quarta-feira, 18 de março de 2026

Paixão pelo rádio e o lidar com o luto: uma forma de reparação e gatilhos da infância

 Cláudio Messias*

Sou apaixonado pelo meio de comunicação rádio. E isso é ampla e fartamente conhecido. Uma paixão que advém da primeira infância, no interior de São Paulo, e prevalece, no meu fazer acadêmico, aqui no brejo da Paraíba.

Admito meu lado analógico, que me faz ter uma mesa de trabalho que reúne desktop dos mais avançados e um sistema de amplificação e equalização dos mais antigos (receiver Gradiente STR-800 e equalizador Tarkus TE-2102), além de um toca-discos Gradiente TD-34. No acervo, uma discoteca com mais de 300 LPs, ou seja, vinis, a maior parte tendo pertencido à Campina FM, emissora de rádio daqui de Campina Grande que se desfez dessas joias sob mediação de seo Batista, proprietário do boteco de melhores prosas no centro antigo dessa que é a Rainha da Borborema.

Mesa de trabalho aqui em casa, em Campina Grande

Quando me perguntam qual meu sonho (ainda) não realizado aos 56 anos de vida e três procedimentos cirúrgicos (entre eles 4 ligações de safena e uma mamária), respondo na lata: ter um pick up Technics igual ao que a Cultura 2 FM tinha quando lá fui disc jockey folguista. E a emissora da família Camargo, em Assis, ainda esnobava, pois tinha 2 Technics no estúdio do FM, outros dois no estúdio do AM, um no estúdio de gravação e, pasmem, mais um na discoteca do FM. 

Restam poucos Technics e quem os tem, não vende. E se vende, coloca o valor emocional que mercado algum estabelece como parâmetro. Tem Technics no Mercado Livre ou na OLX? Tem. Usados? Sim. Confiáveis? Não. E a resposta vem de João, da Granson, ali na André Perine: toca-discos e demais equipamentos analógicos são como aquele carro antigo que só o dono sabe encontrar e reparar o defeito. Se vai comprar um Technics, portanto, conheça a pessoa que está vendendo, preferencialmente na sua cidade, ainda asssim correndo riscos, pois há peças que em defeito não podem mais ser repostas, por extinção.

Ser apaixonado por rádio remete a essas memórias e a esses esclarecimentos da vida. Investir 2 mil ou até 5 mil reais em um toca-discos da qualidade de um Technics pode levar à glória celeste de captação, em cápsula e agulha, de som da mais alta qualidade, desde que haja preservação do vinil executado, ao, em sentido contrário, inferno de surgimento de um defeito que o fará circular por oficinas e assistências técnicas que logo de cara dirão não compensar o serviço que, caro, ainda é incerto, dada a já citada extinção de peças de reposição.

Sei de um caso, aqui, em que o amigo paraibano comprou uma carcaça de Technics por quase mil reais no Mercado Livre para retirar uma peça das engrenagens internas que fazem a ligação do prato giratório com o braço de base de peso, cápsula e agulha. Doeu no coração ver aquele Technics que era só um cadáver, em uma cena meio filme de Frankeinstein, com a retirada de uma peça para dar de volta a vida a outro aparelho que nem era do mesmo modelo. Sim, a reparação deu certo, mas, a peça foi retirada de um cadáver, de um aparelho sem vida, e assim estava a peça reparada, que parou de viver. O defeito exatamente igual na engrenagem, de plástico ressecado, continuou e o Technics morto continua lá na sala, uma peça de enfeite, linda, maravilhosa, mas sem condição alguma de resgatar o som autêntico que só um vinil bem preservado proporciona.

Voltando ao rádio, comecei minha aventura nesse meio trabalhando, em 1985. Era aprendiz de técnica de externas da equipe de esporte de Chico de Assis, na Cultura AM. De imediato, Eduardo Camargo, o Camarguinho, já me adotou para o FM, escalando para abrir a Cultura 2 FM às 6h00. Era sonoplasta, colocando no ar programa gravado no dia anteiror por Chico de Assis chamado Sertanejo Classe A. Eu, um rockeiro adepto do heavy metal de Iron Maiden, ACDC, Whitesnake, Judas Priest, The Cult, Van Halen, Girlschool pasava duas horas, todas as manhãs, tocando moda de viola que, reconheço, preteria bastante ali, nos meus 15 anos de idade.

