É de conhecimento que fui jornalista por mais de duas décadas e meia de meus 56 anos de idade, parte desse tempo no jornalismo esportivo. Comecei no rádio, em 1985, na reabertura da democracia no país e sei bem o que foi receber, na redação, os fiscais do Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações), nome bonito dado a censores.
Defendi, defendo e sempre defenderei a liberdade de expressão, ainda mais em tempos, pasmem, de reascenção do fascimo por todo o planeta em especial no seu berço de nascimento, a Europa. Mas, nunca é tarde para que os próprios comunicadores atualizem seus repertórios, entendam que audiência consome seus produtos informativos e, principalmente, através de quais plataformas isso ocorre.
Estamos na fase de mata da Copa de 2026 (mata-mata é para jogos de ida e volta). Quem perder volta pra casa e reorganiza o projetos para 2030, em outro torneio com mais de um país sede. É a hora do oito ou oitenta, ou seja, o jornalista esportivo aposta na seleção do país, no caso, o Brasil, ou seca. E é dessa polarização também das coberturas que saem conteúdos que, todos sabem, irritam.
Cito o exemplo da rádio TMC, que até ontem era Transamérica. Não são todos os profissionais, mas fica a impressão de que gestores da plataforma, talvez numa tentativa de transparecer uma imagética (e desnecessária) independência editorial, questionam a cada rodada a suficiência de Carlo Ancellotti no comando da seleção.
Na primeira fase da Copa a cobrança recaía sobre os principais nomes do elenco convocado para representar o Brasil. Queriam alguns da TMC ver se jogadores que brilhavam nas ligas europeias romperiam o rótulo de jogar pelo clube mas desaparecer na seleção. Pois todos fizeram sua parte na não muito sofrida liderança de grupo, incluindo o goleiro Allisson, um dos mais questionados.
Foi dessa mesma TMC que saiu a mais nojenta defesa de convocação de Neymar que, reitero aqui, eu também defendi e elogiei quando confirmada. A diferença é que qualquer um, mesmo não entendendo de futebol, sabe que Neymar não era, não é e não será, nessa Copa, esperança alguma de um reforço que levará à conquista do título. Poderá, sim, em um jogo, entrar e decidir nas penalidades nessa fase de mata. Mas, triste da seleção se depender de Neymar entrar para modificar um placar desfavorável. Não dá. É mais fácil Raphinha recuperar o ritmo após contusão muscular séria, assumir a responsabilidade e decidir do que Neymar entrar no segundo tempo e fazer o mesmo.
Só que Neymar fora dos planos é perseguição na mente de um comentarista chamado José Calil. O cara passou a primeira fase inteira não vendo futebol da seleção e apontando falhas e riscos. Procurando pelo em ovos. E sabe o que conseguiu? Me desanimar. Acompanho a equipe de esportes de Éder Luiz desde que protagonizou o projeto de rádio esportivo mais ousado que já vi nesse país. Quase 30 anos atrás ele e o tal Craque Neto, que ganhou esse pseudônimo na 100,1, ficaram alicerce de um trabalho que colocou na sacola as consagradas rádios Globo e Bandeirantes, na cidade de São Paulo.
O rádio FM está na profecia. Viria o fim da faixa AM e as emissoras migrariam obrigatoriamente para o FM. Nem todas tiveram fôlego. E foi assim que assistimos e estamos assistindo o fim de marcas como a Rádio Bandeirantes, agora tão somente Band FM, da própria rádio Globo, agora tão somente CBN e, a mais dolorida, a rádio Eldorado, que está sendo extinta pelo grupo Estado. A Transamérica, ao contrário, fortaleceu. Comprada por um mega investidor do mundo da comunicação, foi incorporada a outras empresas de faturamento estável. De Transamérica passou a TMC e ganhou o slogan "Transamérica agora é TMC; quem escuta, sabe".
De 2009 a 2017 fiz meu mestrado e meu doutorado em Ciências da Comunicação na USP e, como ia semanalmente à capital paulistana, passava minhas noite ou meus trajetos de ônibus e/ou metrô ouvindo rádio. Ainda dava para ouvir a Jovem Pan, em especial o Jornal da Manhã, logo cedo. E à noite eu intercalava ouvindo Alpha, a própria Jovem Pan, a Antena 1, todas com músicas, a projetos inovadores como o da Transamérica Pop, que já tinha o Papo de Craque Segunda Edição, assim como a CBN, e conheci frequências já disponíveis no Youtube como a 105 e a Estação, essa última reveladora, pra mim, de Benjamin Back e Mano, além de uma galera que também frequentava os microfones da FM do Alto da Lapa, na Cerro Corá.
