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sexta-feira, 7 de março de 2014

Edital convoca assembleia e faz Vocem voltar ao que seria estaca zero

Cláudio Messias*

Uma lei do silêncio impera, em Assis, relacionada a assuntos ligados à situação real do Vocem na temporada 2014. De notícia em sites, jornais impressos e emissoras de rádio e TV, a reativação do mais tradicional clube da cidade, depois de passada uma década, tornou-se assunto de boletim de ocorrência e processo judicial. Desde então, nada mais é divulgado, apesar de a equipe gestora do novo projeto ser composta por colaboradores que, jornalistas, são acostumados a explorar com exclusividade o noticiário dessa nossa Sucupira do Vale.

No final de semana passado o Vocem voltou a estampar página de jornal impresso. Mais precisamente, em espaço de 6 cm x 19,5 cm, no rodapé da página 10 do periódico Voz da Terra, edição 1º de março de 2014. De notícia, o Esquadrão da Fé foi resumido a um edital de convocação para assembleia extraordinária. Na pauta, o auto-declarado administrador provisório Reinaldo Farto Nunes, o vereador Português do PT, chama para que nesse dia 8 de março, sábado, também conhecido como amanhã, sejam tratados assuntos tais como adequação estatutária, reativação do clube esportivo, eleição do conselho deliberativo, eleição da diretoria executiva e eleição do conselho fiscal. O documento é datado de 28 de fevereiro.

Analisando, portanto, as circunstâncias formais, diante de tudo o que foi, até aqui, tornado público sobre a reativação do Vocem, há fatos e cessam argumentos. Primeiro, se o edital desse dia 28 de fevereiro convoca para os 5 pontos definidos em pauta, significa que o Vocem, hoje, continua não existindo protocolarmente. E a já divulgada e amplamente explorada eleição de conselho e diretoria, um mês atrás, ou não existiu ou ocorreu via trâmites que esbarram em algum tipo de ilegalidade ainda desconhecida do público. E se não existia legalmente um mês atrás, condição de que transitará para o status de existência legal e formal a partir desse dia 8 de março de 2014, segundo a administração provisória, fica outra pergunta: de que maneira haverá disputa da Segunda Divisão do Campeonato Paulista se a dona Federação Paulista de Futebol já expirou todos os prazos para tal?

Soube desse edital na quarta-feira de cinzas. E tive acesso ao exemplar impresso de Voz da Terra ontem, no final do dia. Tenho-o em mãos e esclareço a você, raro e exceto leitor, que não mantenho qualquer tipo de vínculo com os envolvidos nesse imbróglio que lamentavelmente incide sobre o nosso Vocem. Sei, claro, da existência de duas partes que se digladiam nos bastidores, tentando a qualquer custo viabilizar a reativação do clube ou, em contrapartida, impedir que isso aconteça da forma como os trâmites têm desenrolado. E vendo o edital pergunto, sabendo que não terei a tempo resposta, o que vem a ser uma administração provisória do Vocem, uma vez que essa batalha toda, que chegou à Justiça Comum, contesta exatamente a transição entre conselho/diretoria que desativou e conselho/diretoria que pretende reativar o clube. E se há edital agora, por que não houve outro, anterior, um mês atrás?

E se há uma decisão judicial datada de 26 de fevereiro e incidindo sobre esse imbróglio, qual a legalidade e quais são os efeitos dessa assembleia extraordinária que ocorrerá amanhã? Sou jornalista, professor e pesquisador das Ciências da Comunicação, e não um egresso de curso de Direito, mas pela experiência de decorridas quase três décadas pelo jornalismo já deparei com pautas semelhantes a essa e não consigo visualizar outro cenário futuro que não seja aquele composto por uma série sucessiva de ações judiciais de contestação. O que significa que, reconheçamos, pode haver algum acordo, não divulgado, junto à Federação para que o Vocem formalize a documentação necessária, confirme inscrição e inicie a disputa da Segundona. Sem, no entanto, isso dar a  certeza de que ações cautelares futuras ora irão tirar, ora irão colocar o clube no campeonato.

Até algumas semanas atrás Assis sabia que o presidente do Vocem era Edson Fiúza e Reinaldo Nunes estava à frente do conselho. Na época, um representante ainda não tornado público protocolou interesse de inscrição do Vocem durante o conselho técnico realizado pela Federação, em São Paulo. E desde então, rápidos feito um raio, os articuladores do projeto formaram conselho, elegeram diretoria, apresentaram comissão técnica, alugaram residência para a moradia dos jogadores e, de repente, cessaram a divulgação do cotidiano do Esquadrão da Fé. Enquanto imprensa e torcida aguardavam a chegada dos jogadores, a definição do centro de treinamento e os preparativos para a disputa do campeonato, em 6 de abril, nada mais se falava sobre a pauta nas últimas semanas.