Em um ano minha vida profissional, e também a pessoal, mudou radicalmente. De técnico de som folguista passei a DJ de programas como Tarde do Recadinho, aos domingos, Gincana de Verão, aos sábados de veraneio, Caça ao X, nos sábados de férias escolares de início e meio de ano, e Rádio Criança, nas manhãs de domingo. Na semana, apesar de ter recebido a opção por adbicar de continuar abrindo o FM às 6h00, continuei, saindo do estúdio às 8h00 e indo para a redação do jornalismo. Ali, mais uma passagem meteórica, poos Valdir Pichelli, que havia pedido para eu ser aproveitado na redação, pelo bom texto, teve uma discussão político-ideológica com a família Carmargo e, em fevereiro de 1987, fui chamado à direção e soube que o editor estava demitido;demissionário e eu teria de fechar a edição do Cultura Notícias que ia ao ar das 12h00 às 12h45 no AM.

Com meus pais recém divorciados a família rádio me adotou. Tenho gênio forte, persoanlidade, reconheço, difícil, mas de uma coisa não abro mão compromisso com o que faço e com a ética. Claro, hoje, com doutorado e orientando estudantes em iniciação científica em uma universidade federal, minha acepção sobre ética é estruturada, fundamentada, porém jamais me envergonho ou arrependo de uma decisão sequer tomada em meus mais de 25 anos percorrendo redações das mais diversas. Quando decidi, editorialmente, era porque precisava prevalecer a concreta relação de verdade entre o fato coberto me a notícia a ser veiculada. Qualquer coisa fora disso ou eu não cumpriria a pauta ou se cumprisse, a faria da forma como entendia como eticamente correta, e não de acordo com era determinado que eu fizesse. Minha carteira de trabalho, disponível no meu currículo lattes, mostra o número de troca de empregos que protagonizei em quase 3 décadas de redações.

Aquele jovem meio sem rumo com o impacto de um divórcio dos pais foi acolhido no rádio. Minha irmã, Marcilene, que é um ano mais nova, era recepcionista na rádio e por vezes chorou comigo, em casa, quando chegávamos e não tínhamos a nossa mãe, como sempre tivemos. Os finais de semana eram preenchidos cada um à sua forma. Eu aumentei minha carga de trabalho na rádio ao ponto de sair da redação sábado meiio-dia, ser sonopçlasta folguista de Isaías Gomes, o Gordo, no Seertanejo Bom Demais, de 17h a 19h, ficar perambulando pelos arredores da rádio, na Capitão Francisco Garcia, até 23h, quando fazia o programado gravado por Luiz Luz chamado Culturas By Night, até 1h, quando a rádio era fechada.

Eu dormia num sofá que tinha no estúdio do FM, de maneira a conseguir repousar mais (se fosse casa perderia o tempo de sono entre a rádio e minha casa na vila Santa Cecília, e vice-versa) e abrir a rádio às 6h. Dali emendava fazendo o Rádio Criança, de 9h a meio-dia. E então ia pra casa, almoçar. E ainda assim rápido, pois 14h começava a Tarde do Recadinho e eu ia até 17h. Dali em diante assumia Sidnei Santos, que tocava horário até 23h quando, claro, eu retomava o comando da mesa de som e levava o Cultura By Night até 1h. Na segunda a rotina recomeçava, com 6h fazendo sonoplastia do Sertanejo Classe A, com Chicçao, depois indo para a redação.

Os fundamentos no resgate ao passado

Quando fiz mestrado e doutorado na Escolha de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, de 2009 a 2017, tive a oportunidade de estudar com professores que eram (e continuam sendo) os principais referenciais teóricos dos estudos das Ciências da Comunicação no Brasil, na América Latina e, em  muotos casos, no mundo. Mas foi no doutorado, pagando disciplina no CRP (Departamento de Relações Públicas, Publicidade e Propaganda), que fui provocado na essência da minha alma. O conteúdo programático abordava os estudos de recepção na perspectiva da persuasão, mas numa abordagem que hoje, 10 anos depois da demanda, ainda considero muito louco, uma piração: neurociência e análises de processos comunicacionais em que partes enunciadoras, de mediação e recepção, logo, ressgnificação de sentidos, são observadas em metanálise. Aquilo mudou radicalmente minha forma de olher e compreender o sujeito social audiência para quem em escrevi, gravei e gerei conteúdos por décadas.

No âmbito da neurociência tivemos, na aulas da pós-graduação, semanais, todas as terças, acessos a cópias em xerox de textos antigos, das décadas da metade do século passado, escritas em inglês por Melanie Klein. Um texto ou outro estava em espanhol e ajudava um pouco mais na compreensão de um doutorando que só estudou em escolas e instituições de ensino superior públicas e não tinha domínio sobre uma segunda língua, estrangeira. Por vezes eu precisava superar essa angústia, qual seja, estar em uma sala composta por laureados, que falavam não só uma mas duas, três outras línguas estrangeiras, chwegando, obviamente, a um nível de compreensão que eu, por arcabouço, não tinha.