Sim, subi o gato no telhado para chegar ao ponto de dizer que respeito o trabalho de Éder Luiz, a quem conheci em Marília no período em que trabalhei no Jornal da Manhã, de 1999 a 2003. Tive duas oportunidades de encontrá-lo em reuniões de imprensa, quando ele já estava envolvido em projetos com rádios da capital, como no caso da rádio Record. Um cara gente boa, boa praça, de uma empatia contagiante, mas, principalmente, muito, mas muito sério no fazer do mundo do trabalho da comunicação. Não por acaso subiu rapidamente para as transmissões da TV Record junto com Craque Neto, cobrindo Copa do Mundo, mas depois voltando, para a felicidade do meio rádio, para as sintonias de frequência modulada, mas já observando a ascenção do Youtube.
Éder Luiz está comandando a equipe TMC que cobre a seleção brasileira, por enquanto, em estádios dos EUA. Tem a sombra de Benja, mas todos sabem que o comando é de Éder, pois é dele que sai a comercialização da ampla maioria das cotas de patrocíniio que viabilizam à TMC comprar direitos de transmissão na primeira Copa da história em que a Fifa rifou a cobertura para o rádio (antes ela apenas concedia autorização para quem comprovasse ser profissionalmente capaz). De longe, é o melhor narrador do rádio esportivo do país, e faz tempo. Superou lendas como Oscar Ulisses, podado pela Globo/CBN já há algum tempo, e nomes que ele próprio levou para a Transamérica, como Oswaldo Maciel. Coincidindo, José Silvério também pendurou o microfone nesse tempo todo.
Lá, na Copa, está um time de profissionais da TMC que é de tirar o chapéu, à exceção de Calil, mas isso é uma particularidade minha, pois nunca concordei com a postura ofensiva, nada educada e arrogante dele na relação com ouvintes. No nosso meio da comunicação, ele é o cara que se acha. Sempre foi assim e, penso, não será agora, quando está prestes, pelo vejo, a cumprir sua última renovação contratual com a rádio do Alto da Lapa, que irá mudar ou filtrar a prepotência. Benja, qaue chegou e deu brilho ao Papo Segundo Tempo, até tenta dar o rítulo de melhor do Brasil a Calil, mas, todos sabem, é uma massagem de ego para preparar para a não rebnovação de vínculo que mais cedo ou mais tarde virá.
Marco Belo está com Leandro Boldakian nos EUA e os dois juntos são o que há de mais compromissado com a cobertura da Seleção. Os dois não caem nas baixarias que saem dos comentários de Calil ou da bancada no Brasil. Aliás, que tragédia é a bancada do Brasil quando tem o tal Farah, que tem a capascidade de interromper falas dos setoristas da seleção na Copa para perguntar o que comeram e quem pagou a conta, tipo de "brincadeira" que umdia, quando o rádio era aqui que sabemos, até permitia, mas que hoje faz ouvintes/telespectadores simplesmente mudarem a frequência. Eu sou um deles, pois tem dia que não dá, apesar de adorar e ser fã da mulher de luta Renatinha Saporito, um oásis no meio de uma homaiada que todos os dias bate o ponto na misoginia para com ela, em diversos aspectos.
Dentinho e Dodô são contratações recentes da TMC que somam ao que, penso, Éder Luiz e o próprio Benja projetam da rádio multiplataforma ideal que está sendo construída no imenso projeto iniciado em 2025. Equilibrados, entendedores de futebol por terem estado nos gramados dentro e fora do Brasil, têm cunhão para bater de frente com os jurássicos postulados dele, sempre, José Calil. O ápice disse foi a contestação, fundamentada, que deram para justificar que Neymar não deveria serr convocado para a Copa. Rendeu até reportagem na Folha e no UOL o posicionamento forte de Dodô, e é assim que tem de ser. A quem não entende, isso chama-se liberdade de expressão, mas sem simplesmente abrir o microfone e virar viúva de determinado jogador ou perseguidor de algum atleta. É argumento.
