Se aqui no blog eu já tenho baixa audiência dos meus raros e excetos leitores, quiçá hoje, agora, minutos após a Seleção Brasileira ter sido eliminada da Copa 2026 pela Noruega.
Os noruegueses jogadoram melhor que nós? Absolutamente, não. E você me pergunta: qual é o maior dos fundamentos do futebol? E temos, certamente, um consenso: o gol. E o placar mostra a Noruega marcando 2 gols e o Brasil balançando as redes apenas uma vez.
No fundamento básico do futebol a Noruega está nas oitavas de final por merecimento. Mas, na bola, no futebol, o Brasil foi mais efetivo. E isso leva a um resultado injusto? Claro que leva!
Não precisa ter os meus 56 anos de vida, metade dos quais atuando como jornalista, especialmente em coberturas de futebol, para saber que posse de bola não significa ter domínio do jogo. Cito o Corinthians de Tite, campeão mundial em 2012, como exemplo disso.
Tite tinha o método mola propulsora, depois adotado por seu auxiliar Carille, que também foi campeão brasileiro com o mesmo Corinthians anos depois. Deixe a posse de bola para seu adversário, dê a sensação falsa de que ele esteja te dominando e, certeiro, aplique o contra-ataque em bloco que será fatal, marcando seu gol.
Ancelotti, há pouco, fez isso. Ele deixou a Noruega ter posse de bola, e acionou a mola propulsora com Vini Jr e Matheus Cunha. Foi assim o lance da penalidade. A cobrança da penalidade é que foi equivocada. O filho do pai italiano covarde deu entrevista depois do jogo e disse que essa decisão sobre quem cobra penalidade é anterior, da comissão técnica. Logo, quem errou a cobrança não foi só quem chutou, mas quem decidiu quem deveria cobrar.
Antes do jogo fui questionado no X sobre minha expectativa pro jogo, e cravei: Brasil 4x1. Sabia, pois, que tomaríamos um gol, e que seria, óbvio, de Haaland. Mas eu apostava na Noruega que vi na primeira fase e na inventada, pela Fifa (pasmem), fase 16 avos. Ou seja, um time que perde o fôlego no segundo tempo, pressionada, e sempre depende de seu único jogador, a meu ver o bola de ouro de 2026.
Agora, com os nervos de todos aquecidos e o meu tranquilo, digo que errei. A Noruega teve posse de bola no primeiro tempo, mas o placar deveria ter terminado a favor do Brasil, pela penalidade desperdiçada. Alisson fez, sim, uma defesa decisiva na primeira etapa, mas nada comparado ao que seu companheiro de posição norueguês protagonizou, defendendo penalidade. E no segundo tempo os noruegueses colocaram o coelho na cartola. E o tiraram na hora certa.
Ancelotti voltou do intervalo com o mesmo time no segundo tempo. Bastaram 10 minutos para o italiano perceber que nada havia mudado. E, então, ele atendeu expectativas, inclusive a minha, de colocar Endrick. E o menino jogou em trio com Vini e Rayan. Em 10 minutos em campo criou 4 chances claras de gol, uma delasconsagrando o goleiro norueguês, que pode, com sobra, ser considerado o nome do jogo, à frente de Haaland.
Só que passados esses lances Ancelotti decidiu colocar Neymar em campo. E sacou Rayan. A meu ver, ali o projeto dele, que já não era sólido, desmoronou. Nada, mas ao mesmo tempo tudo contra Neymar. Basta ver o rendimento dele depois que entrou. Jogando pelo meio e dando assistências pelos lados. Avançar pelo meio, nada. Servir Vini e Endrick, nada. Ficamos, pois, com um jogador a menos nos últimos 15 minutos, fora os acréscimos.
Eu teria colocado Neymar no jogo? Teria, sim. E nas condições de estar perdendo por 1x0, acreditem. Mas, colocaria depois dos 40 minutos, contando com uma possível cobrança de penalidades, sabendo que tal qual no jogo contra o Japão faríamos gol no desespero dos minutos finais, inclusive nos acréscimos. Neymar faria um gol na decisão por penalidades, nem que perdêssemos por 4x1. O único gol do Brasil hoje justificaria minha posição.
Tenho intercalado ver jogos da Seleção, nessa Copa, por TMC (rádio), Globo e SBT (TV) e Cazé TV (Youtube). Hoje transitei por todas as plataformas, principalmente no pós-jogo. E a busca por culpados vai de Ancelotti à própria CBF e, pasmem, a jogadores pontuais. Coitado do Bruno Guimarães. Como se fazer o gol de pênalti garantisse a vitória da Seleção e a rendição da Noruega.
É fato, hoje, que quem está chorando são os milionários, sejam emergentes como Casemiro ou a Família Marinho. Para o brasileiro, Copa só tem sentido se o Brasil estiver no páreo. Nesse momento, 20h19, a Cazé tem 3,2 milhões assistindo e a TMC, pasmem, 585. Daqui até a final, em julho, é ladeira abaixo. Parte de equipes que está no hemisfério norte volta embora e, principalmente, o engajamento de redes cai num penhasco sem fim.
Vi, aqui no condomínio onde moro em Campina Grande, pessoas chorando com a eliminação. Na casa em frente à minha a cena era desoladora. E isso me fez resgatar a última vez em que vi uma Seleção ser eliminada e chorei. Voltei a 1982, na fatídica derrota para a Itália, na Copa da Espanha. Eu tinha 12 anos de idade e chorei sentado na sarjeta, junto com muitos adultos.
E qual, a meu ver, a diferença daquela seleção de 1982 para essa? A magia do futebol. Perdemos aquela Copa antes da final, mas sabíamos que moralmente merecemos o troféu. O jogo de há pouco não me deu aquela sensação. Perdemos moralmente qualquer chance de reivindicar sorte melhor nessa Copa que, a meu ver, será, no futuro, revelada como a mais corrupta de todas. A Fifa deveria perder a condição de organizar esse torneio, mas se eu defender isso talvez seja pior do que ter encarado máfias políticas em Assis e facções prisionais em São Paulo. Quero, pois, ver meus netos, se minhas noras assim quiserem.
*Professor universitário, historiador, jornalista, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.
É de conhecimento que fui jornalista por mais de duas décadas e meia de meus 56 anos de idade, parte desse tempo no jornalismo esportivo. Comecei no rádio, em 1985, na reabertura da democracia no país e sei bem o que foi receber, na redação, os fiscais do Dentel (Departamento Nacional de Telecomunicações), nome bonito dado a censores.
Defendi, defendo e sempre defenderei a liberdade de expressão, ainda mais em tempos, pasmem, de reascenção do fascimo por todo o planeta, em especial no seu berço de nascimento, a Europa. Mas, nunca é tarde para que os próprios comunicadores atualizem seus repertórios, entendam que audiência consome seus produtos informativos e, principalmente, através de quais plataformas isso ocorre.
