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terça-feira, 30 de abril de 2013

O sepultamento de uma mocinha, de nome Cultura FM


30 ABRIL 2013




Cláudio Messias*

Custamos a acreditar nas perdas irreversíveis. Deixe cair seus óculos em um rio de água turva, profundo e com correnteza forte e entenderá essa sensação a que me refiro. A sensação de que algo de valor imensurável foi embora e nunca mais retornará. Sim, já perdi um par de óculos na circunstância citada, tive de dirigir quase 300 quilômetros debaixo de chuva, quase cego por causa disso, e também já vi um ‘pé’ do par de chinelos de um de meus filhos cair da balsa em alto mar, na travessa para Guaratuba, no litoral paranaense. Aquele chinelo, aquele par de óculos, sabíamos, jamais retornariam.

Sabemos que não há retorno, mas sempre que lembramos das circunstâncias da perda ficamos com a sensação de que poderíamos ter feito algo que evitasse aquele desprendimento. Acho que é esse o sentimento que paira nos corações e mentes de profissionais que trabalham ou trabalharam para a família Camargo no Sistema Cultura de Comunicação. A venda da Cultura 2 FM apunhalou a todos. Afinal, foi vendida a nossa ‘mocinha’, a filha mais nova, aquela que era e é paparicada. A alma ficou ferida.

A Cultura FM nasceu no dia 1º de julho de 1980. E naquele que considero o momento mais mágico da música no mundo. Acho que prova disso é que casamentos, formaturas e festas de final de ano de empresas são, há alguns anos, encerradas com a já tradicional distribuição de perucas, óculos e chapéus que fazem alusão ao comportamento dos jovens correspondente a um período que variou entre 1975 e 1985 e ilustram a transformação das festas em verdadeiras ‘brincadeiras’, como as que eram feitas em residências ou discotecas.

A primeira emissora FM da região tirou-nos do opaco som do AM e deu-nos a qualidade do estéreo. Dos 2/3 de locução do AM passamos a ter 2/3 de músicas tocadas no rádio. E aquilo era o máximo, pois a cada 15 minutos tínhamos 3 músicas tocadas inteiras, sem interferência de comerciais ou do locutor. E o que era melhor: podíamos ligar na Cultura FM, pedir a sequência de músicas e colocar para gravar em fita K-7, fazendo o nosso repertório e ficando independentes do engessados vinis.

Comecei minha história na Cultura em 1985. De estágio passei a contratado. Primeiro, como técnico de som que levava ao ar gravações feitas por Chico de Assis, do AM, para o período das 6h00 às 8h00, no FM. Fazia, também, a folga dos locutores, que naquela época eram Beto Balanço, Peninha Black, Roma (Jet Boys), Marcos Biondi, Silvinha e Camarguinho. Depois, passei a redator dos boletins informativos e, na sequência, editor de jornalismo. Sempre, desde aquela época, ouvia o chavão de que “o AM sustentava o FM” na emissora.

A Cultura FM era vista, no grupo empresarial, como uma filha rebelde. Dava, sim, menos lucro que o AM. Mas, duvido que dava prejuízo, como era alegado. Celso Camilo Costa era um dos donos do discurso de que era mais fácil vender anúncios para o AM do que para o FM. Ouvia aquilo e comparava a Cultura FM ao que a sociedade como um todo já estereotipava sobre os estudantes que, vindos de fora, aqui estavam para fazer graduações na Unesp. Ser jovem e atipicamente romper paradigmas, parece-me, incomoda alguns olhares da sociedade de Assis, e não é de hoje.

Hoje a Cultura FM está prestes a comemorar 33 anos. Chegará ao aniversário, contudo, sem essa identidade. A família Camargo a venda da emissora para um grupo de comunicação do Paraná. Mudam nome, estilo e públicos. Somente alguns profissionais e o prédio de funcionamento continuarão, ao menos no início, os mesmos. Entre as permanências estão Toninho Scaramboni e Henrique de Oliveira.

Tive a curiosidade de sintonizar a tal da Interativa FM, emissora que pertence aos novos donos da Cultura 2 FM. Fique assustado e decepcionado. A conclusão a que chego é que perdemos a única opção que tínhamos de escapar do sertanejo meloso e do pagode. Exceto das 6h00 às 7h00, a Cultura FM não tocava músicas sertanejas havia anos. E era reconhecida como uma das únicas emissoras do Sudeste a manter o gênero, na contramão do apelo que grandes grupos de comunicação como Folha, de Londrina, e Jovem Pan, de São Paulo, fizeram.

A Interativa FM, que comprou a Cultura FM, tem, neste momento, o seguinte Top List no site www.fminterativa.com.br:
·         1.TE ESPERANDOLUAN SANTANA
·         2.FAZER BEBERGUSTTAVO LIMA
·         3.A HORA É AGORAJORGE E MATEUS
·         4.AMOR DE CHOCOLATENALDO
·         5.93 MILLION MILESJASON MRAZ
·         6.VENENOFERNANDO E SOROCABA
·         7.VIDRO FUMÊBRUNO E MARRONE
·         8.THIAGUINHODESENCANA
·         9.ANJO PROTETOREDUARDO COSTA
·         10.ESSE CARA SOU EUROBERTO CARLOS

Pasmem. De dez músicas, 8 são pagode/sertanejas. E a única nacional que não o é, é a trágica “Esse cara sou eu”, de Roberto Carlos, cuja majestade eu jamais reconheci. Justo a Cultura FM, que em 30 anos teve apenas um período em que tocava músicas sertanejas na programação. Esse período não foi tão longo e correspondeu aos anos finais da década de 1980 e início de 1990, quando Isaías Gomes, o Gordo, comandava o seu Sertanejo Bom Demais, das 17h00 às 19h00. Fui técnico de som daquele programa durante anos, levando ao ar o programa gravado, principalmente aos sábados.

