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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Assis e os 108 anos de utopia da industrialização



Cláudio Messias*


Em 2009, a segunda maior rede de supermercados do planeta decidiu os investimentos que faria no Estado de São Paulo ao longo dos então próximos cinco anos. Assis e Franca ganhavam os projetos de instalação de lojas do Walmart. Ninguém foi bater à porta do grupo norte-americano. Simplesmente, os números falavam por si. E eles para cá vieram.

Esse jeito quantitativo de encarar a economia é chato. Chato, mas derruba tabus. Costumamos lançar olhares somente qualitativos sobre o interior. Vida pacata, baixos índices de violência, pôr-do-sol romântico e nostálgico, cheiro de bosta de vaca misturado com barulho de galinhas no terreiro. Mas, calma lá. Isso é sítio, zona rural. E dia desses vi que há um sitio situado a menos de 30 quilômetros da Praça da Sé, na capital, com direito a todos esses bichos e plantas característicos. O interior que as grandes empresas enxergam tem cidades que são cada vez mais parecidas com as metrópoles. Semelhantes em um detalhe: consumo.

Há pelo menos três décadas o discurso político prevalente em Assis é de que para cá não vêm indústrias. E sem indústrias não há, nessa retórica, progresso. Trata-se, pois, de um discurso histórico construído na época em que o planeta vivia sob o temor da Guerra Fria e o Brasil, sob a ditadura, experimentava o tal do nacional-desenvolvimentismo. Um capítulo de nossa história recente em que a indústria aliou-se ao opressor Estado Nação e interferiu nas políticas de educação e desenvolvimento. Dali nasceram projetos do sistema S, como Sesi, Senai, Senac, etc, e uma cultura de que o país precisava qualificar mão-de-obra que atendesse à indústria, principal referencial de desenvolvimento de um mundo capitalista ao extremo, do lado azul da Guerra Fria, e socialista, comunista, do lado vermelho. Principalmente a população adulta cristalizou essa fala.

Crescemos ouvindo os mais velhos sustentando o discurso de que a região de Assis não vai pra frente porque aqui não tem indústrias. Tal retórica advém de um tempo em que a indústria metalúrgica empregava uma cidade inteira como São Bernardo do Campo, no setor automotivo. O discurso não mudou, mas a indústria, sim. Fábricas que antes empregavam milhares, hoje têm quadros de centenas de funcionários. Com a automação trazida pela tecnologia, há fábricas que trocaram os milhares por dezenas de trabalhadores. Se uma máquina colhe cana-de-açúcar, 24 horas por dia, substituindo o serviço de 30 boias-frias por jornada de 8 horas, o mesmo maquinário substitui dezenas, centenas de homens e mulheres sob o comando de um único funcionário, cuja folha de pagamento corresponde a menos de 5% do efetivo substituído.

Pois é, os tempos mudaram. A realidade, idem. Só o discurso é que não muda. Ainda há quem lamente que a não vinda de indústrias pesadas sentencia Assis ao marasmo econômico; à falta de prosperidade. Será mesmo? Eu, de minha parte, defendo que não é exatamente isso o que ocorre. O que posso, aqui, é elencar circunstâncias que fundamentem meu otimismo com a minha cidade, a minha região. Deixando claro, óbvio, que reconheço haver muita, mas muita coisa errada não só em Assis, mas na região como um todo, quando o assunto é diferenciar projetos de crescimento de projetos de desenvolvimento.

Assis está vinculada à região administrativa de Marília. Estamos atrás de Campinas, São José do Rio Preto, Ribeirão Preto, Baixada Santista e da Grande São Paulo nas estatísticas relacionadas à renda per capita. Mas, estamos à frente de Presidente Prudente. Junto com Marília, sede de região, e Ourinhos, Assis compõe uma fatia que corresponde a 40,7% do PIB de toda a região administrativa. Esses números, referentes a 2010 e pertencentes ao Seade, já foram melhores um dia: 45,3%, em 2000. Nada, porém, relacionado a queda de qualidade de vida das três principais cidades, mas, sim, provocado pela melhor distribuição do desenvolvimento entre as demais localidades. Isso porque o PIB da região toda continua correspondendo ao mesmo 1,4% do PIB do Estado.

Das três cidades citadas, Assis é a que possui o menor PIB, também conhecido como produto interno bruto, ou seja, a soma de todas as riquezas de uma determinada localidade. Atrás de Marília e Ourinhos, temos riqueza de R$ 1,3 bilhões anuais. Em 2000 esse número correspondia a menos da metade, ou seja, R$ 557 milhões. Marília, em 2010, tinha PIB de R$ 3,9 bilhões e Ourinhos, R$ 1,7 bilhão. O fatiamento dessas fontes geradoras de riquezas mostra, e bem, o perfil distinto das três localidades que escolhi para citar como parâmetro. Vamos a essas fontes.