Estamos na fase de mata da Copa de 2026 (mata-mata é para jogos de ida e volta). Quem perder volta pra casa e reorganiza o projetos para 2030, em outro torneio com mais de um país sede. É a hora do oito ou oitenta, ou seja, o jornalista esportivo aposta na seleção do país, no caso, o Brasil, ou seca. E é dessa polarização também das coberturas que saem conteúdos que, todos sabem, irritam.
Cito o exemplo da rádio TMC, que até ontem era Transamérica. Não são todos os profissionais, mas fica a impressão de que gestores da plataforma, talvez numa tentativa de transparecer uma imagética (e desnecessária) independência editorial, questionam a cada rodada a suficiência de Carlo Ancellotti no comando da seleção.
Na primeira fase da Copa a cobrança recaía sobre os principais nomes do elenco convocado para representar o Brasil. Queriam alguns da TMC ver se jogadores que brilhavam nas ligas europeias romperiam o rótulo de jogar pelo clube mas desaparecer na seleção. Pois todos fizeram sua parte na não muito sofrida liderança de grupo, incluindo o goleiro Allisson, um dos mais questionados.
Foi dessa mesma TMC que saiu a mais nojenta defesa de convocação de Neymar que, reitero aqui, eu também defendi e elogiei quando confirmada. A diferença é que qualquer um, mesmo não entendendo de futebol, sabe que Neymar não era, não é e não será, nessa Copa, esperança alguma de um reforço que levará à conquista do título. Poderá, sim, em um jogo, entrar e decidir nas penalidades nessa fase de mata. Mas, triste da seleção se depender de Neymar entrar para modificar um placar desfavorável. Não dá. É mais fácil Raphinha recuperar o ritmo após contusão muscular séria, assumir a responsabilidade e decidir do que Neymar entrar no segundo tempo e fazer o mesmo.
Só que Neymar fora dos planos é perseguição na mente de um comentarista chamado José Calil. O cara passou a primeira fase inteira não vendo futebol da seleção e apontando falhas e riscos. Procurando pelo em ovos. E sabe o que conseguiu? Me desanimar. Acompanho a equipe de esportes de Éder Luiz desde que protagonizou o projeto de rádio esportivo mais ousado que já vi nesse país. Quase 30 anos atrás ele e o tal Craque Neto, que ganhou esse pseudônimo na 100,1, fincaram alicerce de um trabalho que colocou na sacola as consagradas rádios Globo e Bandeirantes, na cidade de São Paulo.
O rádio FM está na profecia. Viria o fim da faixa AM e as emissoras migrariam obrigatoriamente para o FM. Nem todas tiveram fôlego. E foi assim que assistimos e estamos assistindo o fim de marcas como a Rádio Bandeirantes, agora tão somente Band FM, da própria rádio Globo, agora tão somente CBN e, a mais dolorida, a rádio Eldorado, que está sendo extinta pelo grupo Estado. A Transamérica, ao contrário, fortaleceu. Comprada por um mega investidor do mundo da comunicação, foi incorporada a outras empresas de faturamento estável. De Transamérica passou a TMC e ganhou o slogan "Transamérica agora é TMC; quem escuta, sabe".
De 2009 a 2017 fiz meu mestrado e meu doutorado em Ciências da Comunicação na USP e, como ia semanalmente à capital paulistana, passava minhas noites ou meus trajetos de ônibus e/ou metrô ouvindo rádio. Ainda dava para ouvir a Jovem Pan, em especial o Jornal da Manhã, logo cedo. E à noite eu intercalava ouvindo Alpha, a própria Jovem Pan, a Antena 1, todas com músicas, a projetos inovadores como o da Transamérica Pop, que já tinha o Papo de Craque Segunda Edição, assim como a CBN, e conheci frequências já disponíveis no Youtube como a 105 e a Estação, essa última reveladora, pra mim, de Benjamin Back e Mano, além de uma galera que também frequentava os microfones da FM do Alto da Lapa, na Cerro Corá.
Sim, subi o gato no telhado para chegar ao ponto de dizer que respeito o trabalho de Éder Luiz, a quem conheci em Marília no período em que trabalhei no Jornal da Manhã, de 1999 a 2003. Tive duas oportunidades de encontrá-lo em reuniões de imprensa, quando ele já estava envolvido em projetos com rádios da capital, como no caso da rádio Record. Um cara gente boa, boa praça, de uma empatia contagiante, mas, principalmente, muito, mas muito sério no fazer do mundo do trabalho da comunicação. Não por acaso subiu rapidamente para as transmissões da TV Record junto com Craque Neto, cobrindo Copa do Mundo, mas depois voltando, para a felicidade do meio rádio, para as sintonias de frequência modulada, mas já observando a ascenção do Youtube.
Éder Luiz está comandando a equipe TMC que cobre a seleção brasileira, por enquanto, em estádios dos EUA. Tem a sombra de Benja, mas todos sabem que o comando é de Éder, pois é dele que sai a comercialização da ampla maioria das cotas de patrocíniio que viabilizam à TMC comprar direitos de transmissão na primeira Copa da história em que a Fifa rifou a cobertura para o rádio (antes ela apenas concedia autorização para quem comprovasse ser profissionalmente capaz). De longe, é o melhor narrador do rádio esportivo do país, e faz tempo. Superou lendas como Oscar Ulisses, podado pela Globo/CBN já há algum tempo, e nomes que ele próprio levou para a Transamérica, como Oswaldo Maciel. Coincidindo, José Silvério também pendurou o microfone nesse tempo todo.
Lá, na Copa, está um time de profissionais da TMC que é de tirar o chapéu, à exceção de Calil, mas isso é uma particularidade minha, pois nunca concordei com a postura ofensiva, nada educada e arrogante dele na relação com ouvintes. No nosso meio da comunicação, ele é o cara que se acha. Sempre foi assim e, penso, não será agora, quando está prestes, pelo que vejo, a cumprir sua última renovação contratual com a rádio do Alto da Lapa, que irá mudar ou filtrar a prepotência. Benja, que chegou e deu brilho ao Papo Segundo Tempo, até tenta dar o rótulo de melhor do Brasil a Calil, mas, todos sabem, é uma massagem de ego para preparar para a não renovação de vínculo que mais cedo ou mais tarde virá.
Marco Belo está com Leandro Boldakian nos EUA e os dois juntos são o que há de mais compromissado com a cobertura da Seleção. Os dois não caem nas baixarias que saem dos comentários de Calil ou da bancada no Brasil. Aliás, que tragédia é a bancada do Brasil quando tem o tal Farah, que tem a capacidade, ancorando, de interromper falas dos setoristas da seleção na Copa para perguntar o que comeram e quem pagou a conta, tipo de "brincadeira" que um dia, quando o rádio, aqui que sabemos, até permitia, mas que hoje faz ouvintes/telespectadores simplesmente mudarem a frequência. Eu sou um deles, pois tem dia que não dá, apesar de adorar e ser fã da mulher de luta Renatinha Saporito, um oásis no meio de uma homaiada que todos os dias bate o ponto na misoginia para com ela, em diversos aspectos.