Amanhã, a essa hora, a Cultura FM já será apenas lembrança, passado. De memória transitará para a história do rádio, com suas virtudes. Hoje, portanto, às 23h59m59s, estaremos sepultando a nossa mocinha querida. Não completará o cristão 33º ano de vida dia 1º de julho. A nós, amigos, familiares, sobra o velório, que está sendo feito durante todo o dia. Não por acaso, enquanto respirava literalmente por aparelhos, o RDS da Cultura 2 FM trazia, até dias atrás, os dizeres “adeus” para mídias móveis e rádios de autos. Um calado e solitário manifesto de algum funcionário que encontrou uma forma eficiente de externar o repúdio pela eutanásia decidida pela família Camargo.

Prefiro nem tentar conceber o que será, a partir de agora, levar os filhos para a escola, às 7h00, sem o Giro da Manhã, noticiário criado por André Thieful e que, por ser paulista, assisense, pé vermelho, sempre liderou a audiência matinal do rádio, principalmente entre os leitores mais letrados. Resta, nesse ínterim, a Cultura AM, a pior porcaria em forma de rádio existente na atualidade. Uma emissora decadente, sem o mínimo padrão de qualidade e, pasmem, largada a uma programação gospel inaudível. Ela, sim, a Cultura AM, é que deveria ter sido vendida. Mas, aí, fica a pergunta: quem vai querer comprar aquilo, que só não dá traço de audiência porque acredito que ao menos Clarice, do transmissor, tenha forçadamente de ouvir.

Se já não ouvia, mais, outra emissora FM, no rádio, havia mais de dez anos, agora, simplesmente, vou ter de ampliar minha variedade de CDs no carro. Recuso-me a consumir essa porcaria em forma de música que as emissoras FMs executam na região. E é exatamente esse formato que a nova FM, que entra no lugar da Cultura FM, se propõe a tocar. Precisavam, os paranaenses, saber que aquilo que eles vêm aqui tocar já tem quem faça, e bem, para o público que gosta. Antena Jovem, Integração do Vale e Voz do Vale com certeza não vão dar brecha para a nova concorrente. Pelo contrário, devem acolher a audiência herdada da Cultura FM e, se espertas forem, darão mais espaço para a música de qualidade e reduzirão esse popularesco que, pasmem, ninguém merece. A Interativa FM vem, portanto, ao contrário de sua anunciada proposta, ser mais uma. A nossa Cultura FM não era mais uma emissora. Era "a" emissora FM.

À família Camargo só tenho a desejar sorte. Como disse, sempre tive uma relação familiar com todos eles, dado o tempo de minha vida dedicado àquele grupo de comunicação. Não os condeno por terem vendido a Cultura FM, pois cada um sabe em qual ponto o calo aperta. Passar dificuldade financeira, comprometer o patrimônio familiar só para manter o emprego da equipe de funcionários não tem nada de romântico. Portanto, se havia necessidade de vender, que tenham vendido, e bem. E nessa hora, o comprador é quem decide a cor com que a casa será pintada e se serão mantidas as mesmas portas, janelas, enfim, os detalhes que faziam a identidade dos donos anteriores.

Meu coração dói, apenas, pelos funcionários. Um ou outro devem ter a vida totalmente afetada, pois de um emprego sólido e uma relação direta com o patrão todos passam a ter vínculo com a fumaça, entre os que ficam, e com o horizonte, entre os que vão embora.

Na minha memória, que a Cultura FM encontre, a partir da meia-noite, o jornal Oeste Notícias no infinito caminho da história da comunicação. E que aguarde, infelizmente, o mesmo destino para outros veículos de comunicação da cidade de Assis que igualmente agonizam.

*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

3 comentários :

Arnaldo Pomari Júnior disse...

O termo CULTURA parece amaldiçoado neste país. Tudo que se refere a ele não tem um destino dos mais célebres. Infelizmente, desde que o homem começou a inventar meios para manipular seus semelhantes e lucrar com isso, assistimos às atrocidades que são cometidas contra manifestações que, além de estimular as pessoas a refletir, valorizam a arte como expressão e não como meio de se ganhar dinheiro. Também serei mais um órfão-ouvinte, pois era a única estação da região a qual eu ainda sintonizava. É uma pena...

Arnaldo Pomari Júnior disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Héliton Jayme disse...

O preconceito é uma peste que assola a humanidade.
O julgamento é a muleta dos tolos.
Condenar o sucesso alheio é a postura dos pobres de espírito.
Fazer o certo para garantir o sustento de famílias, antes a beira da necessidade, pode não ser poético. Mas é nobre.
A poesia de Tico Santa Cruz aqui se faz adequada:
"O amor é a única revolução verdadeira".
Ame indiscriminadamente! É indiferente o estilo, posição, seguimento ou classe social.
Ame! O amor é a única revolução verdadeira.

Héliton Jayme - Diretor Geral Grupo Interativa de comunicação.