Três anos atrás o Seade identificava que o PIB de Assis era dividido em três escalas, assim distribuídas: R$ 2,3 milhões da agropecuária, 15,8 milhões da indústria e 81,9 milhões do setor de serviços. Marília, sede política da região administrativa, gerava R$ 0,9 milhão com agropecuária, R$ 23,6 milhões com a indústria e R$ 75,5 milhões com o setor de serviços. Ourinhos, R$ 1,8 milhão com a agropecuária, R$ 28,6 com a indústria e R$ 69,6 milhões com serviços.

O setor de serviços, pois, corresponde à nossa maior fatia geradora de riquezas, seguido pela indústria e, por último, pela agropecuária. Das três cidades, Assis é a que mais gera riquezas a partir da atividade que vem da zona rural. Tudo bem, é o setor que menos rende entre os três considerados, mas, ainda assim, não perdemos a nossa característica de região com economia essencialmente agrícola. É o IBGE quem mostra que há mais de dez anos invertemos o quadro de 50 anos atrás, de maneira a deixar de ter 75% de população rural e passar a ter 25% dos habitantes morando onde produzem alimentos da mesa diária de todos. Partindo desse parâmetro, nossa agricultura de Assis está bem, pois aumentou seu PIB, em dez anos, de R$ 1,2 milhão para R$ 2,3 milhões. Proporcionalmente, nossos agricultores geram, em riquezas, 20% do que a indústria produz na cidade.

Mais de 80% das riquezas que dão combustível à economia de Assis advêm do setor de serviços. Ficamos, nesse quesito, à frente de Marília e de Ourinhos. Aqui, R$ 81,9 milhões, ante R$ R$ 75,5 milhões de Marília e R$ 69,6 milhões de Ourinhos. E que fenômeno é esse chamado “serviços”? Trata-se de um movimento para o qual o Sebrae começou a olhar com mais carinho a partir dos anos 1990. Um setor da economia que envolve a geração formal e a geração informal de vagas no mercado de trabalho. Uma fatia que ganhou identidade principalmente com a terceirização de atividades que caracterizou a última década do século passado, quando o Brasil assumiu suas políticas estatais neoliberais..

É nesse segmento que entra o Walmart. E é nesse cenário que encontra-se fundamento para a solidez da economia de Assis perante a outros centros. Aqui, onde mais de 80% das riquezas saem do setor de serviços, significa dizer que o índice de empregos é estável e não depende diretamente de certezas e oscilações do mercado para determinar seus altos e baixos. No geral, a região administrativa de Marília mostra o setor de serviços como responsável por 36,5% do total gerador de empregos formais na economia, ante 50,5% da média geral do Estado de São Paulo. Assis está fincada de forma sólida nesse parâmetro.

Dentro do setor de serviços o comércio é o que mais gera empregos formais. Apropriando-se de números do Ministério do Trabalho a Fundação Seade mostra que o topo do ranking das profissões que mais geram vagas na região administrativa de Marília é justamente a de vendedor do comércio varejista. Só em 2011 foram notificados 14.931 trabalhadores com registro em carteira ocupando esse tipo de função na região administrativa. Setor de comércio, que pertence a serviços, que mostra Assis como a cidade da região administrativa com economia estabilizada exatamente por esse setor.

No discurso de que Assis carecia de indústrias o mercado mudou, a economia mudou, o perfil dos profissionais mudou, mas não a retórica. Enquanto lamentávamos que indústrias não vinham para cá, perdíamos fôlego com a cervejaria Malta, assistíamos à extinção do parque industrial da Nova América e nunca vimos um distrito industrial com ocupação plena. Vimos, sim, a extinta rede Sé de supermercados ganhar corpo na avenida Dom Antônio, onde depois seria centro de distribuição da Rede Avenida e, enfim, a loja Avenida Max. Nesse ínterim, o Amigão chegou, e trouxe com ele novo conceito de supermercados na cidade. Novo turno de funcionamento de lojas como o Super Bom Supermercado exigiu contratação de novos funcionários. E o setor de serviços não parava de expandir.

