Cláudio Messias*
Logo menos o estádio Azteca, que o neocapitalismo agora denomina Arena Banorte, honrando a rede bancária mexicana que patrocinou parte da reforma das instalações, será palco do jogo México x África do Sul. Chegou a hora de dar início à mais mercenária, preconceituosa e nada futebolística edição do mais importante torneio de seleções do planeta.E, não, o México não tem culpa alguma pela incompetência de gestão da Fifa e pela arrogância histórica de seu vizinho de fronteira ao Norte.
Estive, com a esposa, na Cidade do México em dois anos consecutivos, 2024 e 2025, para compromissos acadėmicos de pesquisa com a Unam (Universidade Nacional Autônoma do México). Em 2024 o avião da Latam fez trajeto de aterrissagem permitindo visualizar o Azteca. Claro, eu queria ver um jogo lá. Mas logo que cheguei fui informado que os jogos do América, clube que detém os direitos de mando, estavam sendo realizados no estádio do Cruz Azul. O motivo: reforma para a Copa.
Não fui ao Azteca em 2024. Mas em novembro do ano passado, fui. Hospedado em San Ángel, bairro que fica em uma privilegiada região comercial da capital mexicana, perto de quase tudo, principalmente da Unam, enfiei a cara e fui. Esposa ficou com compromissos de pós-doutorado na universidade. Não foi fácil, apesar de a cidade ter, a meu ver, um seguro e organizado sistema de transporte por trilhos ou asfalto.
Peguei o metrobús, sistema de transporte confortável e rápido que se desloca por corredores em avenidas congestionadas e que custa o equivalente a 3 reais. Desci na estação final e, de lá, segui de uber para o estádio, pagando o equivalente a 80 reais. Há muitos ônibus (clandestinos, na maioria) que fazem a linha dali até o Azteca, mas eu tinha notas de peso mexicano de valor alto (50 pesos, por exemplo) e os motoristas, que também são cobradores (eles são, geralmente, os donos do busão que dirigem) só aceitam dinheiro em espécie e na condição de voltar troco baixo em moedas. A corrida saía pelo equivalente a 3 reais.
O susto maior ficou com a velocidade que o uber deu na autovia até o Azteca. Cheguei a ver o velocímetro bater 140 km/h em um zigue-zague que me desconcentrou, por vezes, do proveitoso diálogo que mantinha com o condutor. Tudo, no entanto, ficou pra trás quando cheguei aos arredores do estádio, em obras. O monumento que, refleti, tinha muita história.
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| Vista das lojas que ficavam, em novembro de 2025, instaladas no estacionamento principal do Azteca |
Sou historiador de formação e recordo, sempre, das aulas de professor Ivan (Unesp/Assis, SP), que dedicou parte de sua via acadêmica a pesquisas presenciais na Mesopotâmia que, para os desavisados, é considerada o berço da humanidade na forma civilizada como concebemos. Ivan narrava suas experiências e dizia algo que eu achava e acho lindo: estar no local, sentir a energia e fazer uma viagem memorial ao passado, tentando conceber como pessoas estariam ali, onde ele estava, alguns milhares de anos atrás.
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| Na Cidade do México é comum haver conglomerados de pontos que vendem comida. Nesse, ao lado do Azteca, comi um burritos de carne de porco |
No Azteca e em outros locais do México, como nas pirâmides aztecas, fiz exatamente isso. Olhando aquele estádio todo cercado por tapumes, cru ainda, senti a energia de diversas formas. Observando trabalhadores, imaginei a construção inicial no final da década de 1960. Mirando o imponente estádio me vi circundado pelos privilegiados torcedores que viram a Seleção Brasileira tricampeã com Pelé, Tostão, Jairzinho, Gerson e demais. Respirando bem fundo, me vi testemunhando o gol argentino com o braço de Diego Armando Maradona, o maior e melhor jogador que vi, pela TV, nesses 56 anos de vida.
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| A questão geral ali, em novembro, era: essa obra ficaria pronta em 4 meses? E ficou. |
Mas nem todas as sensações foram boas lá, no Azteca. Sou filho do saudoso seo Messias e, como tal, não passo por lugar algum sem prosear. Parei o serviço de alguns operários que trabalhavam na rampa de concreto de acesso da estação de trem ao estádio. Salários atrasados, condições de trabalho visivelmente perigosas, sem EPI (equipamento de proteção individual), e um pessimismo que era compatível com a sensação que eu tinha: será que o estádio ficaria pronto?
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| Não é IA: eu realmente estive lá! |
Era novembro de 2025 e, quando estávamos lá na Cidade do México, saiu o anúncio do jogo inaugural daquele estádio Azteca, para março, contra Portugal. Confesso que eu olhava para o anúncio do jogo inaugural e mirava o estádio e pensava: não vai dar, não. O resto eu nem preciso contar, pois México x Portugal já jogaram, o estádio não estava totalmente pronto, mas, agora, para a Copa, está em condições de receber os jogos.
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| Exatamente ali dentro fizeram gols Pelé e Maradona |
No estacionamento do estádio ficam (ou ao menos ficavam) lojas que vendem materiais esportivos. Ali você encontra de camisas originais a camisas falsificadas. Mas tem uma loja oficial do América, clube que, repito, tem o mando de jogos no Azteca. Camisa do América eu já tinha, pois comprei em 2024, quando assistimos América 3x1 Santos pela Liga Mexicana. Eu queria, mesmo, uma camisa oficial da Seleção Mexicana, que nas lojas oficiais da Adidas (o América tem uma dessas lojas) custava o equivalente a 400 reais.
Comprei uma camisa, digamos, alternativa do México, por 200 reais. Mas, havia um problema ali. São 3 os modelos de camiseta oficial da Seleção Mexicana. A primeira camisa é verde, a segunda é preta e a terceira, ao menos em 2025, era marrom puxado para o dourado. A numeração mexicana de tamanho difere um pouco da brasileira. Se eu visto GG, tenho que comprar XG lá. E dos 3 modelos que citei, só uma tinha o tamanho XG: a verde. E, como todos sabem, corintiano não veste verde, jamais.
Mas, era comprar aquela camisa verde, ali na loja do Azteca, o que tem uma representação mais forte, a meu ver, ou pagar mais caro em outro lugar ou mesmo ter uma camisa com material inferior ao que estava nas minhas mãos. Respirei fundo, comprei a camisa, trouxe para o Brasil e ainda não usei. Ainda, pois logo mais, na abertura da Copa, usarei essa camiseta que, apesar de verde, é muito, mas muito linda. Os 3 modelos eram lindos, mas esse modelo da primeira camisa, com motivos aztecas, maias e demais povos originários mexicanos me pegou.
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| Coritiano jamais veste verde, até ir ao México, se apaixonar pelo país e seu povo e entender que exceções existem para separar passado, presente e futuro de decisões |
A Copa 2026, logo, pra mim é mexicana, pois mexicano me sinto desde 2024 e para lá quero, sempre, voltar. Quero, claro, voltar ao estádio Azteca, para ver jogo do América contra, preferencialmente, o Cruz Azul, esquadra para a qual decidi torcer em 2025, ou então contra o Pumas, clube mantido pela Unam e que disputa jogos no Estádio Olimpico, onde eu e esposa assistimos, ano passado, Cruz Azul x Tigres, pelas semifinais do campeonato mexicano, vencido pelo Toluca dias depois de retornarmos ao Brasil.
Meu palpite para hoje é México 2x1 África do Sul. Vitória mexicana mas com sabor, também, de comemoração de gol de nossos irmãos ancestrais sulafricanos.
*Professor universitário, jornalista e historiador, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.