Um excerto de texto de Melanie Klein que, confesso, me pegou é ´´Amor, culpa e reparação´´, que lá adiante vai trazer um texto da autora de 1940 (sim, em plena Segunda Guerra), intitulado ´´O luto e sua relação com os estados maníacos-depressivos´´. O ano era 2016, meus pais estava vivos e nem imaginávamos, todos, que dali exatos 5 anos, na pandemia de Covid-19, primeiro iria ele, em 6 de janeiro, e depois ela, em 29 de janeiro. Sim, em 23 dias perdi pai e pandemia. Meu pai pior sequelas finais de miastenia gravis pseudo-paralítica e minha mãe por Covid, provavelmente transmitida do velório do ex-marido que ela fez questão, contra minha decisão, de ir.

A dor desse episódio é que sepultei meu pai dia 7 de janeiro, em Martinópolis-SP. Há 3 salas de velório e, sounbe na época, poucas vezes as 3 foram usadas simultaneamente, pois é uma cidade pequena. Pois naquelas condições de confinamento só podia haver 20 pessoas em velório e como eram 3, circularam 60 pessoas, o que, claro, é mentira, pois não tinha ninguém contando. E foi ali que dona Luzia contrariu o vírus, pois católica que era, foi a cada um dos defuntos, colocou mão sobre mão, fez o sinal da cruz e, caramba, cumprimentou mão a mão os demais enlutados das outras família.

Eu estava na cpoordenação de graduação de meu curso na universidade aqui em Campina Grande e quando fui passar as festas de fim de ano com a família em Assis já comprei passagem de eretorno para 11 de janeiro de 2021, pois estpávamos em trabalho e aulas remotas. Minha mãe almoçou conosco, em casa, no dia 9 de janeiro, um domingo, ou seja, dois dias depois de sepultarmos meu pais. Estava com nariz escorrendo e um pouco de tosse, mas essa sempre foi a marca registrada dela. Mudava a fase da lua e lá estava dona Luzia tossindo, espirrando... Segundo ela, era por causa do aparelho de ar condicionado que eu havia dado a ela de presente de Natal e que fora instalado na sexta-feira após o sepultamento de meu pai (ela se perdeu no ajuste da temperatura do controle remoto e entendemos como normal ter coriza e tosse por passar frio em noite de verão de 30 graus)

Meu voo para Campina Grande sairia de Presidente Prudente às 5h da terça, dia 11. Na segunda à noite, claro, fui à casa de minha mãe despedir, pois a pandemia estava matando assustadoramente em Manaus e, sabíamos, tudo fecharia de novo, como realmente veio a fechar semanas depois. Chegeu à casa dela com Rozana, esposa, e vejo uma dona Luzia abatida, de máscara e recusando abrir o portão, temendo estar com Covid. Renunciei àquilo, pedi que abrisse, pois tanto ela quanto eu, que estaria do outro lado do país, poderíamos contrar o vírus, entrar para a estatística nefasta que coincide com o governo mais assassino que esse país já teve, e depois lamentar não ter dado o último abraço.

Pois abracei a minha mãe, beijei, senti que ela estava febril e suando, preocupei, mas tive que abstrair, pois havia poucos voos semanais de Prudente a Recife e depois Campina Grande e cancelar aaquele voo significaria não saber exatamente quando iria para a universidade, sabendo dos compromissos que esperavam. Fui. Em síntese, na mesma semana ela foi internada por Rozana, a esposa, que se revezou com meu irmão mais velho, Claudinei, no acompanhamento no quarto do HMA. Portadora de comorbidades, teve o quarro agravado, foi do quarto para o semi-intensivo, de lá para  a UTI, depois foi intubada e, na noite de 28 para 29 de janeiro, teve uma parada cardiorespiratória na UTI.

Sobre luto e reparação

Comecei esse texto falando sobre minha paixão pelo rádio, pelo analógico, lá na infância. E, criança, ouvia rádio através de minha mãe, que era lavadeira de todas as manhãs recebia as trouxas de roupas de famílias mais ricas para lavar. Nós no terreiro, no quintal, brincando antes de ir para a escola, e minha mãe lavando roupa em fogão feito com bloco e alimentado por pó-de-serra que buscávamos em uma madeireira ali perto, nas proximidades do Tênis Clue, em Assis. Minha mãe cantarolava músicas como Estúpido Cupido, Não se Vá, O Portão, Café da Manhã, mas eu ficava encantado mesmo era com a locução de Lourival Servilha, Luiz Luz, Bentinho, Márcia Giananzzi, Valfrido Nigro, Osvaldo Percone, Chico de Assis, as narrações esportivas de Homero Rabelo.

