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segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

ENEM 2015 - A educação do discurso e a educação das políticas públicas

Cláudio Messias*

Falta muito, creio, para ver na prática a educação presente no discurso do governo brasileiro. Temos um Estado que cobra prazos impreteríveis, porém oferece prazos flexíveis enquanto executor de serviços básicos. A pontualidade tem de ser do povo, enquanto o governante pode, a seu critério, trabalhar à base do 'quando der'.

Exatamente agora, nesse momento, milhões de estudantes estão aflitos, na expectativa de saber se realmente conquistaram vagas em universidade públicas, em especial as federais, para o ano letivo de 2015 que, por sinal, vai novamente começar fora de prazo por conta da greve de 2012. E essa expectativa vem de um cronograma definido pelo INEP, que é um órgão, respeitável, do governo federal. A data anunciada para divulgação dos resultados é 26 de janeiro. Para azar desses milhões de convocados para matrícula ou figurantes de listas de espera, dia 26 de janeiro começou à 0h00 e terminará às 23h59. É nesse intervalo de 23 horas, 59 minutos e 59 segundos que o governo, a seu critério, repito, tornará pública a lista de convocados e de espera.

Não pense você, raro e exceto leitor, que os prazos dados aos estudantes interessados nas vagas disponibilizadas no Sisu tiveram igual, digamos, maleabilidade de critérios. As inscrições e respectivas opções de vaga ficaram abertas, no sistema, de segunda a quinta-feira passadas. Exatamente à 0h00 de sábado o sistema foi fechado, de maneira que quem teve algum tipo de problema nos minutos finais e quis, por exemplo, mudar de opção de curso ficou impossibilitado. Algo parecido com o que ocorre com o sistema da Receita Federal, que igualmente interessa ao governo e quando fecha para declaração de imposto de renda, por exemplo, não tem choro nem vela quem impeçam o fechamento da tampa do caixão.

Agora pela manhã os telejornais Bom Dia Brasil, da Globo, e Café com Notícias, da Band, anunciaram nota do Ministério da Educação prevendo que às 10h00 seria feito um balanço oficial do total de inscrições no Sisu 2015. Creram, alguns, que mais uma vez o atual governo deveria ser levado a sério e que, portanto, uma hora e dez minutos atrás todos saberíamos da lista de convocados para matrícula. Claro, como esse governo não é sério com a educação, continuamos todos babando, na expectativa de acessar as tais listas.

Sou crítico de todos os governos que passaram por esse país e, aqui, os defino como iguais farináceos distinguidos, apenas, pelo envolto descritivo. Mas, em 2015, a senhora Dilma está passando dos limites quando o assunto é educação. Não paga bolsas de iniciação científica e de ingresso à docência e atrasa auxílios de fomento à pesquisa em níveis de graduação e pós-graduação. Como se já não bastasse ter sentado em cima do dejeto a que seu antecessor submeteu o Plano Nacional de Educação, que foi enviado no apagar das luzes do final do mandato, em 2010, ao Congresso e de lá saiu somente no ano passado, com atrase de quase meia década.

Educar como, nesse país, se não temos parâmetros governamentais?



*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA-USP.

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