Dentinho e Dodô são contratações recentes da TMC que somam ao que, penso, Éder Luiz e o próprio Benja projetam da rádio multiplataforma ideal que está sendo construída no imenso projeto iniciado em 2025. Equilibrados, entendedores de futebol por terem estado nos gramados dentro e fora do Brasil, têm cunhão para bater de frente com os jurássicos postulados dele, sempre, José Calil. O ápice disso foi a contestação, fundamentada, que deram para justificar que Neymar não deveria ser convocado para a Copa. Rendeu até reportagem na Folha e no UOL o posicionamento forte de Dodô, e é assim que tem de ser. A quem não entende, isso chama-se liberdade de expressão, mas sem simplesmente abrir o microfone e virar viúva de determinado jogador ou perseguidor de algum atleta. É argumento.
Somado a esse time todo chegou um comentarista de arbitragem, na TMC, que me refez rever o conceito de aceitar, em transmissões de rádio ou TV, que haja quem faça análise da atuação de arbitragem. Me irritou e ainda irrita ver um Simon ou uma Renata Ruel abrindo o microfone, analisando o lance com imagem de transmissão, falando o óbvio quando a imagem não contradiz, e na cara de pau mudando de opinião dizendo "ah, sim, foi falta sim, por esse ângulo" ou "não houve uso excessivo da força mas opa, por esse ângulo, sim é falta para amarelo". Caramba, isso eu estou vendo e mesmo quem entende quase nada de futebol também não precisa que alguém analise.
O rapaz Caravina (posso estar escrevendo errado os nomes de alguns desses profissionais, por apenas ouvir a pronúncia e não ter oportunidade de ver a descrição de suas identidades) é muito bom. Por mais de uma vez o vi discordar de membros da bancada por lances do Campeonato Brasileiro ou mesmo dessa Copa. E eu achando que ele é ex-árbitro, até que dias atrás soube, pelo próprio, no ar, que fez curso de arbitragem, não exerceu a profissão, mas estudou profundamente o esporte e suas regras. Não digo que tenha concordado com tudo o que ele já analisou, mas, reconheço, ele é um cara de respeito.
Sou atento aos comentários feitos no chat do Youtube do canal da TMC. E lá tenho visualizado opiniões similares à minha. Ou seja, um pessimismo escancarado com a nossa Seleção nas transmissões por parte de alguns profissionais da rádio, em via contrária à onda de otimismo que tem se formado a cada jogo, principalmente depois de terminada a primeira fase. Há tentativas isoladas de Thomaz Rafael, ótimo, de fazer mediação nisso, mas o negativismo que vem de comentários nos microfones da TMC nos EUA acaba por prevalecer.
Li, dia desses, um ouvinte comentando e questionando se a equipe TMC se deu conta de que a Seleção eliminada significa quase todos voltarem pra casa, se não for a totalidade, pois os demais jogos até a final podem ser transmitidos via tubão (quando narrador, comentarista e repórter estão em estúdio e narram ou comentam a partir do que está passando numa aparelho de TV). Aquele ouvinte estava tão indignado quanto eu com a narrativa de que ganhar por 3x0 do Haiti na primeira fase e da Escócia ainda mostrava uma Seleção devendo algo.
Nesse momento em que escrevo essas linhas a Bélgica, nossa algoz de 2018, está sendo eliminada por Senegal. E por muitos era considerada favorita para disputar ao menos uma das 5 primeiras colocações dessa Copa. Antes, Alemanha e Holanda também já haviam ido embora. Mas o jogo ainda na6o acabou (atualizando, a Bélgica virou pra 3x2 na prorrogação).
Vamos encarar a Noruega, de Haaland, e a imprensa esportiva calça a sandália do pessimismo batendo no fato de nunca termos vencido os fanáticos torcedores que remam tais quais os vickings. Quanto jogos foram? 4. Três vitórias deles e um empate. Como se isso tornasse a Noruega favorita de algo contra uma Seleção que, esqueçam a história, vem de 3 vitórias e um empate nessa Copa. Se eles têm Haaland, nós temos Vini Jr e Matheus Cunha, além da carta na manga chamada Endrick. E dá pra falar que teremos de quebrar um tabu no domingo? Ora, façam-me um favor.
Depois de terminada essa Copa teremos o cenário polarizado que também incide sobre o futebol. Se formos campeões, os secadores irão consagrar essa condição e entrarão para o ostracismo. Mas, se der algo errado, o que é perfeitamente normal em uma Copa com uma rodada a mais (o 16 avos, antes das oitavas) e passível de contundir mais jogadores ou mesmo esgotá-los mais cedo, crescerão os cronistas esportivos do "eu disse, só não acreditou quem não entende de futebol".
Eu entendo de futebol pra mim, ouso colocar alguma coisa aqui e um dia fui comentarista esportivo em rádio e TV a cabo de interior. Tenho minha base norterada pela ética, que diz que é preciso, acima de tudo, respeitar a vontade da audiência. E, convenhamos, a audiência quer a Seleção vencendo jogo a jogo, atuando com espetáculo e fazendo para o gasto. Ou alguém discorda que nas Copas de 1994 e 2002 tivemos jogos e atuações amplamente questionáveis?
Continuo assistindo aos jogos pela TV e, por vezes, ouvindo pelo rádio (dá para ajustar ambos os delays e sincronizar imagem e som). Antes o fazia somente pela Transamérica, agora TMC, mas nessa Copa minha paciência com os pessimistas de carteirinha da equipe de Eder Luiz acabou. Consigo até ver o pré-jogo da TMC no Youtube, desde que tenha Thomaz Rafael e não Farah. Se a narração tubão tem Melo no microfone e comentários dos repórteres que ficaram em SP, tudo bem. Mas, jogos da Seleção tem o excelente Eder e o pés-si-mo Calil, e daí não dá. Oscar Ulisses supre, e bem, essa demanda.
* Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP
Cláudio Messias*
A quinta-feira é um dia da semana em que eu, aqui em Campina Grande, PB, reservo para, pela manhã, faxinar banheiros e cozinha, por completo, cuidar de minhas plantas e, pela tarde, atender a quem oriento em trabalho de conclusão de curso, estágio supervisionado e iniciação cientifica, na UFCG. Mas... hoje era dia de abertura de Copa do Mundo e numa cidade onde estive por duas vezes em compromissos formais pela mesma universidade. A Cidade do México me prendia ao estádio Azteca.
Faxinei banheiros e cozinha, cuidei de plantas e das 5 gatas que adotei da rua (mãe e 4 filhotes) e inicie procedimento de aplicar cimento queimado em balcão de minha cozinha/sala de jantar. Meu dia, aqui, começa com o clarear, por volta de 5h20. Café coado, pão de queijo assado, a quinta teve início. E minha expectativa, no despertar, era a estreia da Seleção Mexicana, que justificou postagem anterior minha aqui, no Blog.
Chegou a abertura da Copa, linda, no Azteca. E a bola rolou.