Um primo paulistano, Marco Antônio, deu de presente um radinho portátil de bolso de cor amarela, marca Prince, modelo Solid State sustentado por pilhas pequenas. Naquela época o espaço não estava poluído por frequências de rádios piratas nem da clandestinidade e as emissoras mantinham seus transmissores regulados profissionalmente. Dessa maneira, com o cair do sol, era possível ouvir as rádio Gaúcha, do Sul, Tupi, do Rio e principalmente a Rádio Bandeirantes, de São Paulo. A Globo chegava fraca. Eu tinha 6 para 7 anos e ouvia aquele radinho todas as noites. As pilhas duravam semanas e até mais de mês. Por vezes levei bronca de meu pai porque por mais baixo que fosse o volume, incomodava, uma vez que doríamos pos três irmas no mesmo único quarto de uma casa de madeira que só tinha quarto, sala, uma cozinha pequena e, sem banhjeiro, uma privada externa.

Modelo similar ao Prince Solid state que ganhei em 1976

Minha mãe comprova pilhas grandes para o Motorádio que ela tinha e as pequenas pra mim, para abastecer o radinho. E me viu começar a torcer para o Corinthians em 1977, no histórico título contra a Ponte Preta, aque ouvi na narração de Fiori Giglioti, na rádio Bandeirantes, mas que os vizinhos todos assistiram na narração de Luciano do Vale, pela Rede Globo. Tonho Nogueira, dono da casa, estava ouvindo pela Jovem Pan, por ser fã de José Silvério. Mas eu resisti à imagem da TV (a sala da casa estava lotada de adultos ou jovens mais velhos que eu) e fiquei fiel ao instável sinal da transmissão do rádio. Sempre fui um apaixonado pelas transmissões da rádio Bandeirantes, desde o jingle de abertura das transmissões esportivas até or jargões de Fiori Giglioti, pra mim o melhor narrador esportivo de todos os tempos, ao lado de José Silvério, Osmar Santos e Osvaldo Maciel.

Dona Luzia, portanto, foi quem me iniciou no rádio. Porque precisamos separar as relações de emprego e trabalho em rádio, como digo a meus alunos de Comunicação Social na universidade, valendo para o mundo do trabalho como um todo (emprego é a vaga que te dão para exercer determinada função, com remuneração previamente estabelecida, enquanto trabalho é o que você, na sua aptidão e uso da estética do sensível, em partilha, faz, tornando-o/a diferente da outra pessoa que ocupa a mesma vaga de emprego que tu). Se, pois, fui para o rádio, fui trabalhar lá, com uma carga de amor pelo fazer cotidiano, herança de uma iniciação que tive em casa, no lar, na primeira infância, naquela fase da vida quer Vygosty definiu como zona de desenvolvimento proximal.

Recordando nesse longo e, reconheço, cansativo texto sobre o rádio e a relação com minha mãe, deparo com dois lutos. O dela, já narrado, mas outro luto atribuído ao rádio desde o advento do cinema falado, depois da televisão, da internet, dos aplicativos de plataformas digitais e, agora, de uso da inteligência arrtificial generativa. O conceito de transmidiação atenua esse discurso fatalista de que o rádio já está praticamente morto, mas precisaremos falar  mais sobre isso nos congressos de comunicação como os da Intercom, que é a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.

É na neurociência, ou nos postulados de Melanie Klein, que vejo um Cláudio Messias com recém-completados 56 anos de idade realizado na transição profissional entre comunicador e professor formador de comunicadores e comunicadoras, porém com fantasmas advindos da infância. E encontro na acepção da autora sobre reparação para compreender que há, sim, os gatilhos emocionais aprisionados a partir de vivências boas ou ruins na primeira infância, mas, principalmente uma relação entre mania e depressão que ecoa nos tempos atuais, fugindo do controle.

A não superação de lutos remete a uma contextualização da reparação que, já na infância, conduz o sujeito ao desenvolvimento espontâneo de habilidades que podem estar,  enquanto prática, no desenvolvimento de artes e, na perspectiva da empatia, de reconhecimento às próprias manifestações impensadas, agressivas, para compensar o erro reconhecido como forma de atenuar o impacto inicial.

