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quinta-feira, 11 de abril de 2013

As rugas de uma Assis envelhecida


11 ABRIL 2013



Foto: Blog do Messias
Vista, daqui de casa, do antigo Depósito da Fepasa, que tem 40% de sua 
ocupação mantidos pela Incubadora de Empresas. Uma ala inteira está abandonada.


Cláudio Messias*

Quando jovens, não vemos a hora de tornarmo-nos adultos, maduros. Falar para o adolescente de 12 anos que ele não passa de uma criança é pior do que tecer a mais ácida das críticas ao time para que ele torce, o gosto musical que defende, a roupa que veste. E quando adulto, esse mesmo cidadão começa a fazer o movimento inverso, de rejuvenescimento forçado, seja nas roupas que veste, nas músicas que ouve, nas moldagens estéticas por que opta.

Nos meus 43 anos de idade tenho um círculo de amizade de minha geração contemporânea, claro, mas na rotina do dia a dia convivo com pessoas mais velhas. Meus companheiros de atividades físicas no clube são 10, 20 anos mais velhos. E há, sempre, um ou outro que mantém a mexa da frente do cabelo mais longa do que o restante da cabeleira, para encobrir a parte central, de cima, a caminho da calvície plena. Mas há, ainda, aqueles que vestem bermudas xadrezes, camisetas de malha que grudam no corpo e calçam tênis feitos à base de lona, que mais parecem calçados de trilhas ecológicas. Tudo isso no esforço de manter a carcaça, se não jovem, ao menos atendendo ao comportamento típico dos jovens.

Não sou contra nem a favor. Tenho meu estilo de vestir e calçar. E esse estilo está mais para forçar minha idade para cima do que para baixo. O chapéu que cobre minha cabeça, por exemplo, vem de um hábito inspirado em meu vodrasto (segundo marido de minha avó paterna) José Rosa mantinha. Ele usava chapéu de feltro, quente demais para meu gosto. Quando pegava sua bicicleta Calói para ir ao açougue ou ao Mercadão,  lá estava a escova em uso, tirando a poeira do chapéu que escolhia. Sim, ele tinha pelo menos 5 chapéus, todos guardados cuidadosamente. Sergipano, negro e bem vestido, José Rosa ficava, a meu ver, estiloso, quase um malandro carioca. E tinha lá os seus mais de 75 anos de idade, de maneira que o chapéu nem o rejuvenescia, nem o envelhecia. Era parte de sua identidade.

Minha identidade é o chapéu, somado à minha barba. O cabelo caiu de tal forma nos últimos dez anos que optei pelo corte máquina 3. Pouco cabelo e, ainda por cima, a caminho do grisalho puro. Aliás, não concebo por que barba, cabelo e sobrancelha fazem parte da mesma parte do corpo e tenham coloração diferente. O cabelo pode ser meio grisalho, a barba totalmente grisalha, mas a sobrancelha continua escura, assim como os cílios. É o meu caso, mas nem é bem esse o caso agora.

Afinal, pergunto, e a identidade de Assis, qual é? A cidade já foi apelidada em forma de inúmeras nomenclaturas desde que inverteu os papéis e, autônoma, tirou de Campos Novos Paulista a condição de sede da comarca. De princesinha a cidade fraternal, sempre a queridinha da Sorocabana foi elogiada pela beleza urbana e pela economia estável. Do Médio Vale do Paranapanema é uma das poucas cidades cujo solo, fraco, não tem a tonalidade avermelhada das férteis terras que caracterizam a barranca do Panema. E isso faz com que ruas, calçadas e casas sejam poupadas da coloração escura, que dá aspecto de sujeira permanente, mesmo não sendo.

Quando completou 100 anos, na década passada, Assis foi chamada de uma “jovem centenária”, nas definições do prefeito da época, Carlos Nóbile. Uma jovem com futuro promissor, no auge de sua vida produtiva. Continuávamos com fama de cidade pacata de interior, mesmo comprovando em estudos que a criminalidade local aumentara depois, por exemplo, da vinda de penitenciárias para o Vale do Paranapanema, assim como o deslocamento de capitalistas que, desestimulados pelos altos índices de violência na capital paulista, arriscaram trazer para cá suas riquezas concentradas.