Iniciei acompanhando, pela TV aberta, pela Globo, logo em seeguinda ao Jornal Hoje. Chato, cansativo, com uma dupla que já é figurinha carimbada pelo opinia6o pública: Gustavo Vilani e Roger. Que dupla desastrosa, em todos os sentidos. Um narrador que se acha a última bolachinha do pacote e um comentrista que só o é por ter, um dia, sido marido de Débora Secco.
Fui à única alternativa na TV aberta, ou seja, a TV Borborema, aqui em Campina Grande. Tiago Leifert narrando, Juninho Per-nam-bu-ca-no... comentando. Que desastre. Mas, ainda assim resisti a ir ao Youtube e encarar o CazéTV, o pior desserviço de cobertura esportiva que o streaming inventou em sua história no Brasil.
Bola rolando - Vi uma Seleção Mexicana que fez jus à condição de anfitriã na estreia. Venceu sem problemas uma África do Sul frágil, esquisita, perdida, e que terminou os 90 minutos com 2 jogadores expulsos. Pode, a meu ver, chegar a uma oitavas de final, mas dali não deve chegar. Se chegar .
A arbitragem da estreia foi de um árbitro brasileiro, Wilton. Gostei dele, concordei com os 3 cartões vermelhos aplicados e, em sintonia, compreendo que as novas regras impostas pela Fifa foram, por ele, seguidas.
No geral, a previsão de interpérie climática não se confirmou, a torcida torrou sob 35 graus no Azteca, pouco ou nada se falou da altitude da Cidade do México, que pode ter afetado os sulafricanos, mas o placar final está lá, e é 2x0.
Daqui, da poltrona, vi uma Seleção Mexicana mais frágil do que eu imaginava. Conformou com o placar, ignorou a expectativa dos 80 mil pagantes que estavam no Azteca e parecia ser visitante, e não mandante. Coisa estranha.
Continuo confiante no México, para que avance ao menos até as oitvas ou, quem sabe, quartas de final dessa Copa. E que jogue seus mandos no México e, jamais, nos EUA, a terra da nova versão de Adolf no planeta cuja extrema-direita facista avança.
FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA
SURRA
Assisti México 2x0 África do Sul pela TV aberta. Mas, no computador, monitorei a audiência. E vi um CazéTV arrasador. Era Cazé com 4 mi de visualizações e o SBT com, pasmem, 8 mil. GETV não podia, por direitos, transmitir.
BOLA FORA
A TMC, que um dia foi Transamérica, está, a meu ver, com a equipe de rádio mais completa cobrindo a Copa2026. Tem equipes na Cidade do México e, principalmente, EUA, onde está a Seleção Brasileira. Não ter ninguém no Canadá, a meu ver, não prejudica nada, pois eu também não gastaria essa sinerrgia. Canadá sequer faz questão de divulgar que é sede de jogos da Copa.
BOLA FORA II
Na Cidade do México a TMC colocou um novato que aqui no Brasil cobre, setorista, o São Paulo. E eis que na Copa o cidadão não tem largado o pó de arroz de sua personalidade. O Tal Caíqueteve a capacidade de o dia inteiro focar na sua não concordância com o apito de Wilton aqui na Braqsilândia, ignorando que era um representante nosso na abertura. O jogo, em si, passou batido para o sãopaulino, mas os possíveis erros do árbitro brasileiro não escaparam. Em sínt4se: vá te catar, Caíque, e saiba aproveitar essa que pode ser a única oportunidade de sua carreira de cobrir uma Copa do Mundo.
BOLA DENTRO
A TMC mostra-se como um projeto que, a médio prazo, fará jus ao fenômeno da convergência midiática. Tão importante quanto o rádio, sabe de sua penetração no público online, mantendo média de 2 mil acessos ao vivo no Youtube, ou seja, além de ouvir, as pessoas estão assistindo à TMC. Só precisa filtrar melhor suas bancadas e entender que a audiência mais discorda do que concorda com tudo.
CRAVANDO
Minha simulação de tabela da Copa deu, ontem, Brasil x Portugal na final, com o Brasil levantando a taça. Me cobrem ou me felicitem, daqui um mês, se der isso ou for diferente.
Logo menos o estádio Azteca, que o neocapitalismo agora denomina Arena Banorte, honrando a rede bancária mexicana que patrocinou parte da reforma das instalações, será palco do jogo México x África do Sul. Chegou a hora de dar início à mais mercenária, preconceituosa e nada futebolística edição do mais importante torneio de seleções do planeta.E, não, o México não tem culpa alguma pela incompetência de gestão da Fifa e pela arrogância histórica de seu vizinho de fronteira ao Norte.
Estive, com a esposa, na Cidade do México em dois anos consecutivos, 2024 e 2025, para compromissos acadėmicos de pesquisa com a Unam (Universidade Nacional Autônoma do México). Em 2024 o avião da Latam fez trajeto de aterrissagem permitindo visualizar o Azteca. Claro, eu queria ver um jogo lá. Mas logo que cheguei fui informado que os jogos do América, clube que detém os direitos de mando, estavam sendo realizados no estádio do Cruz Azul. O motivo: reforma para a Copa.
Não fui ao Azteca em 2024. Mas em novembro do ano passado, fui. Hospedado em San Ángel, bairro que fica em uma privilegiada região comercial da capital mexicana, perto de quase tudo, principalmente da Unam, enfiei a cara e fui. Esposa ficou com compromissos de pós-doutorado na universidade. Não foi fácil, apesar de a cidade ter, a meu ver, um seguro e organizado sistema de transporte por trilhos ou asfalto.
Peguei o metrobús, sistema de transporte confortável e rápido que se desloca por corredores em avenidas congestionadas e que custa o equivalente a 3 reais. Desci na estação final e, de lá, segui de uber para o estádio, pagando o equivalente a 80 reais. Há muitos ônibus (clandestinos, na maioria) que fazem a linha dali até o Azteca, mas eu tinha notas de peso mexicano de valor alto (50 pesos, por exemplo) e os motoristas, que também são cobradores (eles são, geralmente, os donos do busão que dirigem) só aceitam dinheiro em espécie e na condição de voltar troco baixo em moedas. A corrida saía pelo equivalente a 3 reais.
O susto maior ficou com a velocidade que o uber deu na autovia até o Azteca. Cheguei a ver o velocímetro bater 140 km/h em um zigue-zague que me desconcentrou, por vezes, do proveitoso diálogo que mantinha com o condutor. Tudo, no entanto, ficou pra trás quando cheguei aos arredores do estádio, em obras. O monumento que, refleti, tinha muita história.
Vista das lojas que ficavam, em novembro de 2025, instaladas no estacionamento principal do Azteca
Sou historiador de formação e recordo, sempre, das aulas de professor Ivan (Unesp/Assis, SP), que dedicou parte de sua via acadêmica a pesquisas presenciais na Mesopotâmia que, para os desavisados, é considerada o berço da humanidade na forma civilizada como concebemos. Ivan narrava suas experiências e dizia algo que eu achava e acho lindo: estar no local, sentir a energia e fazer uma viagem memorial ao passado, tentando conceber como pessoas estariam ali, onde ele estava, alguns milhares de anos atrás.
