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segunda-feira, 6 de abril de 2015

CRÍTICA - A ação contra a dengue longe do espetáculo da mídia de Assis

Cláudio Messias*

Dedico-me à comunicação há quase completas três décadas. Bem ou mal, é outra história, mas ainda prefiro que esse antagonismo confronte adversamente "bem" ou "mal", do que "bom" ou "mau". Uma coisa, contudo, aprendi durante esse trânsito por redações, sucursais, agências de notícias, enfim, pelo universo do bloquinho de papel à mão, eis que a notícia urge. E a notícia, sim, urge. Mas, ela, enquanto substantivo, depende de uma lacuna existente entre seu surgimento, denominado fato, e seu consumo pela audiência. Há, pois, uma podre manipulação existente entre o que acontece e o que é divulgado. Pior ainda é a construção de sentidos dada àquilo que é divulgado, de maneira que o que se lê, vê ou ouve pode não corresponder exatamente ao que ocorreu, sem que para isso se esteja mentindo. Aqueles que por curiosidade, acidente ou falta do que fazer leram minha definição para este Blog compreendem, com mais propriedade, por que enfatizo a definição que minha professora na ECA-USP, hoje coordenadora da graduação e do programa de pós-graduação em Jornalismo na ESPM, Maria Aparecida Baccega, dá para o ato de comunicar-se. Comunicação, segundo ela, é a edição do mundo; quem comunica, edita a realidade. Ainda não deparei com definição teórica melhor em meus estudos no amplo campo das Ciências da Comunicação.

Dia desses, como informei em meu Blog, meu irmão, José Claudinei Messias, foi inocentado pela Justiça da acusação de apropriação indevida de dinheiro público na Câmara Municipal de Ourinhos. Ele presidiu a mesa diretora daquele Legislativo vizinho quase dez anos atrás e foi acusado pelo Ministério Público de ter ficado com um dinheiro que é do erário. À época, a TV Tem deu ampla cobertura e destacou em manchetes de seus péssimos telejornais regionais o passo a passo da destruição de imagem de um homem público, que de acusado passou, nas telas, a condenado. Nesse ínterim, a votação, na Câmara, de uma CEI que não o condenou nem o cassou, mas que foi o ápice da exposição, ainda sem provas, de um nome em meio a um período político do país em que os corruptos do Mensalão começavam a ser judicialmente condenados. Se o Legislativo nada provou contra meu irmão, igualmente o Poder Judiciário considerou as provas insuficientes, agora em 2015. Foi, então, cobrada a divulgação, pela TV Tem, do desfecho do processo judicial, que, convenhamos, é mais importante do que uma investigação política de CEI definida pelo coronelismo provinciano que ainda reina pelo interior desse país. A resposta surpreendeu: “não temos mais interesse pelo caso”, respondeu um certo descendente japonês, do outro lado da linha.

Pessoas honestas como meu irmão engolem a seco esse poder arrogante advindo da hegemonia da comunicação. Como continua sendo homem público, a trabalhar com a política, entende que é melhor assim, com a afiliada da Rede Globo na região dando as costas para a verdade e enfatizando a prioridade pela mentira que sustentou por mais de três anos (segundo a Justiça, todos são inocentes até que se prove o contrário, ou seja, a verdade só é sacramentada em um processo após seu desfecho e, por conseguinte, trabalhar só com a acusação sem provas é sustentar a mentira), enquanto ele, em paz de consciência, reergue-se, aos poucos, com o rosto lavado pela dignidade e com a tão demorada chegada dos sonos tranquilos, com a cabeça repousando levemente no travesseiro.  À TV Tem resta, somente, a perceptível queda de audiência, ameaça gradativa que assombra sua geradora de programação, a Rede Globo, que perdeu quase metade de seu público nos últimos dez anos, talvez por incompetência de suas afiliadas, como a de Bauru.

O dar-as-costas à verdade compromete o jornalismo aos poucos. O resultado vem mais rápido do que a formação de uma estalactite em qualquer caverna da obscuridade que se encontre por aí. Mas, é vagaroso demais para quem é afetado. Ou rápido demais para quem está exposto publicamente. Cansei de ver diretores e proprietários de emissoras de rádio e empresas jornalísticas, de impresso, sentando à mesa com prefeitos e presidentes de Câmaras nessas últimas três décadas. Se na redação vinha a informação de que fulano foi ao gabinete de beltrano, ou então que beltrano veio à sala de direção de fulano, já surgia a expectativa. Qual seria, depois, a ordem? Continuar descendo o cacete na Prefeitura ou na Câmara ou simplesmente, a partir dali, submeter ao diretor da rádio ou do jornal as pautas que editorialmente fossem contra prefeito, secretários ou vereadores?

O interessante do enunciado do parágrafo anterior é que para um jovem que ainda sonha em fazer Jornalismo ou então outro curso de Comunicação isso tudo parece um faz-de-conta. Difícil acreditar que tais negociatas ocorreram ou ocorrem no cotidiano que define cada linha que se lê como notícia exatamente agora. Afinal, não acreditar em uma imprensa livre e questionar cada linha do que é publicado é colocar em xeque a própria história do século XX, registrada não por documentos históricos advindos de um legado cultural materializado por rastros espontâneos deixados por determinados grupos sociais, mas pelas manipuladoras mãos do próprio homem. Sim, o que você lê ou estuda sobre os últimos cem anos de nossa história é, necessariamente, fruto da decisão de quem publicou, e não uma representação social coletiva. Basta, em um exemplo recente, conceber a Guerra Fria a partir do contexto de cada uma das duas partes envolvidas ou, ainda, buscar uma definição clara sobre o 11 de Setembro de 2001, um fato que quando transformado em notícia leva de um atentado terrorista a uma conspiração de construção premeditada para uma nova ofensiva sobre o petrolífero oriente.

