Cláudio Messias*
Sempre recordo, aqui, o que minha saudosa mãe Luzia dizia quando moramos juntos (ela separou-se de meu pai quando eu tinha 16 anos e com ela fui morar dos 21 aos 24 anos, quando casei) no Parue das Acácias, vulgo Cohab I. Ela filosofava que damos conta da maturidade quando vemos pares de geração ou pessoas, sejam elas amigos ou parentes, com idade pouco mais avançada partido da vida para a morte.
Quando essas pessoas que conhecemos morrem temos de entender como parte normal do desenvolvimento humano e da própria natureza, pois nós, seres vivos, nascemos, desenvolvemos e partimos, por mais que isso represente dor pela partida, precoce ou não. Inevitável, aqui, citar Melanie Klein, a psicanalista que presentou o mundo com suas obras na metade do século passado. Sim, uma mulher que foi tão ou. ais lida que Freud. Esse que vos escreve a prefere.
Segundo Melanie Klein, o luto nos remete ao início, à nossa origem, quando ainda bebês administramos a dualidade do bom e do mau. A autonomia que desenvolvemos da mãe geradora encaixa nesse antagonismo. Ela é boa por nos acolher da geração até a primeira infância, e má por distanciar-se para a necessária fase de encararmos o mundo em busca da sobrevivência. É nessa fase da vida que conhecemos o luto, e o vemos como mau. Um bicho de estimação que morre, um parente mais velho. Essa perda é negativa e nem sempre superada, justamente por não estarmos, ainda, congnitivamente entendendo o funcionamento do mundo.
Finalizando essa analogia à psicanalista, as três etapas necessárias para superar o luto, segundo Melanie Klein, perpassam por restabelecer o bom na figura de quem morreu, reduzindo os aspectos negativos advindos da dor desse episódio, e, por conseguinte, baixar para o mínimo possível o nível dos sentimentos de culpa que surgem nesses momentos de luto, ou seja, deixar de lado o epitáfio que nos faz lamentar o que poderíamos ter feito a mais com a pessoa ou o ser que foi definitivamente embora daqui, e, por fim, dar literalmente vida ao objeto interno que te relaciona com a totalidade do evento da morte, fazendo separar o que ficou de boas ou más lembranças e a certeza de que a sua própria vida vai continuar e precisa ser dirigida pelo bom e não pelo mau decorrente do que ficou.
Escrevi isso, primeiro, porque se você, raro e exceto leitor, visualizar o histórico recente de minhas poucas postagens nos últimos anos, a morte tem sido pauta prevalente aqui. E a cada vez que escrevo um obituário, não tem jeito, recordo das falas de minha mãe que cito no primeiro parágrafo, acima.
Hoje recordo das vezes em que tive contato com Rick, cantor que fez dupla com Renner na música sertaneja e que de forma trágica nos deixou na segunda-feira, 21. Volto no tempo, lá no ano de 1993, quando de uma de minhas muitas passagens pela Rádio Cultura de Assis AM/FM. Sim, estando nas engrenagens da então denominada indústria cultural, no meio rádio, tínhamos oportunidade de, do nada, depararmos com cantores e cantoras que, enviados pelas gravadoras, divulgavam seus discos (LPs ou simplesmente vinis) e, por conseguintes, fitas k-7.
Naquele ano o sonoplasta Luciano Caetano passou pela redação da Cultura e proseamos com Celsinho Magui, discotecário do AM. Seria preparada, em conjunto, uma promoção de divulgação do disco "Rick & Renner, Volume 1". A música carro-chefe era "Preciso te encontrar"
e foi o primeiro sucesso da dupla, diferente do que a Rede Globo tem insinuado nessa semana nas reportagens sobre a morte do cantor (a emissora cita "Baby" como o primeiro sucesso porque ignorou Rick & Renner em seu início e só deu vitrine quando a dupla disparou nas paradas alguns anos depois).
Decidida a promoção, Luciano Caetano manteve contato com uma pessoa que era amiga de Hamílton, empresário de duplas sertanejas como João Paulo e Daniel (já o citei em outras postagens aqui). Dada a abrangência regional da Cultura AM, que tinha entre seus locutores ninguém menos que Bentinho, a gravadora Warner aceitou dar uma bicicleta para sorteio. Assim, ouvintes mandariam uma carta para rádio dizendo qual música de Rick & Renner mais gostavam. Claro, "Preciso te encontrar" foi a mais citada, ficando à frente de "Você decide" e "Preciso dizer que tem amo", outras faixas do disco que a gravadora pedia para promover.
A memória, hoje, impede que eu recorde quantas cartas os ouvintes enviaram para a Cultura AM. Lembro, apenas, que no dia do sorteio fomos à agência dos Correios e retiramos dezenas ou até centenas de correspondências, juntadas ao que ouvintes levaram presencialmente na emissora e deixaram com a recepcionista Arlete. O sorteio estava marcado para as 15h, em estúdio, com o locutor Mílton Lopes. Eu saía da rádio 13h, aós o encerramento do jornal Cultura Notícias, do qual era editor. Almoçava no restaurasnte do Kill, ao lado da entrada inferior do extinto Banespa, pela Floriano Peixoto, mas fui surpreendido por Luciano Caetano. Dali eu ia para a Gazeta do Vale, jornal do qual fui editor por quase 3 anos.