Intervenções públicas são feitas periodicamente para que a cidade mantenha esse ar de pacatez. Nos anos 1990 Romeu Bolfarini ganhou fama de ser o prefeito das praças, tamanho foi esse tipo de investimento em infra-estrutura. Hoje, os jovens que o criticaram em sua gestão veem filhos e netos usufruindo das praças que, já formadas, representam espaços de lazer e, em alguns casos, de atividades físicas nas academias a céu aberto espalhadas pela cidade. O próprio Parque Buracão, resultado de conquista de outro ex-prefeito, José Santilli Sobrinho, foi inaugurado na segunda gestão de Bolfarini.

Meu filho mais velho faz o terceiro ano do ensino médio pela manhã e, à noite, cursinho de preparação para o vestibular. Quando o levo ao cursinho e retorno pela avenida Rui Barbosa tenho dimensão, no alto daquela via, mais precisamente no monumento de São Francisco de lata, sobre a beleza de Assis. Eu mesmo fiz críticas – e as mantenho – sobre o fim melancólico de mandato do ex-prefeito Ezio Spera, até 2012. Uma ação, contudo, precisa ser valorizada naquela gestão: a alteração feita na avenida Rui Barbosa. Da escola onde meu filho estuda à noite até minha casa eu levo cravados 10 minutos, de carro (não ultrapasso a velocidade de 40 km/h em perímetro urbano), se fizer o trajeto São Francisco de lata>Ônix Hotel>Malta>Seminário São José>Mercadão>Santa Cecília, e 7 minutos caso a opção seja o caminho São Francisco de lata>Catedral>Pernambucanas>Mercadão>Santa Cecília.

Concordo plenamente que o poder público tenha de implantar mais faixas de segurança para pedestres, dobrar o investimento de implantação de semáforos para pedestres e, pelo amor de Deus, colocar radares reguladores de velocidade por toda a extensão da avenida Rui Barbosa. Mas, jamais rever o projeto de remodelação da engenharia de tráfego da principal via da cidade. Se de um lado ouço reclamações de amigos que, comerciantes, lamentam queda de movimento nos últimos 12 meses, por outro vejo realidade em que nas vias paralelas da Rui Barbosa, como Floriano Peixoto e Smith de Vasconcelos, há, atualmente, muitas obras em prédios comerciais. É a pulverização do movimento.

Não há dúvidas de que o comércio de Assis tenha descentralizado, literalmente. Nos tradicionais dez primeiros dias de cada vez, especialmente nas manhãs de sábado, basta ver o volume, menor, de pessoas nas calçadas da Rui Barbosa. O que alguns comerciantes definem como fuga dos consumidores eu entendo como descentralização de movimento. Ninguém vai sair daqui de Assis e ir para Marília, Londrina ou Prudente porque a Rui Barbosa passou a ter mão única. Fosse isso e Ourinhos e essas outras duas cidades estariam mandando seus consumidores para onde? Para a lua? São localidades que igualmente têm sistema de mão  única no centro comercial e apresentam poder de venda igual ou maior que o nosso.

Transitar pela Rui Barbosa com suas cinco faixas é leve, rápido e seguro – desde que respeitado o limite de velocidade abaixo de 50 km/h. Um aspecto moderno que, infelizmente, pouco condiz à falta de uma política local de preservação do patrimônio. Nossa cidade é, sim, muito bonita. Elogiá-la é como lançar olho de pai sobre o filho, que será sempre lindo. Não há, reconheço, neutralidade nesse tipo de enunciado. Mas, me esforço ao máximo para ser o mais isento possível ao dizer que há rugas que, irreversíveis, tiram o aspecto de jovialidade daquela que já foi a mocinha da Sorocabana.

Catedral, Paço Municipal, estação ferroviária, depósito da Fepasa, escola João Mendes Júnior, Praça Arlindo Luz, Centro Cultural Dona Pimpa, antiga Chefia da Fepasa (na 9 de Julho), Depósito de Manutenção de Locomotivas da Fepasa, Ceagesp, Centro Social  Urbano, Mercado Modelo Municipal, Mercado da Vila Xavier. Esses são apenas alguns pontos que, públicos, precisam com urgência passar por intervenção. Parece-me haver falta de uma política pública específica que reserve e destine, no orçamento do município, recursos financeiros para manter a conservação desse patrimônio, que é histórico e está coberto como tributável pelo IPTU nosso de cada janeiro.