Não entendo desses trâmites relacionados a constituição de conselho e definição de diretoria. Mas, sinto-me no direito de deduzir que se há um edital convocando para assembleia, amanhã, tratando dos mesmos itens que segundo os gestores já foi motivo de pauta um mês atrás, então fica evidente que alguma coisa ou deu errado ou foi feita de forma errada nesse retorno do Vocem. E se isso ocorreu, que seja democraticamente tornado público, da mesma forma que se não ocorreu, também haja esclarecimentos públicos. Prefiro acreditar que meu amigo Reinaldo Nunes, um vereador pautado em sua história pela severa cobrança de legalidade em trâmites que envolvam formalidades nos mais diversos aspectos, relacionados ou não à coisa pública, esteja amparado por algum tipo de acordo igualmente formal com a equipe gestora, anterior, do Vocem, uma vez que somente assim, ao que parece, pode haver convocação para a assembleia desse sábado. E se há esse sólido terreno de legalidade, que ele próprio, Português, mantenha a sua tradicional competência de comunicador e, continuando as exclusivas reportagens sobre a reativação do Vocem, estampe em seu Jornal da Segunda Online, antes das 10h00 desse sábado, tudo o que ocorre de imbróglio nesse processo todo. Afinal, de todas as leituras que fiz em processos em trânsito na Justiça, em momento algum houve sentença de segredo de Justiça ao caso, único empecilho que amordaçaria o fazer jornalístico.

Tenho externado, aqui, uma preocupação séria com o clima de rivalidade que está nascendo e dividindo Assis nesse início de 2014. Declarar apoio ao Atlético Assisense, por exemplo, é lido radicalmente como ser contra o Vocem. Sei, muito bem, que quem é de fora de Assis e acompanha esse Blog entenderá isso como impossível e fruto de exagero de minha parte. Mas, é a realidade, pois há habitantes da cidade que, por incrível que possa parecer, não sabem da existência do Atlético Assisense, mas quando fala-se em Vocem, entendem perfeitamente  do que se trata. Ou seja, a marca Vocem é muito forte, fruto de uma tradição construída por fatores diversos, entre eles o vínculo religioso que marca a fundação do Esquadrão, a ligação com a comunidade ferroviária da Sorocabana e mesmo o atípico nome, ora pronunciado como 'Vócem', ora como 'Vocém'. Do outro lado, contudo, há uma juventude que tem laços diretos com o Atlético Assisense, advindos da Escola Peraltinha, que por tantos anos formou craques para o futebol de todo o planeta. Jovens que têm abaixo de 25 anos de idade, não viram o Vocem jogar e que há 12 ininterruptos, se quisessem ver jogo de futebol profissional no estádio Tonicão, iam assistir ao Falcão do Vale. Esses dois lados, que dividiriam tranquila e civilizadamente a mesma arquibancada, têm se rendido a provocações e ofensas. Eu mesmo, que por reprovar a forma como o Vocem foi retomado e decidido, apesar de ter o Esquadrão da Fé no coração, apoiar o Falcão do Vale em 2014, tenho sido alvo de desaforos por parte de internautas que generalizam como sendo perseguição qualquer posicionamento que questione o que ocorre nos bastidores. A isso essas pessoas definem como "torcer contra", o que, garanto, não é o meu caso.

Que haja, portanto, clareza das partes envolvidas, uma vez que a Federação Paulista de Futebol, como lhe é peculiar, cala-se e fecha-se em sua doutrina, talvez pelo fato de o imbróglio do Vocem envolver a Justiça Comum. Sabemos que os prazos para inscrição e apresentação de documentação dos clubes para a disputa da Segundona 2014 já expiraram, o que leva à dedução de que o Vocem, sem conselho e diretoria formados até os prazos conhecidos, está fora da disputa. Hoje, faltam exatos 30 dias para que o Esquadrão da Fé faça, caso inscrito realmente esteja, a estreia diante do Presidente Prudente, no estádio Tonicão. A torcida e a comunidade assisense como um todo merecem o respeito de um pronunciamento oficial dos supostos novos gestores, e antes das 10 horas desse sábado, para quando há convocação de primeira chamada para a assembleia. Na minha opinião, fazer barulho depois dessa assembleia continuará colocando sob suspeição todo o trâmite, dada a falta de clareza. Afinal, dar notícia boa todo mundo faz e gosta. Mas uma relação de paixão como a do futebol tem de ser clara e honesta na alegria e na tristeza, como em vida o querido padre Aloisio Bellini tão bem fez no selar de matrimônios.


*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

Um comentário :

Henrique disse...

Pq nao comenta nada do vocem agora?! Eu falei nao falei que o vocem ia disputar?!