Ele me chamava para almoçar com Hamílton e Rick e Renner. Sim, a dupla foi a Assis sem avisar e protagonizaria o sorteio da bicicleta, ao vivo, no estúdio. Pois fomos almoçar no restaurante Dona Chica, hoje extinto, e proseamos livremente. Rick e Renner eram simples, ainda quase anônimos, não sendo reconhecidos por absolutamente ninguém naquele meio de tarde. Almoçamos com a liberdade dessa condição e identifiquei em Rick uma característica que já havia percebido em João Paulo, da dupla com Daniel, ambos empresariados por Hamílton: mais calado, observador e atento a tudo e todos, tanto na cidade quanto no restaurante e, depois, na rádio. Rick só falava se perguntado, ainda assim de forma curta e não arrogante. O falador era Renner.
Em 1995 eu já não estava mais na Cultura AM/FM nem na Gazeta do Vale. Estava sob contrato de prestação de serviços para a agência MCP, de meus amigos Emílson Cavalcanti e Fernando Pedroso, uma dos melhores empregos que já tive, apesar de curto. Fui escolhido por diretores da VIII Feira Industrial, Comercial e Agropecuária de Assis e Região (Ficar) para a função de assessor de imprensa. E nas reuniões para contratação da grade de show musicais da feira, mediada pelo empresário artístico Lilo, foram colocados à mesa os portifólios de duplas novas, que preenchem dias de pouco público como as segundas e as quintas-feiras. E lá estava o portifólio de Rick & Renner. Célia Mossa, diretora cultural da feira e que citou meu nome para ser assessor de imprensa naquela edição do evento, não era a mais fã de todos de música sertaneja e rejeitou a indicação de Rick e Renner. Pedi um aparte e recordei sobre a promoção de sorteio de bicicleta na Cultura AM, um ano e meio antes.
A feira foi realizada e até hoje não há dados que contraponham que aquela VIII Ficar tenha sido a edição de maior público de sua história. Só o show de João Paulo & Daniel, a principal e mais cara atração (custou R$ 80 mil na época, valor cobrado por outras duplas como Leandro e Leonardo, Chitãozinho e Xororó e Zezé di Camargo e Luciano), reuniu 35 mil pagantes. Sim, na época pagava-se R$ 2 para entrar na feira e nesse dia do show de João Paulo & Daniel houve a identificação de falsificação "caseira" de ingresso que em outra ocasião eu relato aqui.
Mas a estrutura de palco de João Paulo & Daniel, cujo sucesso arrebatador nas rádios era "Estou apaixonado", foi aproveitada no parque de exposições "Jorge Alves de Oliveira". E o mesmo palco foi utilizado para o show de Rick & Renner, com baixíssima adesão de público, antes da dupla principal. Creio que esteja claro que Rick & Renner nasceram pra música apadrinhados por João Paulo & Daniel, tendo como mediador o mesmo emnpresário Hamílton.
Hoje, sabe-se, Rick compôs sucessos gravados por João Paulo & Daniel antes mesmo de formar dupla com Renner. Entre os exemplos estão, naquele mesmo ano de 1993, "Só dá você em minha vida" e, naquele ano da VIII Ficar, ou seja, 1995, "Hoje eu sei".
Também hoje, com as big techs ocupando a hegemonia que outrora foi de emissoras de rádio e TV e as plataformas digitais sendo o espaço de divulgação e consagração de artistas da música, tem sido difícil demais mensurar o que seja ou o que vá ser sucesso para o público. Nesse cenário de complexidade e diversidade não surpreende ler muitos comentários de usuários das redes sociais que dizem nunca ter ouvido falar em Rick quando de sua morte.
O cantor e compositor que nas próximas horas será sepultado construiu um legado discreto. Quando faço esse retrospecto sobre ele recordo, é inedivável, aquele homem de estatura baixa, negro, com olhar fugitivo, calado quando necessário e extremamente observador. Pouco se sabe sobre sua vida pessoal, somente agora revelada com abundância. Casado com a mesma primeira esposa, pai de dois filhos e com patrimônio tanto no Brasil como na Flórida, nos EUA, ele nunca fez questão de expor-se aos holofotes. Nem mesmo os motivos de suas duas separações da dupla com Renner ele esclareceu, mesmo sendo de conhecimento público o perfil de seu companheiro de dupla.
Depois de 1993 e 1995 reencontrei Rick em São Paulo, em 2002, por ocasião de uma convenção, em São Paulo, da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), ainda assim confirmando esse perfil discreto a que me refiro. Lá ele não deu show, mas, sim, fez uma simples apresentação, em voz e violão. Fui, como assessor de imprensa convidado para o evento, aos bastidores, o reencontrei, dialogamos de forma muito rápida, pois ele sairia para uma apresentação no Sul do país, a mesma região onde, essa semana, ele despediu-se da vida.
*Professor no ensino superior, é historiador, jornalista, mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).