Na Cidade do México é comum haver conglomerados de pontos que vendem comida. Nesse, ao lado do Azteca, comi um burritos de carne de porco
No Azteca e em outros locais do México, como nas pirâmides aztecas, fiz exatamente isso. Olhando aquele estádio todo cercado por tapumes, cru ainda, senti a energia de diversas formas. Observando trabalhadores, imaginei a construção inicial no final da década de 1960. Mirando o imponente estádio me vi circundado pelos privilegiados torcedores que viram a Seleção Brasileira tricampeã com Pelé, Tostão, Jairzinho, Gerson e demais. Respirando bem fundo, me vi testemunhando o gol argentino com o braço de Diego Armando Maradona, o maior e melhor jogador que vi, pela TV, nesses 56 anos de vida.
A questão geral ali, em novembro, era: essa obra ficaria pronta em 4 meses? E ficou.
Mas nem todas as sensações foram boas lá, no Azteca. Sou filho do saudoso seo Messias e, como tal, não passo por lugar algum sem prosear. Parei o serviço de alguns operários que trabalhavam na rampa de concreto de acesso da estação de trem ao estádio. Salários atrasados, condições de trabalho visivelmente perigosas, sem EPI (equipamento de proteção individual), e um pessimismo que era compatível com a sensação que eu tinha: será que o estádio ficaria pronto?
Não é IA: eu realmente estive lá!
Era novembro de 2025 e, quando estávamos lá na Cidade do México, saiu o anúncio do jogo inaugural daquele estádio Azteca, para março, contra Portugal. Confesso que eu olhava para o anúncio do jogo inaugural e mirava o estádio e pensava: não vai dar, não. O resto eu nem preciso contar, pois México x Portugal já jogaram, o estádio não estava totalmente pronto, mas, agora, para a Copa, está em condições de receber os jogos.
Exatamente ali dentro fizeram gols Pelé e Maradona
No estacionamento do estádio ficam (ou ao menos ficavam) lojas que vendem materiais esportivos. Ali você encontra de camisas originais a camisas falsificadas. Mas tem uma loja oficial do América, clube que, repito, tem o mando de jogos no Azteca. Camisa do América eu já tinha, pois comprei em 2024, quando assistimos América 3x1 Santos pela Liga Mexicana. Eu queria, mesmo, uma camisa oficial da Seleção Mexicana, que nas lojas oficiais da Adidas (o América tem uma dessas lojas) custava o equivalente a 400 reais.
Comprei uma camisa, digamos, alternativa do México, por 200 reais. Mas, havia um problema ali. São 3 os modelos de camiseta oficial da Seleção Mexicana. A primeira camisa é verde, a segunda é preta e a terceira, ao menos em 2025, era marrom puxado para o dourado. A numeração mexicana de tamanho difere um pouco da brasileira. Se eu visto GG, tenho que comprar XG lá. E dos 3 modelos que citei, só uma tinha o tamanho XG: a verde. E, como todos sabem, corintiano não veste verde, jamais.
Mas, era comprar aquela camisa verde, ali na loja do Azteca, o que tem uma representação mais forte, a meu ver, ou pagar mais caro em outro lugar ou mesmo ter uma camisa com material inferior ao que estava nas minhas mãos. Respirei fundo, comprei a camisa, trouxe para o Brasil e ainda não usei. Ainda, pois logo mais, na abertura da Copa, usarei essa camiseta que, apesar de verde, é muito, mas muito linda. Os 3 modelos eram lindos, mas esse modelo da primeira camisa, com motivos aztecas, maias e demais povos originários mexicanos me pegou.
Coritiano jamais veste verde, até ir ao México, se apaixonar pelo país e seu povo e entender que exceções existem para separar passado, presente e futuro de decisões
Penso que o México, de novo, assistirá outra seleção, de outro país, erguer a taça. E por mais que se despeça cedo da Copa que ajudou a organizar, não tenho dúvidas que será, entre os 3 anfitriões, o mais digno, festejante, alegre, colorido e vibrante. Pouco ou nada sei das sedes de jogos da Copa no Canadá. Sobre as sedes e qualquer coisa relacionada à Copa nos EUA, nem comento, pois essa nação, a meu ver, não deveria, pelo resto da história da humanidade, receber competição esportiva alguma que reúna países de todo o planeta.
A Copa 2026, logo, pra mim é mexicana, pois mexicano me sinto desde 2024 e para lá quero, sempre, voltar. Quero, claro, voltar ao estádio Azteca, para ver jogo do América contra, preferencialmente, o Cruz Azul, esquadra para a qual decidi torcer em 2025, ou então contra o Pumas, clube mantido pela Unam e que disputa jogos no Estádio Olimpico, onde eu e esposa assistimos, ano passado, Cruz Azul x Tigres, pelas semifinais do campeonato mexicano, vencido pelo Toluca dias depois de retornarmos ao Brasil.
Meu palpite para hoje é México 2x1 África do Sul. Vitória mexicana mas com sabor, também, de comemoração de gol de nossos irmãos ancestrais sulafricanos.
*Professor universitário, jornalista e historiador, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.
Aos críticos da convocação de Neymar, um registro ocultado pela mídia esportiva: o jogador do Santos é o único convocado que atua em clube paulista na atualidade
Cláudio Messias*
19MAI26 - Os olhos de quem torce pelo futebol fora das arquibancadas dos estádios continuam focando nas telas. Mas, não mais naquelas telas que ficam fixadas numa sala de estar, num espaço gourmet, numa parede de bar, numa área comum residencial. A popularização tanto do acesso a (essa crase é facultativa) internet quanto de posse de dispositivos móveis modificou as formas de consumo, mas não necessariamente o público que consome conteúdos relacionados ao que é transmitido na dualidade som e imagem em tempo real.
Quem é nascido entre 1960 e 1980 e está lendo esse texto tem parâmetro para recordar que quando íamos ao Estádio da Rua Brasil, ou seja, à Associação Atlética Ferroviária, para ver os jogos do Vocem quando o Esquadrão da Fé quase conseguiu o acesso à elite do futebol paulista, em 1983, assistíamos em posse de rádio portátil, ouvindo transmissões da Rádio Cutura AM. E assim foi até a temporada anterior ao início da pandemia, ali pelos idos de 2019. Até que chegou o serviço streaming, um recurso financeiramente muito mais viável de transmitir jogos nos estádios, e com imagem.