Somado a esse time todo chegou um comentarista de arbitratgem, na TMC, que me refez rever o conceito de aceitar, em transmissões de rádio ou TV, que haja quem faça análise da atuação de arbitragem. Me irritou e ainda irrita ver um Simon ou uma Renata Ruel abrindo o microfone, analisando o lance com ima de transmissão, falando o óbvio quando a imagem não contradiz, e na cara de pau mudando de opinião dizendo "ah, sim, foi falta sim, por esse ângulo" ou "não houve uso excessivo da força mas opa, por esse â ngulo, sim é falta para amarelo". Caramba, isso eu estou e mesmo quem entende quase nada de futebol também não precisa que alguém analise.
O rapaz Caravina (posso estar escrevendo errado os nomes de alguns desses profissionais, por apenas ouvir a pronúncia e não ter oportunidade de ver a descrição de suas identidades) é muito bom. Por mais de uma vez o vi discordar de membros da bancada por lances do Campeonato Brasileiro ou mesmo dessa Copa. E eu acahava que ele é ex-árbitro, até que dias atrás soube, pelo próprio, no ar, que fez curso de arbitragem, n~]ao exerceu a profissão, mas estudou profundamente o esporte. Não digo que tenha concordado com tudo o que ele já analisou, mas, reconheço, ele é um cara de respeito.
Sou atento aos comentários feitos no chat do Youtube do canal da TMC. E lá tenho visualizado opiniões similares à minha. Ou seja, um pessimismo escancarado com a nossa Seleção, em via contrária à onda de otimismo que tem se formado a cada jogo, principalmente depois de terminada a primeira fase. Há tentativas isoladas de Thomaz Rafael, ótimo, de fazer mediação nisso, mas o negativismo que vem de comentários nos micrfones da TMC nos EUA acaba por prevalecer.
Li, dia desses, um ouvinte comentando e questionando se a equipe TMC se deu conta de que a Seleçãio eliminada significa quase todos voltarem pra casa, se não for a totalidade, pois os demais jogos até a final podem ser transmitidos via tubão (quando narrador, comentarista e repórter estão em estúdio e narram ou comentam a partir do que está passando numa aparelho de TV). Aquele ouvinte estava tão indignado quanto eu com a narrativa de que ganhar por 3x0 do Haiti na primeira fase e da Escócia ainda mostrava uma Seleção devendo algo.
Nesse momento em que escrevo essas linhas a Bélgica, nossa algoz de 2018, está sendo eliminada por Senegal. E por muitos era considerada favorita para disputar ao menos uma das 5 primeiras colocações dessa Copa. Antes, Alemanha e Holanda também já haviam ido embora.
Vamos encarar a Noruega, de Haaland, e a imprensa esportiva calça a sandália do pessimismo batendo no fato de nunca termos vencido os fanáticos torcedores que remam tais quais os vickings. Quanto jogos foram? 4. Três vitórias deles e um empate. Como se isso tornasse a Noruega favorita de algo contra uma Seleção que, esqueçam a história, vem de 3 vitórias e um empate nessa Copa. Se eles têm Haaland, nós temos Vini Jr e Matheus Cunha, além da carta na manga chamada Endrick. E dá pra falar que teremos de quebrar um tabu no domingo? Ora, façam-me um favor.
Depois de terminada essa Copa teremos o cenário polarizado que também incide sobre o futebol. Se formos campeões, os secadores irão consagrar essa condição e entrarão para o ostracismo. Mas, se der algo errado, o que é perfeitamente normal em uma Copa com uma rodada a mais (o 16 avos, antes das oitavas) e passível de contundir mais jogadores ou mesmo esgotá-los mais cedo, crescerão os cronistas esporetivos do "eu disse, só não axcreditou quem não entende de futebol".
Eu entendo de futebol pra mim, ouso colocar alguma coisa aquie eum dis fui comentarista esportivo em rádio e TV a cabo de interior. Tenho minha base norterada pela ética, que diz que é preciso, acima de tudo, respeitar a vontade da audiê ncia. E, convenhamos, a audiência quer a Seleção vencendo jogo a jogo, atuando com espetáculo e fazendo para o gasto. Ou alguém discorda que nas Copas de 1994 e 2002 tivemos jogos e atuações amplamente questionáveis?
* Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP