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quarta-feira, 26 de junho de 2013

EU, DA POLTRONA - Se a final fosse na China, Felipão colocaria Zizao?


Cláudio Messias*

Semi-final de Copa das Confederações e, dessa vez, não deu para ver cadeiras vazias no Mineirão. Ao menos nos ângulos em que as câmeras pegavam. Seria, pois, o primeiro jogo em que Fifa, COL e CBF veriam um estádio lotado, com as tais 57 mil pessoas pagantes/convidadas.

Em campo, duas seleções que a história mostra como muito mais rivais do que o tão propagado Brasil x Argentina. O Uruguai é nosso espinho na garganta, o pedaço de jenipapo e o pequeno notável sul-americano que tenta ser alguma coisa no futebol. Só tenta. Mas que dá trabalho, isso dá.

A questão é que o Brasil tem uma Seleção cujo técnico é cabeça dura. Felipão ouviu de alguma cigana que conseguiria repetir contra o Uruguai a pressão dos minutos iniciais contra a Itália. Fez planos, que mirraram logo que a bola rolou. Comprovação de que esse marcador de posse de bola que Fifa, UEFA e Globo colocam no rodapé da tela é tão furado quanto os internautas que só têm nome, e não sobrenome, moram em cidades que sequer aparecem nos mapas de geografia e fazem perguntas cujas respostas até Carla Perez saberia responder ali pelos 30 minutos de cada etapa. Digo isso porque a posse de bola no primeiro tempo foi pau a pau, e jamais naqueles 63% que a Fifa creditou ao Brasil depois de passada meia hora de jogo.

O Uruguai foi melhor no primeiro tempo. Não por acaso sofreu aquele pênalti infantil de David Luiz, o zagueiro brasileiro que curte uma de Cristiano Ronaldo e só falta arrumar a cabeleira quando se vê nos telões de estádio. Tudo bem, depois da cagada de cometer o pênalti ele só fez cara de bunda quando o rosto-de-nariz-quebrado aparecia nas telas grandes. Júlio César, ali, calou a boca daqueles que, como eu, achavam que suas luvas haviam sido penduradas na eliminação brasileira, frente a Holanda, na Copa da África do Sul.

De novo, o sistema tático de Felipão não funcionava. Queria eu saber o que fez ele, o técnico padrão Série B, tirar Hulck da direita e deslocar para a esquerda. O gaúcho comandante da esquadra canarinha vive dizendo que não é hora de fazer testes. E na semi-final, dentro de casa, muda de função um jogador que ao menos na prancheta tem a função de jogar ao lado de Neymar e Oscar e, vez ou outra, ser opção junto com Fred na frente. Não por acaso tem o apelido de Hulck, com fôlego para ir e voltar na frequência que o futebol brasileiro exige.

Mas o problema do Brasil, hoje, não estava só na função equivocada que Felipão atribuiu a Hulck. Com a pressão uruguaia ele voltou os laterais e passou a jogar com a formação 3-5-2. Avançou demais Neymar e Fred, recuou Paulinho como volante legítimo e deu a Luiz Gustavo as vezes de terceiro zagueiro. Só sobrou criação para Oscar, que olhava para o lado e só tinha Hulck para tabelar., Daniel Alves e Marcelo, quando iam para a frente, avançavam em diagonal, forçando o recuo de Hulck e Paulinho.

Já o Uruguai jogava no tradicional 4-4-2, dependendo em demasia de bolas que sobrassem para Forlan ou Suarez. Era pouco, porém o suficiente para que o meio-campo ficasse guarnecido, dificultando a penetração em velocidade de Oscar e Neymar, que pouco pegaram ou produziram nos primeiros 45 minutos. Por sorte, quando tudo parecia ser modificado somente nos vestiários, durante o intervalo, Paulinho deixou de lado o fracassado sistema tático de Felipão e fez o que aprendeu com Mano Menezes e Tite, assumindo a responsabilidade de criação pelo meio. Dali saiu o lançamento perfeito para Neymar, que trombando com a zaga e dividindo com o goleiro fez a bola chegar à canela de Fred..

Para o segundo tempo eu imaginava que Felipão surpreenderia fazendo uma alteração pelo meio. Oscar estava, sim, apagado, apático. E a Seleção carecia de velocidade. Imaginei ver o rosto de Lucas no telão, mas o que vi foi ele e os demais reservas, todos de colete, dirigindo-se para trás do gol uruguaio. Felipão não surpreende. Nem a nós nem aos técnicos adversários, que sempre armam seus times, e bem, nos intervalos contra nós. Técnico teimoso, que não ensina o be-a-bá direito e dá no que deu quando Thiago Silva quis ser craque na hora em que ter de ser igual a Fred, tirando nem que seja de canela. Empate e, para mim, uma agonia, pois não via naquela formação da nossa Seleção uma expectativa de furar o forte bloqueio adversário.

Felipão não surpreendeu quando manteve o pendurado Luiz Gustavo, que para mim é fraco, tendo a opção de Fernando para fechar mais o meio-campo e soltar Paulinho nas mesmas condições em que saiu o primeiro gol. Claro, ele manteve Paulinho recuado e, pasmem, em alguns momentos soltou foi Luiz Gustavo para a frente, abrindo totalmente o meio-campo para os contra-ataques. Nossa sorte foi dupla, pois o Uruguai voltou no fechado sistema 3-5-2, forçou o nosso 4-4-2 e cansou primeiro. Percebendo essa canseira, Felipão mostrou sua legítima teimosia ao tirar Hulck e colocar Bernard, um ensaio de gente que mistura homem e lombriga. Parece o Zinho da Copa de 1994, girando, girando, girando... correndo, correndo, correndo... e nada.

Cansado, o Uruguai quis esperar a prorrogação. Sorte nossa, pois perdemos a marcação de Hulck e ganhamos somente o tal do brilho das pernas de Bernard, que, sei lá, deve raspar os pelos de coxas e canelas e passar cera. Para mim, Felipão quis fazer moral com a torcida mineira, em especial a do Galo, dando demonstração de que se o jogo da final, domingo, fosse na China, colocaria Zizao em campo.

Depois, Oscar saiu para a entrada de Hernanes, substituição com a qual concordo, pois Hernanes marca mais, cria pelo meio e tal qual Paulinho, tem poder de finalização. Àquela altura o Brasil estava prestes a fazer o definitivo segundo gol, de Paulinho, fruto da majestosa cobrança de escanteio de Neymar, um craque que cala a minha boca cada vez mais, ganha personalidade e, convenhamos, ignora provocações na hora certa e revida igualmente em momentos adequados. Com direito a beijinho àquele que teve cãibras de tanto marcá-lo e teve de sair do jogo.

Fechada a cortina, agora é esperar que a Itália faça a sua parte e permita que Brasil x Espanha façam a final. Italianos não são páreo para os espanhóis desde a Eurocopa e, creio, não será amanhã que aprontarão. Do lado da torcida brasileira fica a expectativa de Neymar mostrar aos colegas de Barcelona que o topo do ranking da Fifa tem dono, está somente emprestado e que a partir de domingo volta a ser conquistado até que o hexa chegue, dentro de casa. Até porque, do risco de Mineiraço que corremos hoje contra o Uruguai aprendemos que tem a hora de jogar bonito, a hora de jogar feio e a hora de errar. Hoje, erramos duas vezes e tomamos um gol. Domingo temos de olhar para o mesmo Uruguai e perceber que eles erraram as mesmas duas vezes contra a Espanha na primeira fase dessa mesma Copa das Confederações, e deu no que deu.

*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

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