Não temos mais transmissões de jogos de Vocem ou Atlético Assisense através das ondas do rádio, que agora é tão somente FM, com a migração da faixa AM para uso, pela Anatel, da expansão da rede 5G no país. Transição, essa, que permite velocidade e qualidade maiores de transmissão justamente dos serviços streaming, que fazem os jogos do Tonicão chegarem às smartvs, pelo Youtube, através de serviço sob gestão da Federação Paulista de Futebol. Há, sim, um delay (atraso em relação ao tempo real) de 40 segundos, e tanto narração como comentários, forasteiros, dão diversos bolas-foras nas transmissões, mas para isso a tecnologia nos dá a opção ou de acionar o modo "mudo" da TV ou comentar no chat, nem sempre havendo feedback, claro.
Como dizemos aqui no interior da Paraíba, arrodeei o assunto para chegar à convocação da Seleção Brasileira que vai à Copa daqui a menos de um mês. Mas não citei, nos três parágrafos anteriores, a transição tecnológica de transmissão de jogos por acaso. Você mesmo, que lê esse texto, seja no meu Blog, seja em outra plataforma com a qual contribuo, o faz utilizando um recurso tecnológico 100% dependente de internet. Pode ser um computador (desktop ou notebook) ou um dispositivo móvel (smartphone ou tablet). Mas é fato que segundos após eu dar um "publicar" aqui na plataforma, alguém poderá já estar lendo o que escrevi. Ou, claro, passar horas sem quem ninguém se interesse. Faz parte.
Depois de dizer que o gato subiu no telhado, chego em Ancelotti. Carlo Ancelotti. Esse italiano é, na história do futebol, o técnico mais vencedor. Ninguém, em vida ou já na galeria da saudade dos treinadores de times de futebol, acumulou tantos e tão importantes títulos comandando clubes ora expressivos, ora nem tão expressivos na ordem futebolística mundial. E ele chegou à Seleção Brasileira em uma via recíproca de primeira vez. Sim, se a Seleção Brasileira nunca teve um técnico estrangeiro no seu comando, o melhor treinador da história, em outra via, jamais treinou uma Seleção, nem mesmo a de seu país.
Ganhar a Copa 2026 trará dois fatos inéditos, portanto, reunidos em um mesmo sonho. O sexto título mundial para a Seleção Brasileira interromperia um incômodo abismo de 24 anos sem levantar a taça (5 mundiais, na prática) com o comando de um conterrâneo de Paolo Rossi, nosso carrasco de 1982, e de Roberto Baggio, nosso protagonista favorito no quarto título de 1994, ao mesmo tempo em que daria a um italiano seu, pasmem, trigésimo primeiro título na carreira, o primeiro no comando de uma Seleção de país. Escorreu uma gota de veneno aqui no canto da boca, mas preciso registrar que a Itália, de Ancelotti, ficou mais uma vez fora de uma Copa do Mundo. Santo da casa não faz milagre para a "CBF da Itália", é isso?
O gato voltaria a subir no telhado aqui no meu texto se fosse citar os 30 títulos que Ancelotti tem na carreira. Qualquer IA faz isso bem rapidinho aí. E vale a pena conferir, para ter dimensão sobre o tipo de comando que assumiu a locomotiva que conduz os sonhos brasileiros por mais uma conquista de Copa do Mudo. Esse italiano, é inquestionável, sabe o que faz. E faz bem. Só pisa na bola com esse costume péssimo de mascar chiclete, fumo de corda, folha de coca, boldo, cocada ou sei lá o que, o tempo todo, à beira do gramado. Não, não vou entrar no detalhe da sobrancelha do lado esquerdo, que mereceria uma codificação para tradução gestual.
Precisei viver 56 anos para concordar, hoje, com algo capitaneado pela CBF. Escândalo após escândalo, corrupção após corrupção, a nossa Confederação Brasileira de Futebol continua sendo presidida, como nas gestões anteriores, por quem não faz a mínima ideia do que seja o fedor de chulé em um vestiário de estádio após um jogo, seja ele um rachão varziano ou um jogo oficial. Mais ou menos como a pessoa dizer é professor e desconhece o que seja o cheiro de uma sala de aula depois do recreio de uma Sexta série numa tarde de verão. Só professor sabe o que estou dizendo. E só quem é do futebol sabe do que estou falando.
A presidência da CBF virou um barco à deriva. Só que esse barco caiu na mão de um sem-noção que pode não entender absolutamente nada do mundo senso comum do futebol. Mas é gestor. E dos piores que já passaram pela sua cadeira antes, ele se mostra o menor pior. Trazer Ancelotti não é mérito dele. A chegada do italiano apenas coincidiu com seu início de gestão. E os dois foram aparando arestas juntos. Duvido, com toad sinceridade, que Ancelotti troque mais do que duas palavras com o atual presidente da CBF quando se encontram. E essas duas palavras variam de "bom dia", "boa tarde", "boa noite" ou "vai tarde".
Só que o peso de Ancelotti na comissão técnica da Seleção coloca uma sem-moral CBF em, ao menos, condições de diálogo e exigência de respeito ante à Fifa que, por sinal, não diferente ,vem capitaneando escândalos na organização das ultimas Copas, entre elas a do Brasil em 2014. Não obstante, a entidade deu ao Laranja que governa um país na América do Norte o título de Nobel da Paz, momentos antes de invasões a países e deflagração de guerras. Ancelotti não tem nada com isso, mas transfere para o país da América do Sul o peso de sua presença na perspectiva da política do futebol. Logo, que nos rspeitem mais, por favor.
Por aqui, Ancelotti não classificou a Seleção para a Copa na primeira colocação das Eliminatórias. Mas, como disse, herdou uma casa abandonada, destruída, em pedaços, com as contas no vermelho. Nem fiado na quitanda Ancelotti conseguia comprar em nome da CBF. E a repercussão de sua chegada na crônica esportiva me faz duvidar se o italiano foi retribuído em todos os "bom dia" da vida que deu nas primeiras semanas. A cada convocação ele agradava 3 a cada 10 jornalistas esportivos. Se perdia jogo amistoso ou das Eliminatórias, pronto, o gringo veio só fazer turismo e curtir a aposentadoria indireta em terras tupiniquins.
As semanas que antecederam a convocação, agonia encerrada ontem, 18 e maio, dividiram o Brasil mais que a polarizada sociedade brasileira da política partidária correta. Quaest e DataFolha diriam "Quem quer Neymar na Copa" teria 33% da preferência, "Quem não quer Neymar na Copa" teria 31% e "Não sabe opinar" seriam 34%. Na margem de erro, Neymar estaria e não estaria na Copa, para desespero de quem não sabe nem que vai ter Copa do Mundo nesse ano.
Neymar estará na Copa. E não quer dizer disputará a Copa. Uma coisa é estar lá, outra coisa é jogar lá. Um jogador chamado Ronaldo Luiz Nasário de Lima, eternizado como Ronaldo Fenômeno, o melhor sucessor de Pelé com a nossa camisa, estava também nos EUA em 1994, aos 17 anos de idade. O Brasil já se encantava com o futebol daquele moleque de dentes frontais salientes e magrelo, nos campos mineiros por onde o Cruzeiro jogava. E o mundo começava a conhecê-lo como sucessor, no holandês PSV, de Romário. Mas Parreira levou Ronaldinho, como era conhecido, para ser reserva de Viola, que por sua vez era reserva de Romário, o melhor jogador da Copa de 94, cujo caneco conquistamos. Ronaldinho não entrou em um jogo sequer na Copa de 94.
