terça-feira, 19 de maio de 2026

EU, DA POLTRONA - Questionar Ancelotti, agora, é legítimo

 EU, DA POLTRONA

Questionar Ancelotti, agora, é legítimo

Aos críticos da convocação de Neymar, um registro ocultado pela mídia esportiva: o jogador do Santos é o único convocado que atua em clube paulista na atualidade

Cláudio Messias*

19MAI26 - Os olhos de quem torce pelo futebol fora das arquibancadas dos estádios continuam focando nas telas. Mas, não mais naquelas telas que ficam fixadas numa sala de estar, num espaço gourmet, numa parede de bar, numa área comum residencial. A popularização tanto do acesso a (essa crase é facultativa) internet quanto de posse de dispositivos móveis modificou as formas de consumo, mas não necessariamente o público que consome conteúdos relacionados ao que é transmitido na dualidade som e imagem em tempo real.

Quem é nascido entre 1960 e 1980 e está lendo esse texto tem parâmetro para recordar que quando íamos ao Estádio da Rua Brasil, ou seja, à Associação Atlética Ferroviária, para ver os jogos do Vocem quando o Esquadrão da Fé quase conseguiu o acesso à elite do futebol paulista, em 1983, assistíamos em posse de rádio portátil, ouvindo transmissões da Rádio Cutura AM. E assim foi até a temporada anterior ao início da pandemia, ali pelos idos de 2019. Até que chegou o serviço streaming, um recurso financeiramente muito mais viável de transmitir jogos nos estádios, e com imagem.

Não temos mais transmissões de jogos de Vocem ou Atlético Assisense através das ondas do rádio, que agora é tão somente FM, com a migração da faixa AM para uso, pela Anatel, da expansão da rede 5G no país. Transição, essa, que permite velocidade e qualidade maiores de transmissão justamente dos serviços streaming, que fazem os jogos do Tonicão chegarem às smartvs, pelo Youtube, através de serviço sob gestão da Federação Paulista de Futebol. Há, sim, um delay (atraso em relação ao tempo real) de 40 segundos, e tanto narração como comentários, forasteiros, dão diversos bolas-foras nas transmissões, mas para isso a tecnologia nos dá a opção ou de acionar o modo "mudo" da TV ou comentar no chat, nem sempre havendo feedback, claro.

Como dizemos aqui no interior da Paraíba, arrodeei o assunto para chegar à convocação da Seleção Brasileira que vai à Copa daqui a menos de um mês. Mas não citei, nos três parágrafos anteriores, a transição tecnológica de transmissão de jogos por acaso. Você mesmo, que lê esse texto, seja no meu Blog, seja em outra plataforma com a qual contribuo, o faz utilizando um recurso tecnológico 100% dependente de internet. Pode ser um computador (desktop ou notebook) ou um dispositivo móvel (smartphone ou tablet). Mas é fato que segundos após eu dar um "publicar" aqui na plataforma, alguém poderá já estar lendo o que escrevi. Ou, claro, passar horas sem quem ninguém se interesse. Faz parte.

Depois de dizer que o gato subiu no telhado, chego em Ancelotti. Carlo Ancelotti. Esse italiano é, na história do futebol, o técnico mais vencedor. Ninguém, em vida ou já na galeria da saudade dos treinadores de times de futebol, acumulou tantos e tão importantes títulos comandando clubes ora expressivos, ora nem tão expressivos na ordem futebolística mundial. E ele chegou à Seleção Brasileira em uma via recíproca de primeira vez. Sim, se a Seleção Brasileira nunca teve um técnico estrangeiro no seu comando, o melhor treinador da história, em outra via, jamais treinou uma Seleção, nem mesmo a de seu país.

Ganhar a Copa 2026 trará dois fatos inéditos, portanto, reunidos em um mesmo sonho. O sexto título mundial para a Seleção Brasileira interromperia um incômodo abismo de 24 anos sem levantar a taça (5 mundiais, na prática) com o comando de um conterrâneo de Paolo Rossi, nosso carrasco de 1982, e de Roberto Baggio, nosso protagonista favorito no quarto título de 1994, ao mesmo tempo em que daria a um italiano seu, pasmem, trigésimo primeiro título na carreira, o primeiro no comando de uma Seleção de país. Escorreu uma gota de veneno aqui no canto da boca, mas preciso registrar que a Itália, de Ancelotti, ficou mais uma vez fora de uma Copa do Mundo. Santo da casa não faz milagre para a "CBF da Itália", é isso?

