Cláudio Messias*
O Brasil escolhe nesse outubro de 2026 seus novos Presidente da República, Senadores, Deputados Federais e Distritais, Deputados Estaduais e Governadores de Estado e do Distrito Federal. Há uma "novidade" nesse pleito que só despertou a pauta da "grande" mídia faltando uma semana para o primeiro turno: cada eleitor e eleitora votará para eleger dois senadores ou senadoras da República.
Respeito poucos grupos de mídia atualmente, preterindo principalmente aqueles que advêm da antiga hegemonia da tríade jornais impressos/rádio/televisão. Portanto, cito como exemplo desse "despertar" tardio sobre o risco de os eleitores irem às urnas eletrônicas e votarem em apenas um/a senador/a é grande, por desconhecimento ao fato de que a telinha da máquina mostrará a segunda abertura para lançamento de voto. É o site Brasil de Fato, como está abaixo:
Não é de agora que cito, aqui, meu desconforto com a não contemplação, pelas políticas públicas, do público analfabeto na hora de votar na urna eletrônica. E não, jamais, mas jamais mesmo, questiono a eficácia desse recurso eletrônico, democrático e legitimamente brasileiro de processar os votos nas eleições a cada 2 anos. O escopo da minha problematização está na suficiência (ou não) de eleitores e eleitoras, analfabetos e analfabetas, respectivamente, de estarem cientes de que estão votando por decisão própria ouy manipulados e manipuladas, por exemplo, pela pessoa que lhes deu um pedaço de papel que só tenha números que deverão ser inseridos mediante o apertar de cada uma das teclas.
Assisto a um telejornal e vejo que há aplicativos através dos quais os eleitores podem fazer a tal "colinha" de votação e tė-la na tela do celular, "facilitando" na hora de votar para os cargos disponibilizados em sequência na urna eletrônica. Fácil, simples, mas, para quem tem dois tipos de letramento: o formal e o digital. Quem saber ler e decodificar números, associando a determinado candidato cujo nome aparece na tela e poderá ser lido em fração de microssegundos é ótimo, e esses são 4,9% dos brasileiros e brasileiras segundo o PNAD/IBGE de 2025.
Colinha de votação eletrônica - Poder 360
Nos primeiro e segundo turnos das Eleições 2026 o Brasil terá 6,2 milhões de brasileiros e brasileiras que estão aptos e aptas a votar e não possuem letramento algum. São analfabetos e analfabetas, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral disponibilizados no mês de setembro. Parte considerável desse público tem voto facultativo, ou seja, está, em sua maioria, com idade acima dos 65 anos. Nessa faixa específica, esse grupo de analfabetos corresponde a 4,01% do total de brasileiros aptos a votar.
Há, sabemos, uma romantização sobre o uso e o acesso de brasileiros e brasileiras a recursos tecnológicos como smartphones. O mesmo PNAD/IBGE indica que 90,5% da população brasileira tem acesso a esse tipo de telefonia móvel. No mesmo estudo há uma disparidade em forma de abismo quando se comparam os grupos uysuários de aparelhos celulares por idade. Enquanto nas faixas dos 14 aos 39 anos o índice é superior a 90%, em pessoas com 60 anos ou mais esse parâmetro cai para 44%.
PNAD 2025 - IBGE - Uso de internet no Brasil
Desde as eleições presidenciais de 2018 o Triubunal Superior Eleitoral tem focado suas ações de divulgação social para (i) defender a legitimidade do processo de votação mediante uso de urnas eletrônicas e (ii) combater a circulação de desinformação que (a) ataque candidaturas registradas e/ou (b) questionem a legitimidade das urnas eletrônicas.
Na perspectiva da inclusão, pessoas com deficiência ganharam, e isso é legítimo, gravações de vídeo com tradutores e tradutoras de Libras, auxiliando a surdos e surdas. As teclas em braile ganharam a soma de áudios, para facilitar o voto de portadores de cegueira ou de deficiência visual. Tudo isso é legítimo e mostra que a perspectiva de cidadania eleitoral é respeitada cada vez mais.
Mas, e como ficam os eleitores e as eleitoras analfabetos e analfabetas nesse mesmo processo? Essas pessoas têm CPF e, a partir dos dados do COAF ou da própria Receita Federal, cruzados com o banco de dados dos TREs, podem ser localizados e localizadas pontualmente em seus endereços residenciais. Onde ficam as políticas públicas que não desenvolvem projetos sociais de comparecimento às residências dessas pessoas, via de regra acima de 60 anos de idade, para treiná-las no uso da urna eletrônica?
Um procedimento desse é a mais legítima das educações midiáticas, podendo servir de ponte para que esses e essas analfabetos e analfabetas possam, por exemplo, formar salas de Educação de Jovens e Adultos, ganhando dignidade para o cotidiano e, por que não, para o uso consciente da tecnologia na forma de telefonia celular. Uma família nessa situação de exlusão tinha, por obrigação, que constar num imagético programa Internet Para Todos.
Em um país onde cada vez mais os eleitores e as eleitoras (1) não vão votar, gerando abstenção, e (2) se comparecem ao local de votação e anulam o procedimento, nos acostumamos a ficar perplexos e perplexas com a soma desses dois fenômenos das urnas após as apurações consolidadas, mas não temos coragem de aprofundar no fator mais incômodo: de que maneira uma pessoa anula o voto? É tão somente protesto?
A privacidade do ambiente da urna eletrônica, garantido e determinado pela Justiça Eleitoral, não nos garante que aquele voto foi anulado apertando a tecla específica por consciência do ou da protagonista ou se por confusão da parte de uma pessoa que simplesmente não sabe discernir o que são aqueles pedaços de plástico retangulares, cada um de uma cor. Essa pessoa é analfabeta e não tem letramento digital algum.
De igual maneira, onde estão os dados de Fundação Seade e do próprio TSE que nos mostrem quem são as pessoas que anulam seus votos. É, na perspectiva do que coloco aqui, extremamente necessários sabermos se um voto foi anulado por intenção da pessoa ou se por erro e, ainda, quem são essas pessoas socialmente.
*Professor do ensino superior, jornalista, possui graduação em História pela Unsp/Assis,SP e mestrado e doutorado em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP).
Resultado de consultas utilizando IA do Gemini/Google:
Eleitores analfabetos por Estados