trás. O que vestia GG ficou jeca e encontra-se guardado no armário, lá no fundo, sem uso. E do final do ano passado para cá a medida G também começa a sobrar no corpo. Principalmente as camisetas G ficam mais folgadas no abdômen, cujas medidas foram reduzidas de 117 cm para 101 cm. De barriga saliente o mesmo abdômen volta a ganhar o desenho que tinha antes, o que soa estranho para uma pessoa que por vinte anos não via outro peso na balança que não fosse na marca acima dos 98 quilos.

A bateria de exames que tive de fazer para ingressar no corpo docente efetivo da Universidade Federal de Campina Grande comprovou o quão bem está minha saúde. Fatores sanguíneos como triglicérides, colesterol bom e ruim e diabetes encontram-se abaixo dos patamares considerados de limite. E a pressão arterial há muito não sai dos 12 por 7. O resultado de tudo isso são noites de sono totalmente controladas, de maneira que, como desperto por volta das 5h00, não mais que 22h00 eu já esteja recolhendo o time de campo. Claro, favorecido pelo fato de, estando sozinho em Campina Grande, não ter o monitoramento permanente que mantinha, em casa, sobre os dois jovens filhos.

Acredito que daqui a um ano, quando completar o período traçado para a minha completa reeducação alimentar e física, terei sustentado esse conjunto de fatores positivos que, hoje, tamanha sensação de bem estar proporciona. Sono controlado, disposição física para as atividades rotineiras, entusiasmo maior para os desafios profissionais e de pesquisa e uma suficiência de controle sobre as adversidades são apenas alguns dos elementos que, positivos, pesam fortemente a favor da continuidade do projeto de vida que tracei. Com 88 quilos ou menos terei minha saúde sob controle e um entusiasmo maior para repetir a trajetória salubre de meu pai e parentes mais velhos, cujo passado de várias décadas mostra rotinas sem vícios e libertas de exageros.

Como lema próprio construí, nesses 24 meses passados, o ponto de vista de que alimentar-se indevida e exageradamente e, ainda por cima, privar-se das atividades físicas é incondizente com a principal qualidade da espécie humana, que a diferencia das demais. Não podemos, a meu ver, ser inteligentes o suficiente ao nos percebermos acima do peso e imersos em uma rotina com escassez de atividades físicas. Quando obeso, eu não tinha qualidade de vida. E aquilo gerava uma sensação de frustração que, penso, fechava-me em um universo de leitura do meu próprio eu que submetia-me a um auto-olhar de incapacidade. Eu era infeliz comigo mesmo e, pior, sabia daquilo. E reconheço que para sair desse universo nebuloso da baixa autoestima muitas vezes é necessário recorrer ao auxílio da psicologia ou mesmo da psiquiatria. Atingir o equilíbrio, portanto, muitas vezes depende de estímulo externo.




*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.

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