Cito como exemplo de política de manutenção do patrimônio o complexo que abrigou parte da gestão operacional do antigo grupo Nova América, na avenida 9 de Julho. Apesar de a usina Nova América não existir mais, todo o patrimônio é mantido. Há, pois, ali, uma identidade a ser preservada. E por mais que a usina não mais pertença ao grupo, o zelo pela imagem começa pelo patrimônio, mantido em perfeito estado de conservação. E se a iniciativa privada consegue manter seu patrimônio dessa forma, o poder público precisa espelhar-se no exemplo.

Assis continua, pois, bonita. Começam a aparecer as rugas de uma cidade centenária. Não digo que, apoderando-me da metáfora, a Prefeitura tenha de fazer uma cirurgia plástica de remodelação facial da cidade. Me refiro, sim, a um pensamento de que a manutenção desse patrimônio citado represente uma cultura de preservação material a partir da valorização da representação, histórica e memorial, de um passado hoje existente somente no discurso dos agentes que vivenciaram tal período. Pessoas morrem e levam consigo a oralidade de suas histórias, ora capítulos da própria história de uma localidade. Nem os livros ou os registros de relatos conseguem dar conta da integralidade dessa representação. Mas, um monumento fala por si. Basta um passeio pela, sim, bem conservada Casa de Taipa e, sentado debaixo dos pés de jabuticaba, tirar alguns minutos para resgatar, no tempo, o que foram as passagens dos tropeiros que, nesse movimento de ida e volta, um dia iniciaram o vilarejo que com o tempo foi transformado em cidade de 100 mil habitantes. Paredes, telhado e paisagem falam ali.

Temos menos de ¼ da história da capital do Estado. Nossa importância para o Estado, o país, advém de uma construção gradativa de patrimônio. A vinda da ferrovia trouxe para cá engenheiros ingleses responsáveis pela expansão ferroviária até as divisas com o Mato Grosso do Sul. A cultura britânica brindou-nos com uma arquitetura que ainda pode ser vista em prédios residenciais e comerciais da cidade. Paredes que cada vez mais caem para dar lugar a empreendimentos imobiliários que colocam centenas de pessoas para residir em metros quadrados antes ocupados por poucas dezenas de famílias. Em busca da segurança do viver bem e seguro fazemos desmoronar toda uma história, sem a preocupação de registrar, catalogar nem preservar objetos que acabam ou em caçambas de entulho, ou em ferros-velhos.

Parte da história foi perdida, porém ainda há tempo para corrigir esse erro, que é fruto mais da ignorância do que necessariamente do desprezo ao patrimônio. Que se faça, e já, essa correção, pois deixar para o mês que vem significará lamentar mais uma casa derrubada, mais um prédio demolido e mais um desgaste na já desgastada imagem do patrimônio público dessa Assis que tanto chamamos de linda.


Foto: Blog do Messias
Construído ao lado do Edifício Alvorada, o prédio originalmente empreendido pela extinta 
Construtora Melior não saiu do esqueleto na década de 1990.

Foto: Blog do Messias
Outro monumento abandonado avistado daqui de casa: recebedor/despachados de 
grãos da Ceagesp, onde hoje está a sede da Aprumar.




*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP. Escreve semanalmente no Jornal da Segunda Online. Acervo de produção em www.claudiomessias.blogspot.com



FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA


FICA PARA A PRÓXIMA
Eu disse aqui, neste espaço, na coluna anterior, que a Andorinha somava-se a Unimed e uma cervejaria local para o conjunto de patrocínios do Clube Atlético Assisense visando à disputa da temporada 2013 do Campeonato Paulista, Série B. A proposta foi feita, havia expectativa de aprovação por parte da empresa, em Presidente Prudente, mas o projeto não passou pelo crivo da direção comercial. Assim, o transporte dos atletas e comissão técnica será feito mediante fretamento pago pelo clube. O máximo que pode haver é um desconto nos valores por parte da Andorinha.

FICA PARA JÁ
O grupo de empreendedores da cidade que aposta no projeto do Clube Atlético Assisense para 2013 é grande. O incentivo virá em forma de patrocínios estampados em placas comerciais instaladas nas laterais do gramado do estádio Tonicão. Os investidores também formalizaram participação na gestão do clube, assumindo postos nos conselhos deliberativos e na diretoria. É aguardada a contrapartida da Prefeitura, com investimento reais no estádio, além da manutenção, que é mera obrigação orçamentária.