O gato voltaria a subir no telhado aqui no meu texto se fosse citar os 30 títulos que Ancelotti tem na carreira. Qualquer IA faz isso bem rapidinho aí. E vale a pena conferir, para ter dimensão sobre o tipo de comando que assumiu a locomotiva que conduz os sonhos brasileiros por mais uma conquista de Copa do Mudo. Esse italiano, é inquestionável, sabe o que faz. E faz bem. Só pisa na bola com esse costume péssimo de mascar chiclete, fumo de corda, folha de coca, boldo, cocada ou sei lá o que, o tempo todo, à beira do gramado. Não, não vou entrar no detalhe da sobrancelha do lado esquerdo, que mereceria uma codificação para tradução gestual.

Precisei viver 56 anos para concordar, hoje, com algo capitaneado pela CBF. Escândalo após escândalo, corrupção após corrupção, a nossa Confederação Brasileira de Futebol continua sendo presidida, como nas gestões anteriores, por quem não faz a mínima ideia do que seja o fedor de chulé em um vestiário de estádio após um jogo, seja ele um rachão varziano ou um jogo oficial. Mais ou menos como a pessoa dizer é professor e desconhece o que seja o cheiro de uma sala de aula depois do recreio de uma Sexta série numa tarde de verão. Só professor sabe o que estou dizendo. E só quem é do futebol sabe do que estou falando.

A presidência da CBF virou um barco à deriva. Só que esse barco caiu na mão de um sem-noção que pode não entender absolutamente nada do mundo senso comum do futebol. Mas é gestor. E dos piores que já passaram pela sua cadeira antes, ele se mostra o menor pior. Trazer Ancelotti não é mérito dele. A chegada do italiano apenas coincidiu com seu início de gestão. E os dois foram aparando arestas juntos. Duvido, com toad sinceridade, que Ancelotti troque mais do que duas palavras com o atual presidente da CBF quando se encontram. E essas duas palavras variam de "bom dia", "boa tarde", "boa noite" ou "vai tarde".

Só que o peso de Ancelotti na comissão técnica da Seleção coloca uma sem-moral CBF em, ao menos, condições de diálogo e exigência de respeito ante à Fifa que, por sinal, não diferente ,vem capitaneando escândalos na organização das ultimas Copas, entre elas a do Brasil em 2014. Não obstante, a entidade deu ao Laranja que governa um país na América do Norte o título de Nobel da Paz, momentos antes de invasões a países e deflagração de guerras. Ancelotti não tem nada com isso, mas transfere para o país da América do Sul o peso de sua presença na perspectiva da política do futebol. Logo, que nos rspeitem mais, por favor.

Por aqui, Ancelotti não classificou a Seleção para a Copa na primeira colocação das Eliminatórias. Mas, como disse, herdou uma casa abandonada, destruída, em pedaços, com as contas no vermelho. Nem fiado na quitanda Ancelotti conseguia comprar em nome da CBF. E a repercussão de sua chegada na crônica esportiva me faz duvidar se o italiano foi retribuído em todos os "bom dia" da vida que deu nas primeiras semanas. A cada convocação ele agradava 3 a cada 10 jornalistas esportivos. Se perdia jogo amistoso ou das Eliminatórias, pronto, o gringo veio só fazer turismo e curtir a aposentadoria indireta em terras tupiniquins.

As semanas que antecederam a convocação, agonia encerrada ontem, 18 e maio, dividiram o Brasil mais que a polarizada sociedade brasileira da política partidária correta. Quaest e DataFolha diriam "Quem quer Neymar na Copa" teria 33% da preferência, "Quem não quer Neymar na Copa" teria 31% e "Não sabe opinar" seriam 34%. Na margem de erro, Neymar estaria e não estaria na Copa, para desespero de quem não sabe nem que vai ter Copa do Mundo nesse ano.

Neymar estará na Copa. E não quer dizer disputará a Copa. Uma coisa é estar lá, outra coisa é jogar lá. Um jogador chamado Ronaldo Luiz Nasário de Lima, eternizado como Ronaldo Fenômeno, o melhor sucessor de Pelé com a nossa camisa, estava também nos EUA em 1994, aos 17 anos de idade. O Brasil já se encantava com o futebol daquele moleque de dentes frontais salientes e magrelo, nos campos mineiros por onde o Cruzeiro jogava. E o mundo começava a conhecê-lo como sucessor, no holandês PSV, de Romário. Mas Parreira levou Ronaldinho, como era conhecido, para ser reserva de Viola, que por sua vez era reserva de Romário, o melhor jogador da Copa de 94, cujo caneco conquistamos. Ronaldinho não entrou em um jogo sequer na Copa de 94.

