domingo, 5 de julho de 2026

EU, DA POLTRONA - Seleção eliminada e nada de lágrima minha

 *Cláudio Messias

Se aqui no blog eu já tenho baixa audiência dos meus raros e excetos leitores, quiçá hoje, agora, minutos após a Seleção Brasileira ter sido eliminada da Copa 2026 pela Noruega.

Os noruegueses jogadoram melhor que nós? Absolutamente, não. E você me pergunta: qual é o maior dos fundamentos do futebol? E temos, certamente, um consenso: o gol. E o placar mostra a Noruega marcando 2 gols e o Brasil balançando as redes apenas uma vez.

No fundamento básico do futebol a Noruega está nas oitavas de final por merecimento. Mas, na bola, no futebol, o Brasil foi mais efetivo. E isso leva a um resultado injusto? Claro que leva!

Não precisa ter os meus 56 anos de vida, metade dos quais atuando como jornalista, especialmente em coberturas de futebol, para saber que posse de bola não significa ter domínio do jogo. Cito o Corinthians de Tite, campeão mundial em 2012, como exemplo disso.

Tite tinha o método mola propulsora, depois adotado por seu auxiliar Carille, que também foi campeão brasileiro com o mesmo Corinthians anos depois. Deixe a posse de bola para seu adversário, dê a sensação falsa de que ele esteja te dominando e, certeiro, aplique o contra-ataque em bloco que será fatal, marcando seu gol.

Ancelotti, há pouco, fez isso. Ele deixou a Noruega ter posse de bola, e acionou a mola propulsora com Vini Jr e Matheus Cunha. Foi assim o lance da penalidade. A cobrança da penalidade é que foi equivocada. O filho do pai italiano covarde deu entrevista depois do jogo e disse que essa decisão sobre quem cobra penalidade é anterior, da comissão técnica. Logo, quem errou a cobrança não foi só quem chutou, mas quem decidiu quem deveria cobrar.

Antes do jogo fui questionado no X sobre minha expectativa pro jogo, e cravei: Brasil 4x1. Sabia, pois, que tomaríamos um gol, e que seria, óbvio, de Haaland. Mas eu apostava na Noruega que vi na primeira fase e na inventada, pela Fifa (pasmem), fase 16 avos. Ou seja, um time que perde o fôlego no segundo tempo, pressionada, e sempre depende de seu único jogador, a meu ver o bola de ouro de 2026.

Agora, com os nervos de todos aquecidos e o meu tranquilo, digo que errei. A Noruega teve posse de bola no primeiro tempo, mas o placar deveria ter terminado a favor do Brasil, pela penalidade desperdiçada. Alisson fez, sim, uma defesa decisiva na primeira etapa, mas nada comparado ao que seu companheiro de posição norueguês protagonizou, defendendo penalidade. E no segundo tempo os noruegueses colocaram o coelho na cartola. E o tiraram na hora certa.

Ancelotti voltou do intervalo com o mesmo time no segundo tempo. Bastaram 10 minutos para o italiano perceber que nada havia mudado. E, então, ele atendeu expectativas, inclusive a minha, de colocar Endrick. E o menino jogou em trio com Vini e Rayan. Em 10 minutos em campo criou 4 chances claras de gol, uma delasconsagrando o goleiro norueguês, que pode, com sobra, ser considerado o nome do jogo, à frente de Haaland.

Só que passados esses lances Ancelotti decidiu colocar Neymar em campo. E sacou Rayan. A meu ver, ali o projeto dele, que já não era sólido, desmoronou. Nada, mas ao mesmo tempo tudo contra Neymar. Basta ver o rendimento dele depois que entrou. Jogando pelo meio e dando assistências pelos lados. Avançar pelo meio, nada. Servir Vini e Endrick, nada. Ficamos, pois, com um jogador a menos nos últimos 15 minutos, fora os acréscimos.

Eu teria colocado Neymar no jogo? Teria, sim. E nas condições de estar perdendo por 1x0, acreditem. Mas, colocaria depois dos 40 minutos, contando com uma possível cobrança de penalidades, sabendo que tal qual no jogo contra o Japão faríamos gol no desespero dos minutos finais, inclusive nos acréscimos. Neymar faria um gol na decisão por penalidades, nem que perdêssemos por 4x1. O único gol do Brasil hoje justificaria minha posição.

Tenho intercalado ver jogos da Seleção, nessa Copa, por TMC (rádio), Globo e SBT (TV) e Cazé TV (Youtube). Hoje transitei por todas as plataformas, principalmente no pós-jogo. E a busca por culpados vai de Ancelotti à própria CBF e, pasmem, a jogadores pontuais. Coitado do Bruno Guimarães. Como se fazer o gol de pênalti garantisse a vitória da Seleção e a rendição da Noruega.

É fato, hoje, que quem está chorando são os milionários, sejam emergentes como Casemiro ou a Família Marinho. Para o brasileiro, Copa só tem sentido se o Brasil estiver no páreo. Nesse momento, 20h19, a Cazé tem 3,2 milhões assistindo e a TMC, pasmem, 585. Daqui até a final, em julho, é ladeira abaixo. Parte de equipes que está no hemisfério norte volta embora e, principalmente, o engajamento de redes cai num penhasco sem fim.

Vi, aqui no condomínio onde moro em Campina Grande, pessoas chorando com a eliminação. Na casa em frente à minha a cena era desoladora. E isso me fez resgatar a última vez em que vi uma Seleção ser eliminada e chorei. Voltei a 1982, na fatídica derrota para a Itália, na Copa da Espanha. Eu tinha 12 anos de idade e chorei sentado na sarjeta, junto com muitos adultos.

E qual, a meu ver, a diferença daquela seleção de 1982 para essa? A magia do futebol. Perdemos aquela Copa antes da final, mas sabíamos que moralmente merecemos o troféu. O jogo de há pouco não me deu aquela sensação. Perdemos moralmente qualquer chance de reivindicar sorte melhor nessa Copa que, a meu ver, será, no futuro, revelada como a mais corrupta de todas. A Fifa deveria perder a condição de organizar esse torneio, mas se eu defender isso talvez seja pior do que ter encarado máfias políticas em Assis e facções prisionais em São Paulo. Quero, pois, ver meus netos, se minhas noras assim quiserem.

* Professor universitário, historiador, jornalista, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.

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