Fui defensor, entre amigos e na família, da convocação de Neymar. Historiador de formação e pesquisador das Ciências da Comunicação em nível de mestrado e doutorado, defendo que haja uma mudança cultural no Brasil. Não honramos nossos ídolos, e não é só no futebol. Lembro quando criança que Tonho, amigo ferroviário de meu saudoso pai, dizia nas rodas de conversa que o país pararia quando duas pessoas morressem: Pelé e Roberto Carlos. O primeiro já se foi, e parou tão somente a Baixada Santista. O segundo está em vida, tem seu legado e altos e baixos, dado seu humor de ranzinza, mas, certamente, quando de sua passagem, será lembrado. Apenas lembrado. Não vai parar o Brasil como seus fãs fervorosos de 40 anos atrás pensavam.
A coisa está tão esquisita nesse aspecto, e aqui volto o gato pra cima do telhado, que o maior ídolo da história do basquete, de importância similar à de Pelé e Senna nos esportes, faleceu semanas atrás e sequer teve o velório aberto ao público pela família. Oscar Schmidt foi embora e o país que junto com ele chorou na conquista eternamente histórica do Pan de 1987 não pôde, na representação, fazer a tão necessária despedida que, sabemos, ele em vida certamente iria querer. Decisão de família, é de se respeitar, mas esse ídolo ficará guardado cada vez mais em um compartimento da memória oficial que somente a família, em exposições e eventos como tem feito, tentará resgatar.
Neymar, tal qual eu, você e todos e todas, um dia será o que hoje o são Pelé, Senna, Oscar, deixando ou não penduricalhos nas contas bancárias, como tem sido a polêmica mais recente no noticiário. Todos morreremos um dia. E ser convocado para a quarta Copa do Mundo é justo para um atleta que com a camisa da Seleção sempre deu a vida pelo país. Quase ficou paraplégico num lance criminoso de jogador da Colômbia na Copa de 2014, antes da humilhação dos 7x1 naquela fatídica final. E dois anos depois estava na Seleção campeã olímpica de 2016, aqui dentro de casa. Duas de suas três mais graves lesões ele sofreu defendendo a Seleção que até ontem poderia deixá-lo de fora em um torneio que terá, entre outros, o croata Moldric e o português Cristiano Ronaldo acima dos 40 anos. Neymar tem 34 anos, quatro a menos que o argentino Messi. E todos estarão na Copa.
O extra-campo foi, é e sempre será um empecilho na vida de Neymar. Ter posicionamento político-partidário é, sim, justo e faz parte do jogo democrático. Só que ele é jogador de futebol, veste a camisa da seleção de um país, e esse país, polarizado, promove e leva à falência moral quem se atreve a expor publicamente suas decisões individuais. Daí, por hipótese, parte da imensa rejeição a seu nome ntre os convocados, por partes que misturam ideologia e esporte.
Mas essa convocação de Neymar, festejada e odiada nesse dia 18 de maio de 2026, é névoa. O Brasil criou expectativa em torno da Copa, coisa que não se via desde 2006. Penduricalhos do judiciário, a ética do STF, a lista de envolvidos com o Banco Master, o despejo de vice-prefeito, o desaparecimento de uma senhora no Jardim Rezende e a espiadinhao para saber se a grama do quintal do vizinho está mais verdinha que a sua, tudo perdeu sentido com a expectativa em torno da Copa. Agora, as metralhadoras sociais ficam voltadas a: Neymar será ou não titular no time de Ancelotti? Entra no segundo tempo ou só é chamado no banco de reservas quando a coisa estiver feia no placar? Se o jogo no mata-mata caminhar para as penalidades ele entra ou não para bater?
À sombra da convocação de Neymar o tal míster Ancelotti deu sinais de que ainda há gente na CBF que manda mais ou igual a ele. Não ter chamado Hugo Souza para o gol e ter colocado Weverton como terceiro goleiro lugar na vaga do varziano Bento soa como tentativa de colocar algum nome do ladeira abaixo futebol sulista. Afinal, o Brasil inteiro precisa ter um motivo para torcer, a favor ou contra, entre junho e julho. Tafarel, campeão em 1994, tem dedo, mão e corpo inteiro nisso, não há dúvidas, sulista que é.
As tais surpresas do míster só não foram piores do que a inimaginável e mais sem-noção pergunta de uma bancada do Jornal Nacional na história, quando César Tralli questiona, hipoteticamente ao vivo, se Ancelotti já poderia dizer o time da estreia na Copa. Aquilo foi um soco no jornalismo.
Levar Enrick é justiça ao desempenho do garoto tanto na base do Palmeiras até aos seus jogos pelo Lyon, da França, e com a pópria camisa da Seleção. Não tira o pé, não leva desaforo pra casa, não olha todos os dias pro peso do corpo na balança e mete gols. Na ausência de Estêvão, vai fazer Neymar amargar a reserva, até porque os dois juntos em campo com certeza a Seleção terminará com alguém expulso.
Eu não gosto de parte dos jogadores selecionáveis da CBF desde Tite, piorando com Dorival e seus antecessores relâmpago. Se já não via tanto brilho nas Seleções passadas de Felipão e Parreira, a partir de 2003, pior agora. Desesperador saber que Ancelotti especulou levar o chorão Thiago Silva, outro quarentão, para a zaga. Daí tu questiona: mas o Brasil não precisa honrar seus ídolos? Sim, precisa, mas Thiago Silva pra mim nunca foi ídolo. Falhou absurdamente no 7x1, ao lado de David Luiz, que hoje tem 39 anos. E ambos saíram de campo aos prantos, desamparados, de uma forma o país do futebol passou, definitivamente, dentro de casa, depois da humilhação, a preterir futebol como sua pauta principal. Está voltando agora.
Ancelotti fez suas escolhas e tem cunhão para conduzir o trabalho. Renovou seus penduricalhos com a CBF e vamos ter que engoli-lo até a Copa de 2030, ganhando ou não a taça em 2026. Deixou fora da lista o melhor centroavante de posição do futebol brasileiro desde Fred, ex-Fluminense. Centroavante nato mesmo, ou seja, lento, sim, mas de presença na área e que balança as redes tal qual Lewandovsky e Harry Kane quando a bola sobra. Pedro seria meu titular em qualquer jogo, sendo servido por Vini Júnior, Endrick ou quem mais o míster optar por formar a linha de frente.