Quando criança eu não tinha noção sobre o quão fatalizado era o destino do rádio. Mas chegando nele, trabalhando, logo aos 15 anos, deparei com essa fase de narrativas, ouvindo de profissionais de quem era fã, antes, que deveria mudar de profissão, dada a falta de expectativas. Hoje, sei, ali estavam pessoas, radialistas, que não protagonizaram a reparação. Foram crianças, tiveram sonhos, acumularam gatilhos socialmente normais, mas transformaram as prospecções em comportamentos maníacos-depressivos.

Depois que saí do rádio e fui para o impresso protagonizei o testemunho de iguais narrativas de fatalização. Se o rádio tinha acabado, o jornal estava na porta do cemitério. Profissionais sempre mais velhos, de vanguarda, prenunciando um caos que, sim, era mais factível do que o fim do rádio. Igual ausência de reparação, fazendo prevalecer o âmbito maníaco-depressivo de quem não via outra solução para o meio impress e, pior, não se esforçava minimamente para colaborar com novas formas de linguagens que permitissem, empaticamente, a transição do jornalismo impresso para o jornalismo online.

Se essa, pois, é uma análise, à luz de Melanie Klein, sobre a necessidade de reparação das relações, minhas, com o rádio desde a infância, como dizer de minha relação minha mãe desde a zona de desenvolvimento proximal? Em reparação, o lado maníaco-depressivo pode ser mais controlado, pois o  meio rádio está aindo, sendo reconfigurado, sobrevivendo em forma de rádio em dial, web rádio, rádio online e mesmo na transmidiação com telas como transmissões via Youtube, por exemplo.

Mas a aproximação e o distanciamento, meus, em relação ao rádio, gerando reparação, não conjugam com igual relação que tive com minha mãe. O luto tem uma relação com o estado maníaco-depressivo, atual, que, vejo, explica comportamentos, meus, acumulados nesses últimos 5 anos desde a morte dela, sem haver, ainda, espaço de reparação. Não sepultei minha mãe, pois estava em Campina Grande quando de sua morte, 23 dias após o sepultamento de meu pai, que protagonizei presencialmente.

Minha forma de lidar com a morte, nesses últimos 5 carnavais, mudou. Se antes eu sofria por não estar na minha cidade quando do falecimento de um/a amigo/a, ultimamente, mesmo estando lá, não tenho ido a velórios, apenas a sepultamenteos, e ainda assim na etapa em que o corpo é levado para o cemitério. Se ha a última abertura, procuro não ver pela última vez a pessoa.

Se fosse buscar filosoficamente um parâmetro para justificar isso tudo, diria que Nietzche falaria aos meus ouvidos sobre uma ausência de vontade de potência. Não de negação à vida como caminho ao suicídio, mas, simplesmente, por não conseguir fazer a gestão das formas de reparação a que se refere Melanie Klein. 

Há, por fim, um término melancólico em forma de luto. Meu ego, sei, desenvolveu mecanismo de defesa advindos lá de uma infância conturbada em família, com uma mescla de mais frustrações do que realizações e, especialmente, por uma relação familiar de mais vínculo, logo, proteção de minha mãe, do que de meu pai. E quis o destino que eu o sepultasse (ele faleceu em meus braços quando o levada ao hospital), mas não estivesse no sepultamento de minha mãe nos protocolos do auge da pandemia de Covid-19.

Desde então, nesses 5 anos, vejo distanciados os parâmetros que sempre tive sobre perspectivas de longevidade. Meio que em diálogo com Schopenhauer tento prospectar um eterno retorno que remeta, na reparação, corrigir ou alterar anseios, frustrações e êxitos do passado da infância, justificando uma condição futura, de consciência, em paz com o que espero de um fim. Mas o que vejo, factível, é, no âmbito do eterno retorno, eu repetindo a ausência de vontade de potência de minha mãe nos meses que antecederam não sua morte, mas o próprio início da pandemia que a matou. Viúva de meu padrasto, mas sentiu pesadamente a morte de seu irmão, meu tio Luiz, e fatalizava ser suficiente tão somente viver até os 75 anos, idade da morte dele. Pois ela morreu menos de duas semanas antes de completar 75 anos.

Se por um lado vejo reparação, por outro a descarto, quando me vejo num comportamento maníaco-depressivo de viver isoladamente, distanciar de meus sentimentos cotidianos triviais, como na relação com a família e amigos mais próximos. Os lados profissional e de vida pessoal parecem misturar-se, chegando ao ponto de eu, hoje, não saber prospectar quem vai terminar primeiro, sem eu conseguir reverter isso em reparação: o rádio ou eu.

* Jornalista e historiador, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e docente em Comunicação Social em uma Instituição Federal de Ensino Superior em Campina Grande, na Paraíba.



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