Mas, e o que a dengue tem a ver com isso? Explico. Nesse Sábado de Aleluia, portanto um dia após a Sexta-feira Santa em que todos comem bacalhau ou imitação de bacalhau e um dia antes do Domingo de Páscoa, quando quase todos comem chocolate ou imitação de chocolate, recebi a visita de uma equipe de trabalhadores em minha casa. Eram homens e mulheres que não só aplicavam aquele veneno que mata o mosquito aedes aegypti e outros insetos e animais, mas, orientavam sobre os procedimentos que cada família deveria tomar para, primeiro, receber o rapaz com sua barulhenta máquina destruidora de insetos, e, depois, retomar a rotina já livre principalmente de pernilongos capazes de matar seres milhões de vezes maiores que eles.

Não li, em página alguma, seja ela impressa ou online, que as equipes da Prefeitura e da Sucen trabalhariam no final de semana prolongado da Páscoa, mas vi que supermercados fechariam na sexta. Trata-se de uma das datas sazonais mais importantes do ano, o que é comprovado pelo fato de a Sexta-feira Santa ser a única data do ano em que quem vende comida, ou seja, os supermercados, respeita a santidade do período, correspondente à ressurreição de Cristo, e não abre as portas, batendo todos os recordes do ano de venda de bebidas alcoólicas e carne vermelha no dia seguinte, Sábado de Aleluia. Só que sábado passado, enquanto uma parcela considerável da população economicamente ativa preparava o estoque para comer a carne vermelha que preteriu por quarenta dias, sem peso religioso na cabeça e com muita leveza de cabeça para administrar o efeito dos fardos e mais fardos de cerveja comprados, os ‘agentes da Sucen’ trabalhavam.

Confesso não ter acreditado quando ouvi o barulho ‘discreto’ da máquina exterminadora de pernilongos nas proximidades, aqui na vila Boa Vista, também conhecida como Santa Cecília. Sairia com a esposa para fazer algumas compras. Não em supermercados, mas no Secenter da Construção, para artigos que pudemos trazer no porta-malas do carro. Soubemos que os trabalhadores, em seu sentido mais literal de palavra, haviam passado por cada uma das casas da frente, ou seja, estavam completando a quadra de baixo. Deu tempo de sairmos, irmos ao Secenter e voltarmos. Chegamos e lá estavam homens e máquinas, cuja aparência acovardou meus ‘corajosos’ três vira-latas, capazes de latir para carteiros e leituristas de água e energia elétrica, mas não para aqueles que carregam máquinas nas costas, usam máscaras e fazem um barulho que se não mata pernilongo, com certeza espanta.

Agora pela manhã estou ouvindo o som da mesma máquina que lança veneno no ar, nas proximidades. Deduzo, pois, que os agentes da Sucen tenham uma sequência de trabalho e estejam gradativamente exterminando pernilongos na completude da cidade. Um trabalho de formiguinha, que de tão discreto, apesar do barulho e do ‘cheiro’ da nebulização, passa imperceptível aos olhos de uma sociedade ávida por notícias. Não que a imprensa de Assis não reconheça o trabalho da Sucen e da Prefeitura, não é isso. Pura e simplesmente, a audiência, ou seja, quem lê, ouve ou assiste notícias sobre a cidade, está tendo a oportunidade de comprovar, nesse período da Páscoa, o quão nossos jornalistas só têm olhos para o que: a) os diretores autorizam os editores a publicar; b) o que acontece e chega pronto, em release, às redações, e d) o que acidentalmente é postado por algum anônimo nas redes sociais. Nem vou citar as ocorrências policiais, pois as mesmas se enquadram nas suposições "a", “b” e “c”, uma vez que jornalista de Assis cobre tais ocorrências se o réu não for rico ou não tiver poder na cidade, o caso estiver no plantão policial e a ocorrência for flagrantemente exposta nas redes sociais. Tirar a bunda da cadeira e sentir o cheiro da periferia cada vez mais é coisa da vanguarda, dos caretas mais velhos, enfim, de jornalista que não espera a notícia cair do céu.

Enfim, mesmo a passagem da equipe da Sucen e da Prefeitura proporcionou uma oportunidade cada vez mais rara. Os moradores foram obrigados a sair da toca e ir para a calçada, tipo de cena comum em Assis vinte, trinta anos atrás, quando as famílias, depois da janta, colocavam cadeiras na calçada para atualizar o repertório de cuidar-da-vida-dos-outros. Proseavam e só entravam quando começava a novela das “oito” (sim, a novela naquela época começava às 20h30 e terminava às 21h15). A cena da manhã de sábado era bem essa. Bel e Ismael, da farmácia, nós daqui de casa, tia Alice e tio Dito, dona Rosa e as filhas, enfim, a coletividade que ou esperava o cheiro forte de veneno baixar ou aguardava a passagem dos trabalhadores por dentro de suas residências. O tom da conversa, claro, era a cobrança por uma cobertura da imprensa de Assis para aquela 'novidade' (o trabalho em pleno Sábado de Aleluia, e não a nebulização em si), mas, convenhamos, era Sábado de Aleluia e dia de comprar carne, cerveja e ainda marcar na caderneta da Casa Avenida para descontar no pagamento só do mês que vem. A notícia, pronta, a assessoria de comunicação da Prefeitura manda pronta na segunda.


*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.


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