Fui defensor, entre amigos e na família, da convocação de Neymar. Historiador de formação e pesquisador das Ciências da Comunicação em nível de mestrado e doutorado, defendo que haja uma mudança cultural no Brasil. Não honramos nossos ídolos, e não é só no futebol. Lembro quando criança que Tonho, amigo ferroviário de meu saudoso pai, dizia nas rodas de conversa que o país pararia quando duas pessoas morressem: Pelé e Roberto Carlos. O primeiro já se foi, e parou tão somente a Baixada Santista. O segundo está em vida, tem seu legado e altos e baixos, dado seu humor de ranzinza, mas, certamente, quando de sua passagem, será lembrado. Apenas lembrado. Não vai parar o Brasil como seus fãs fervorosos de 40 anos atrás pensavam.

A coisa está tão esquisita nesse aspecto, e aqui volto o gato pra cima do telhado, que o maior ídolo da história do basquete, de importância similar à de Pelé e Senna nos esportes, faleceu semanas atrás e sequer teve o velório aberto ao público pela família. Oscar Schmidt foi embora e o país que junto com ele chorou na conquista eternamente histórica do Pan de 1987 não pôde, na representação, fazer a tão necessária despedida que, sabemos, ele em vida certamente iria querer. Decisão de família, é de se respeitar, mas esse ídolo ficará guardado cada vez mais em um compartimento da memória oficial que somente a família, em exposições e eventos como tem feito, tentará resgatar.

Neymar, tal qual eu, você e todos e todas, um dia será o que hoje o são Pelé, Senna, Oscar, deixando ou não penduricalhos nas contas bancárias, como tem sido a polêmica mais recente no noticiário. Todos morreremos um dia. E ser convocado para a quarta Copa do Mundo é justo para um atleta que com a camisa da Seleção sempre deu a vida pelo país. Quase ficou paraplégico num lance criminoso de jogador da Colômbia na Copa de 2014, antes da humilhação dos 7x1 naquela fatídica final. E dois anos depois estava na Seleção campeã olímpica de 2016, aqui dentro de casa. Duas de suas três mais graves lesões ele sofreu defendendo a Seleção que até ontem poderia deixá-lo de fora em um torneio que terá, entre outros, o croata Moldric e o português Cristiano Ronaldo acima dos 40 anos. Neymar tem 34 anos, quatro a menos que o argentino Messi. E todos estarão na Copa.

O extra-campo foi, é e sempre será um empecilho na vida de Neymar. Ter posicionamento político-partidário é, sim, justo e faz parte do jogo democrático. Só que ele é jogador de futebol, veste a camisa da seleção de um país, e esse país, polarizado, promove e leva à falência moral quem se atreve a expor publicamente suas decisões individuais. Daí, por hipótese, parte da imensa rejeição a seu nome ntre os convocados, por partes que misturam ideologia e esporte.

Mas essa convocação de Neymar, festejada e odiada nesse dia 18 de maio de 2026, é névoa. O Brasil criou expectativa em torno da Copa, coisa que não se via desde 2006. Penduricalhos do judiciário, a ética do STF, a lista de envolvidos com o Banco Master, o despejo de vice-prefeito, o desaparecimento de uma senhora no Jardim Rezende e a espiadinhao para saber se a grama do quintal do vizinho está mais verdinha que a sua, tudo perdeu sentido com a expectativa em torno da Copa. Agora, as metralhadoras sociais ficam voltadas a: Neymar será ou não titular no time de Ancelotti? Entra no segundo tempo ou só é chamado no banco de reservas quando a coisa estiver feia no placar? Se o jogo no mata-mata caminhar para as penalidades ele entra ou não para bater?

À sombra da convocação de Neymar o tal míster Ancelotti deu sinais de que ainda há gente na CBF que manda mais ou igual a ele. Não ter chamado Hugo Souza para o gol e ter colocado Weverton como terceiro goleiro lugar na vaga do varziano Bento soa como tentativa de colocar algum nome do ladeira abaixo futebol sulista.  Afinal, o Brasil inteiro precisa ter um motivo para torcer, a favor ou contra, entre junho e julho. Tafarel, campeão em 1994, tem dedo, mão e corpo inteiro nisso, não há dúvidas, sulista que é.

As tais surpresas do míster só não foram piores do que a inimaginável e mais sem-noção pergunta de uma bancada do Jornal Nacional na história, quando César Tralli questiona, hipoteticamente ao vivo, se Ancelotti já poderia dizer o time da estreia na Copa. Aquilo foi um soco no jornalismo. 

