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quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Paulistão tem 42 estádios interditados; 11, só na Segundona em 2015

Cláudio Messias*

Está prestes a começar aquele que já foi considerado o maior campeonato regional do mundo, qual seja, o Paulistão. Competição sinônimo de muito dinheiro investido, de organização exemplar e de uma fórmula justa de disputa, certo? Nesse quesito, raro e exceto leitor, prefiro não opinar, pois tenho uma concepção muito particular sobre esse torneio, a que cubro, como jornalista, há quase três décadas. O que posso dizer é que há muita mentira por trás desse barulho todo chamado Paulistão. A começar pelo palco principal desse espetáculo todo, ou seja, os estádios de futebol.

Quando começar, daqui a duas semanas, a Série A-1, que um dia foi unicamente Primeira Divisão, terá 8 praças esportivas interditadas. Veja bem, raro e exceto leitor, não estou referindo a estádios da Segundona, a tal da quarta divisão do Campeonato Paulista. Estou dizendo que grandes clubes como Corinthians, Santos, Palmeiras e São Paulo podem colocar seus milionários contratados para jogar em gramados cujos estádios, hoje, exatamente agora, são considerados inaptos para sediar confrontos dessa magnitude.

Bragança Paulista, Itu, Mogi Mirim, Jundiaí, Lins, Ribeirão Preto, Piracicaba e a própria cidade de São Paulo estão com estádios interditados pelas vistorias feitas pela Defesa Civil no final do ano passado. Quando muito, como pudemos ver ano passado, serão liberados jogos com portões fechados ao público, como se o importante, na prática, fosse apenas a segurança de quem paga para ver os confrontos, ignorando-se a salubridade de jogadores, comissões técnicas, policiamento, imprensa e o próprio pessoal de apoio dos serviços gerais.

Avante, na sequência de disputa do pseudo importante e rico Paulistão 2015, vem a Série A-2. Nela estão onze estádios, hoje, interditados pela própria Federação que organiza o torneio. Americana, Araraquara, Batatais, Capivari, Guaratinguetá, Marília, Monte Azul Paulista, Osasco, Rio Claro, Santa Bárbara do Oeste e Santo André têm seus estádios impossibilitados de receber jogos oficiais. Cabe ressaltar, pois, que essa configuração corresponde ao que cada cidade inscrevera de clubes na temporada de 2014, o que explica o fato de o estádio Abreuzão, de Marília, estar interditado na lista da A-2.

A cada divisão do futebol paulista analisada o número de estádios interditados só aumenta. Na Série A-3, logo, são 12 praças esportivas sem condições de receber jogos em sua integralidade. Vamos à lista das cidades: Cotia, Limeira, Matão, Mogi Guaçu, Santa Cruz do Rio Pardo, São José do Rio Preto, Sertãozinho, Taubaté, Tupã e Votuporanga. Caso você tenha visto ou ficado sabendo de jogos realizados no Teixeirão, em Rio Preto, pela Copinha São Paulo, entenderá, pois, o que quero dizer quando afirmo que essa Federação Paulista de Futebol não é séria, pois aquele estádio está, segundo a própria instituição, interditado desde 5 de dezembro passado. Quem quiser conferir pode acessar, agora, o site oficial da FPF e clicar no link "estádios", depois "laudos técnicos".

Enfim, chego à nossa Segunda Divisão, ou a Segundona Brava, como aqui defino. São, nessa última divisão, o fundo do poço do futebol paulista, onze estádios interditados. São as seguintes cidades: Barretos, Guaratinguetá, Guarujá, Indaiatuba, Jacareí, Leme, Presidente Prudente, Sumaré, Taboão da Serra, Tanabi e Taquaritinga. Na mesma retórica do parágrafo anterior, sim, o Prudentão está interditado desde a vistoria do dia 5 de dezembro de 2014, mas igualmente recebe jogos da Copinha São Paulo, vergonhosamente.

Não vou aprofundar nem entrar nos detalhes que levam à interdição de 42 estádios listados por clubes que disputarão as quatro divisões do Campeonato Paulista em 2015. A única coisa que digo é que a Federação Paulista de Futebol adota um discurso de legalidade e pratica um jogo de encobertar a realidade. A realidade, pois, em que eu vivo não corresponde ao que o futebol paulista desenvolve no mais apaixonante e milionário dos esportes brasileiros. Eu bem que queria acreditar na senhora Federação, mas a cada janeiro tenho meus motivos para, definitivamente, entender o Campeonato Paulista como uma grande mentira. 

Quem sabe, se um dia morrer alguém, por circunstâncias relacionadas ao que leva a Defesa Civil a interditar estádios,  alguma coisa vá mudar na mentalidade dos cartolas paulistas. Talvez, infelizmente, eu não viva para ver isso. E nem você, raro e exceto leitor, verá essa situação estampada em manchetes da dona Rede Globo ou da Band, cujas câmeras, claro, não mostram a realidade da desgraceira por trás de cada estádio que recebe jogos e dá audiência nas telas.


*Professor universitário, historiador e jornalista, é metre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.

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