VIDA DE PÃO
As chuvas da semana passada atrasaram o andamento das obras de reforma da padaria Pão da Vida, na Vila Operária. Ivo e família, que retornaram de Alagoas, retomam o ponto comercial na semana que vem. Como novidade, trazem o conceito de padaria que atende ao público para pequenas refeições em balcão, com lanches e outros quitutes.

HORIZONTES
O Centro Educacional Sesi, de Assis, leva estudantes do ensino médio à cidade de Ilha Solteira nessa sexta-feira, 12. Lá, visitam o campus da Unesp e focam especificamente nos cursos superiores de Engenharia, nas mais diversas áreas. A viagem é bancada pelo próprio Sesi, sem custos aos estudantes. Em 2012 a caravana visitou a Universidade Federal de São Carlos e foi ao Museu da Língua Portuguesa, na capital.

PORTA DOS FUNDOS
Minha solidariedade a Toninho Scaramboni, profissional com quem trabalhei e por quem guardo respeito imenso. O locutor é terceirizado na Rádio Cultura, ou seja, não tem salário em carteira e detém ampla carteira de anunciantes, de onde sai sua receita. Com a venda da Cultura FM, Scaramboni não foi comunicado sobre os trâmites e precisou, por conta própria, levantar os contatos com o grupo de comunicação paranaense adquirente da rádio assisense. Foi dessa interação que saiu seu acerto para permanecer na rádio Interativa, denominação da Cultura FM a partir de 1º de maio. De terceirizado o locutor passa a ser registrado formalmente.

TEMPO DIGITAL
A piscina aquecida e coberta do Assis Tênis Clube ganhou, nesta semana, um relógio/cronômetro digital de precisão. O instrumento marca hora e temperatura e, controlado à distância, dispara o cronômetro para regular o tempo de treinamento dos atletas do clube. Dois nadadores do ATC são, hoje, campeão e vice-campeão brasileiros em suas respectivas modalidades, por idade.

SEM PREVENÇÃO
Há afundamentos preocupantes na calçada e no asfalto da baixada da Travessa Padre Bellini, ao lado do Parque Buracão, na Vila Operária. O trecho ficou quase um ano interditado, desde outubro de 2011, destruído por forte chuva. Logo após a liberação, ano passado, passou por nova interdição, devido a problemas nos serviços executados. Com as chuvas da semana passada, aparentemente, novos problemas ocorrerão e não estão visíveis. O rompimento da fiação do sistema que, em LED, compunha a sinalização de solo no local, dá dedução a isso.

VIVINHO DA SILVA
Um comerciante do setor de boates nos arredores de Assis causou surpresa ao ser visto, nessa semana, em uma agência bancária da cidade. Saudável e com a irreverência que lhe é peculiar. Especulações sobre sua morte, no Sábado de Aleluia, espalharam-se pela Sucupira do Vale na semana passada. Os detalhes, mórbidos, apontavam para morte provocada por golpes de machado, mas, apesar dos boatos, nenhuma ocorrência policial com essa característica havia sido registrada.

MULTICULTURALIDADE I
Duas estudantes russas estão cursando Letras na Unesp de Assis. Os estudos são fruto de parceria entre o campus local e instituições de ensino da Rússia. As moças ficam por aqui até o segundo semestre e aproveitam para dar curso sobre a cultura do país de origem. Todas as turmas ofertadas esgotaram vagas em questão de horas. Quando retornarem a São Petersburgo concluem o curso de Letras de lá, com habilitação em língua portuguesa.

MULTICULTURALIDADE II
No final de semana da Páscoa as russas contrariaram recomendação das mães e visitaram, de ônibus, Brasília. As mães russas, temerosas com as notícias que saídas daqui do Brasil chegavam à Europa em noticiários policiais, não queriam que as filhas fossem à capital federal e ao Rio de Janeiro.

MULTICULTURALIDADE III
Foi naquela semana que bandidos alugaram uma van e além de roubar e agredir ainda estupraram uma turista alemã, no Rio de Janeiro. As russas tentando provar para as mães, em Brasília, que as notícias sobre violência correspondem a generalizações sobre casos isolados, e, ao mesmo tempo, o noticiário sobre o estupro da alemã, na frente do namorado, percorrendo os noticiários do mundo inteiro.

MULTICULTURALIDADE IV
Nada aconteceu com as estudantes russas nessa viagem a Brasília. Igualmente, nada mudou, também, no conceito das mães russas sobre o país que as filhas escolheram para complementar os estudos.

CÁ ENTRE NÓS...
... Assis estância turística?

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