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sexta-feira, 17 de abril de 2015

SEGUNDONA BRAVA - Começa hoje a versão mais desastrosa do torneio

Cláudio Messias*

Defino, há anos, como fundo do poço o torneio que a Federação Paulista de Futebol organiza como sendo a Segunda Divisão do Campeonato Paulista. De tão errada, a competição já é um desastre a começar pelo nome: segunda divisão que, na realidade, é Quarta Divisão. Um formato de disputa iniciado por Eduardo José Fará nos anos 1990 e que faz de clubes, comissões técnicas e jogadores, ratinhos de laboratório. Se tem um teste a fazer, que o faça na Segundona, que um dia já foi séries B-1 e B-2, além de outras denominações anteriores.

O golpe de misericórdia na Segundona Brava, que é uma espécie de torneio de futebol varziano com limitação de idade de jogadores e regras pré-estabelecidas, foi dado nessa virada de 2014 para 2015. Marco Polo Del Nero, eleito para a presidência da CBF, deixa o cargo para seu vice, Reinaldo Carneiro Bastos. E aí começam as articulações para tornar sério o que não é sério. A Segundona resolveu, da noite para o dia, replicar para clubes de esquina, que montam times em mesas de bar e churrascos entre grupos de amigos, os mesmos pré-requisitos que se aplicam nos milionários - endividados - clubes da elite paulista, cujos dirigentes faturam e devem milhões. Óbvio que daria m*rda.

Jamais vi tamanha debandada de clubes na disputa da Segundona. Da nossa região está fora o XV de Jaú, que tem histórico semelhante ao dos assisenses Ferroviária e Vocem. O Quinzão, tudo bem, arrasta uma crise financeira de décadas, pendenga semelhante à que bateu duramente à porta do Vocem e o tirou das competições por mais de uma vez. Mas, o que dizer da retirada do União São João, de Araras, mantido por usineiros, gênero de empresariado brasileiro que nunca quebra nem quebrará? Um dos primeiros clubes-empresas do interior do país saiu, mais uma vez, das disputas oficiais. Crise ou, simplesmente, a conclusão de que em nada adianta gastar tempo, dinheiro e fios de cabelo com esse fundo do poço do futebol paulista?

Logo mais às 20 horas a bola rola com o pontapé inicial da temporada 2015 da Segundona Brava. São Bernardo x Mauaense é o duelo marcado para as 20 horas no estádio Baetão, em São Bernardo do Campo. E bem ao estilo "incompetência total" da Federação Paulista de Futebol o torcedor já começa o torneio sendo ludibriado. De tão insignificante para a FPF, a Segunda Divisão sequer tem, agora, a lista dos estádios liberados para a disputa do torneio. Corre-se o risco de ir a um determinado palco e deparar com arquibancadas interditadas e, óbvio, entrada bloqueada. Mas, reclamar de que, pois, afinal, esse é um torneio que só existe, claramente, para fazer volume e justificar os patrocínios que a Federação capta.

Também nessa sexta-feira tem jogo pelo grupo 1, em que estão Atlético Assisense e Vocem. O confronto será Às 20h30, em Fernandópolis, onde o Fefecê recebe o Grêmio Prudente. Noite de sexta-feira, abrindo o feriadão, com o privilégio de clube como o Fernandópolis ter estádio - no caso, o "Cláudio Rodante" - com sistema de iluminação, passo primordial para quem pensa grande, tem profissionalismo e dá passos conforme as condições das pernas. Tenho, particularmente, interesse nesse primeiro jogo do grupo, pois, a meu ver, pelas sondagens que fiz, Grêmio Prudente será um dos quatro classificados do grupo, devendo avançar ao lado de Noroeste e América. A última vaga deve ser disputada, entre outros, pelo Fernandópolis, clube cuja organização profissional de futebol é invejável, com direito a prestação de contas mensal nas redes sociais. O Fefecê faz lembrar, e muito, a lisura e o profissionalismo com que deparei, nos últimos 15 anos, em agremiações como o Osvaldo Cruz, a Penapolense, o Linense e a Votuporanguense, todas elas com experiências de acesso à Série A-3 e, depois, em alguns casos, à A-2 e à Primeirona.

Condeno sobremaneira a Federação Paulista de Futebol, mercenária ao ponto de estampar no uniforme de seus árbitros o mesmo patrocinador de um dos grandes clubes da Primeirona e capaz, há mais de dez anos, de proibir o consumo de bebidas alcoólicas, fonte de renda nos pequenos botecos administrados pelos clubes do interior, dentro dos estádios, mas, ao mesmo tempo, fechar contrato de patrocínio com cervejarias. Uma Federação que enxerga somente o próprio umbigo, seus extraordinários lucros, e ignora que parte dos jogadores que dão brilho ao espetáculo da Primeirona passaram, via de regra, um dia, pela Segundona Brava. E em um eterno retorno, é justamente para essa Segundona que craques aposentados ou em vias de aposentadoria encontram seus meios ou de sobrevivência ou de manutenção de vínculo com o tido futebol profissional.

Meus amigos de imprensa esportiva concordam que há uma sinalização vinda da Federação para que a Segundona acabe. Voltaríamos a ter a Primeira Divisão, a Divisão Intermediária e a Segunda Divisão. Aparentemente, esse projeto de Reinaldo Carneiro Bastos está escancarado. Basta observar que os clubes da Segundona têm alta rotatividade de composição de elenco, uma vez que raramente uma agremiação repete a escalação da primeira rodada depois de 5 jogos disputados. Imaturos, os jogadores abaixo de 23 anos de idade contundem-se com facilidade, são compreensivelmente indisciplinados e, na grande maioria, ganham o primeiro registro profissional em carteira. Limitar, pois, o número de 28 jogadores para a Segundona é uma decisão, no mínimo, nada inteligente. Coisa de quem entende de gestão administrativa, mas não sabe nada do que rola dentro de um clube do interior. É preciso, pois, que o senhor Reinaldo Carneiro Bastos tire o terno, coloque uma camiseta de fim de semana e venha para ao menos um jogo no Tonicão, queimando a careca sob o sol escaldante e observando em que condições se disputam jogos nessa divisão de fundo de poço. Ficar na sala com ar condicionado, tomando café expresso de máquina e encontrando com cartolas é fácil, porém não dá parâmetros sobre o que é, na realidade, o futebol paulista.

Dou meus pitacos todo início de temporada e o farei de novo. A meu ver, pela organização demonstrada nesses meses iniciais de 2015, podem chegar à Série A-3 Grêmio Prudente, Diadema, Taboão da Serra e Vocem. Isso, no que depender do futebol em campo. Se o parâmetro for força política na Federação o Noroeste tiraria o lugar de um desses quatro. Triste constatação, pois, por distribuição geográfica, o Norusca inviabilizaria justamente o acesso de um dos clubes de Assis, caso assim se confirme a trajetória até a reta final. Trajetória, aliás, longa, pois a primeira fase já é, por si, quase um torneio de pontos corridos, decidido, depois, por mata-mata.

* Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.

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