Depois do Amigão chegaram São Judas Tadeu, Americanas e, por último, Walmart. O mercado consumidor de Assis é tão bom que até mesmo a pequena rede França, de Maracaí, cá veio com a loja instalada na avenida Paschoal Santilli, no Jardim Paraná. Aí os mais pessimistas vão sacramentar: mas, para que tantos supermercados se não tem indústrias para gerar emprego e, assim, ter consumidores para tantas lojas? Sim, essa retórica mostra que a cidade de Assis ainda não acordou para o sentido inverso da corrente que impulsiona a economia. Hoje, é o setor de serviços que conduz as estatísticas, comportamento que advém do novo perfil da classe média brasileira como um todo.

Exatamente 10 anos atrás, em 2003, nosso maior supermercado era o Avenida Plus, na rua José Nogueira Marmontel. Com ar climatizado, ganhava por um lado mas perdia por outro, pois não tinha logística para estacionamento, submetendo clientes ao trânsito e ao clima. De lá para cá a cidade ganhou os seguintes supermercados: Amigão, França, São Judas, Max, Americanas e Walmart. Os grandes geraram, em média, 150 novos postos diretos de trabalho. Podemos, então, falar em 700 novos empregos diretos criados. Consideremos que metade disso, ou seja, 350 empregos, foram gerados de maneira indireta. Temos, nesse patamar, mil famílias impactadas diretamente, em dez anos, pelo setor de comércio supermercadista que ganhou combustão com a revolução ocorrida na economia nacional..

Vejamos, pois, que cada uma das empresas citadas acima gera, hoje, muito mais empregos do que conseguiriam fazê-lo igualmente as indústrias de pequeno porte. Não tenho essas estatísticas, mas imagino que todo o parque industrial da cervejaria Malta funcione com o equivalente a 1/3 desse efetivo de novas vagas criadas em Assis, pelo setor supermercadista, nos últimos dez anos. Portanto, quem chora a ausência de indústrias deve, primeiro, agradecer que existam empresas do setor de serviços que não deixam a economia local cair e, assim, garantam nossa efetivação evolução estatística. A cidade sabe criticar o predomínio da Rede Avenida de supermercados, mas, se números fossem abertos, todos veríamos que não existem patrões que mais empregam, na atualidade, do que aqueles que assinam os contracheques (sim, tudo bem, hoje os pagamentos são feitos mediante crédito em conta bancária), ou seja, a família Binato. Puxação de saco de minha parte? Não. Simples realidade. Quem tiver números que me desbanquem, que os apresente.

Os números relacionados à cidade de Assis são deveras expressivos se observados a partir das estatísticas do Seade. Em 2011 tínhamos os 95 mil habitantes que tanto desagradam aqueles que querem porque querem que indústrias venham para a cidade. Caso seja mantida a taxa de crescimento populacional de 1,61% ao ano, levaremos mais alguns 1ºs de julho para a tão esperada comemoração de virada dos 100 mil habitantes. Muitos batem no peito clamando por 100 mil habitantes e não se dão conta de que Assis é, hoje, uma cidade mais feminina, rompendo o histórico predomínio masculino do perfil de sua população. Sim, o Seade mostra que em 2011 tínhamos 49 mil mulheres, ante 46 mil homens assisenses. Três mil mulheres a mais no território e o povo discutindo se o todo tem mais ou menos de uma centena de milhar. Tal qual nas grandes guerras do século passado, as mulheres saíram dos lares e para as casas levaram mais renda e menos filhos. Nossa de de saúde pode, e deve, ser criticada, mas um fator há de ser respeitado: as políticas públicas de educação para a saúde, em Assis, são dignas de elogio. De três filhos por família a média baixou, segundo o Seade, para dois ou menos. Crescemos, pois, com a necessária qualidade que nos torna trilhadores do desenvolvimento, uma vez que sob o controle demográfico a rede municipal de ensino básico, infantil, atende melhor à demanda, gerando um efeito cascata de benefícios que refletirá, a médio prazo, nos ensinos fundamental e médio.

Tudo bem, se for levado em conta esse patamar da melhor distribuição de qualidade de vida da população de Assis ver-se-á que há tempo de sobra para discutir esses assuntos relacionados à economia local. Afinal, a longevidade de um assisense é, hoje, de 73,9 anos, o que de minha parte garante que tenho pelo menos mais três décadas de combustível para discutir a minha cidade. O predomínio populacional de Assis é de pessoas com idade entre 25 e 59 anos. Até 14 anos são, atualmente, 19,1% do total. A faixa mais velha, a partir de 60 anos de idade, corresponde a 14,1% da população. Logo, do total de 100 mil pessoas pretendido para a cidade, 14 mil podem cristalizar o discurso nacional-desenvolvimentista de, ainda, dependermos de parques industriais para atingir um nível de desenvolvimento que cidade com esse perfil não atingem.

*Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

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