Levar Enrick é justiça ao desempenho do garoto tanto na base do Palmeiras até aos seus jogos pelo Lyon, da França, e com a pópria camisa da Seleção. Não tira o pé, não leva desaforo pra casa, não olha todos os dias pro peso do corpo na balança e mete gols. Na ausência de Estêvão, vai fazer Neymar amargar a reserva, até porque os dois juntos em campo com certeza a Seleção terminará com alguém expulso.

Eu não gosto de parte dos jogadores selecionáveis da CBF desde Tite, piorando com Dorival e seus antecessores relâmpago. Se já não via tanto brilho nas Seleções passadas de Felipão e Parreira, a partir de 2003, pior agora. Desesperador saber que Ancelotti especulou levar o chorão Thiago Silva, outro quarentão, para a zaga. Daí tu questiona: mas o Brasil não precisa honrar seus ídolos? Sim, precisa, mas Thiago Silva pra mim nunca foi ídolo. Falhou absurdamente no 7x1, ao lado de David Luiz, que hoje tem 39 anos. E ambos saíram de campo aos prantos, desamparados, de uma forma o país do futebol passou, definitivamente, dentro de casa, depois da humilhação, a preterir futebol como sua pauta principal. Está voltando agora.

Ancelotti fez suas escolhas e tem cunhão para conduzir o trabalho. Renovou seus penduricalhos com a CBF e vamos ter que engoli-lo até a Copa de 2030, ganhando ou não a taça em 2026. Deixou fora da lista o melhor centroavante de posição do futebol brasileiro desde Fred, ex-Fluminense. Centroavante nato mesmo, ou seja, lento, sim, mas de presença na área e que balança as redes tal qual Lewandovsky e Harry Kane quando a bola sobra. Pedro seria meu titular em qualquer jogo, sendo servido por Vini Júnior, Endrick ou quem mais o míster optar por formar a linha de frente.

Pedro ficou de fora, assim como muitos outros selecionáveis. Preocupo com as laterais, que no sistema e Ancelotti têm função de marcação e apoio ao ataque, por sistemas táticos flutuantes, característica histórica do treinador mais vencedor da história do futebol, protagonsita da revolução que fez emergir Pepe Guardiola. As ausências de Militão, Rodrygo e Estêvão deram pouco tempo de reação ao imaginário de jogo de Ancelotti. Logo, na primeira fase dessa Copa podemos fazer jogo perfeito ante a um africano Marrocos que distribui parte dos melhores jogadores das ligas europeias, mas tropeçar ante à fragilidade de um Haiti, por exemplo, e ter que decidir a primeira colocação da chave frente a uma Escócia cujo futebol foi manchete na semana recente, pelo fervor dos Celtics e sua torcida insana.

O futebol não é mais o mesmo e, sim, podemos classificá-lo, ainda, como arte. Mas, uma arte contemporânea cujo belo estético não está resumido à habilidade no jogo das pernas para conduzir ou lançar a bola, pois isso ficou no passado. A arte do futebol, hoje, é análoga à mesma arte do boxe ou do MMA, ou seja, na suficiência que uma equipe tem de dominar a outra de forma rápida, certeira, com um único golpe. É assim que vemos semi-finais da Champions tendo jogos com 9 gols em 90 minutos. Finalizar o adversário sem necessariamente feri-lo fisicamente, eis a arte do futebol. Temos o 7x1 como prova disso, pois fomos finalizados e saímos feridos tão somente moralmente.

Cobremos Ancelotti por uma seleção com essa filosofia. E, sim, ele pode e deve ser cobrado. E em Português-BR claro. E o gato desceu do telhado.

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FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA

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GÓRPI

O portal Assiscity ficou mais de um dia inacessível daqui, da Paraíba. Uma ação hacker invadiu o sistema do site. A situação foi normalizada no domingo, 17 de maio. Minha amiga Bruna Fernandes passando perrengue por uma ação criminosa e anti-democrática. E Assiscity consolidado com o exercício de  jornalismo por jornalistas, sem maquiagem.


RESGATE

Meu amigo Toninho Scaramboni fará mais uma promoção nas instalações de O Porão, no dia 11 de julho. Coincidirá com meu retorno a Assis, para uma sequência de exames médicos de rotina. Presença garantida.

RESGATE II

Toninho e eu trabalhamos juntos na Sistema Cultura de Comunicação, tanto no AM quanto no FM. Curta experiência no jornalismo, mas ampla vivência no FM, com as inesuqecíveis Tardes do Recadinho, Caça ao X, Gincana de Verão, o agora resgatado Rock Cidade e o inesquecível Rádio Criança, quando éramos Tio Claudinho, na sonplastia, e Tio Toninho, na locução.


Jornalista, historiador e professor universitário, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.