Pedro ficou de fora, assim como muitos outros selecionáveis. Preocupo com as laterais, que no sistema e Ancelotti têm função de marcação e apoio ao ataque, por sistemas táticos flutuantes, característica histórica do treinador mais vencedor da história do futebol, protagonsita da revolução que fez emergir Pepe Guardiola. As ausências de Militão, Rodrygo e Estêvão deram pouco tempo de reação ao imaginário de jogo de Ancelotti. Logo, na primeira fase dessa Copa podemos fazer jogo perfeito ante a um africano Marrocos que distribui parte dos melhores jogadores das ligas europeias, mas tropeçar ante à fragilidade de um Haiti, por exemplo, e ter que decidir a primeira colocação da chave frente a uma Escócia cujo futebol foi manchete na semana recente, pelo fervor dos Celtics e sua torcida insana.
O futebol não é mais o mesmo e, sim, podemos classificá-lo, ainda, como arte. Mas, uma arte contemporânea cujo belo estético não está resumido à habilidade no jogo das pernas para conduzir ou lançar a bola, pois isso ficou no passado. A arte do futebol, hoje, é análoga à mesma arte do boxe ou do MMA, ou seja, na suficiência que uma equipe tem de dominar a outra de forma rápida, certeira, com um único golpe. É assim que vemos semi-finais da Champions tendo jogos com 9 gols em 90 minutos. Finalizar o adversário sem necessariamente feri-lo fisicamente, eis a arte do futebol. Temos o 7x1 como prova disso, pois fomos finalizados e saímos feridos tão somente moralmente.
Cobremos Ancelotti por uma seleção com essa filosofia. E, sim, ele pode e deve ser cobrado. E em Português-BR claro. E o gato desceu do telhado.
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FISCALIZAÇÃO ELETRÔNICA
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GÓRPI
O portal Assiscity ficou mais de um dia inacessível daqui, da Paraíba. Uma ação hacker invadiu o sistema do site. A situação foi normalizada no domingo, 17 de maio. Minha amiga Bruna Fernandes passando perrengue por uma ação criminosa e anti-democrática. E Assiscity consolidado com o exercício de jornalismo por jornalistas, sem maquiagem.
RESGATE
Meu amigo Toninho Scaramboni fará mais uma promoção nas instalações de O Porão, no dia 11 de julho. Coincidirá com meu retorno a Assis, para uma sequência de exames médicos de rotina. Presença garantida.
RESGATE II
Toninho e eu trabalhamos juntos na Sistema Cultura de Comunicação, tanto no AM quanto no FM. Curta experiência no jornalismo, mas ampla vivência no FM, com as inesuqecíveis Tardes do Recadinho, Caça ao X, Gincana de Verão, o agora resgatado Rock Cidade e o inesquecível Rádio Criança, quando éramos Tio Claudinho, na sonplastia, e Tio Toninho, na locução.
* Jornalista, historiador e professor universitário, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP.
Sou apaixonado pelo meio de comunicação rádio. E isso é ampla e fartamente conhecido. Uma paixão que advém da primeira infância, no interior de São Paulo, e prevalece, no meu fazer acadêmico, aqui no brejo da Paraíba.
Admito meu lado analógico, que me faz ter uma mesa de trabalho que reúne desktop dos mais avançados e um sistema de amplificação e equalização dos mais antigos (receiver Gradiente STR-800 e equalizador Tarkus TE-2102), além de um toca-discos Gradiente TD-34. No acervo, uma discoteca com mais de 300 LPs, ou seja, vinis, a maior parte tendo pertencido à Campina FM, emissora de rádio daqui de Campina Grande que se desfez dessas joias sob mediação de seo Batista, proprietário do boteco de melhores prosas no centro antigo dessa que é a Rainha da Borborema.
Mesa de trabalho aqui em casa, em Campina Grande
Quando me perguntam qual meu sonho (ainda) não realizado aos 56 anos de vida e três procedimentos cirúrgicos (entre eles 4 ligações de safena e uma mamária), respondo na lata: ter um pick up Technics igual ao que a Cultura 2 FM tinha quando lá fui disc jockey folguista. E a emissora da família Camargo, em Assis, ainda esnobava, pois tinha 2 Technics no estúdio do FM, outros dois no estúdio do AM, um no estúdio de gravação e, pasmem, mais um na discoteca do FM.
Restam poucos Technics e quem os tem, não vende. E se vende, coloca o valor emocional que mercado algum estabelece como parâmetro. Tem Technics no Mercado Livre ou na OLX? Tem. Usados? Sim. Confiáveis? Não. E a resposta vem de João, da Granson, ali na André Perine: toca-discos e demais equipamentos analógicos são como aquele carro antigo que só o dono sabe encontrar e reparar o defeito. Se vai comprar um Technics, portanto, conheça a pessoa que está vendendo, preferencialmente na sua cidade, ainda asssim correndo riscos, pois há peças que em defeito não podem mais ser repostas, por extinção.
Ser apaixonado por rádio remete a essas memórias e a esses esclarecimentos da vida. Investir 2 mil ou até 5 mil reais em um toca-discos da qualidade de um Technics pode levar à glória celeste de captação, em cápsula e agulha, de som da mais alta qualidade, desde que haja preservação do vinil executado, ao, em sentido contrário, inferno de surgimento de um defeito que o fará circular por oficinas e assistências técnicas que logo de cara dirão não compensar o serviço que, caro, ainda é incerto, dada a já citada extinção de peças de reposição.
Sei de um caso, aqui, em que o amigo paraibano comprou uma carcaça de Technics por quase mil reais no Mercado Livre para retirar uma peça das engrenagens internas que fazem a ligação do prato giratório com o braço de base de peso, cápsula e agulha. Doeu no coração ver aquele Technics que era só um cadáver, em uma cena meio filme de Frankeinstein, com a retirada de uma peça para dar de volta a vida a outro aparelho que nem era do mesmo modelo. Sim, a reparação deu certo, mas, a peça foi retirada de um cadáver, de um aparelho sem vida, e assim estava a peça reparada, que parou de viver. O defeito exatamente igual na engrenagem, de plástico ressecado, continuou e o Technics morto continua lá na sala, uma peça de enfeite, linda, maravilhosa, mas sem condição alguma de resgatar o som autêntico que só um vinil bem preservado proporciona.
Voltando ao rádio, comecei minha aventura nesse meio trabalhando, em 1985. Era aprendiz de técnica de externas da equipe de esporte de Chico de Assis, na Cultura AM. De imediato, Eduardo Camargo, o Camarguinho, já me adotou para o FM, escalando para abrir a Cultura 2 FM às 6h00. Era sonoplasta, colocando no ar programa gravado no dia anteiror por Chico de Assis chamado Sertanejo Classe A. Eu, um rockeiro adepto do heavy metal de Iron Maiden, ACDC, Whitesnake, Judas Priest, The Cult, Van Halen, Girlschool pasava duas horas, todas as manhãs, tocando moda de viola que, reconheço, preteria bastante ali, nos meus 15 anos de idade.
Em um ano minha vida profissional, e também a pessoal, mudou radicalmente. De técnico de som folguista passei a DJ de programas como Tarde do Recadinho, aos domingos, Gincana de Verão, aos sábados de veraneio, Caça ao X, nos sábados de férias escolares de início e meio de ano, e Rádio Criança, nas manhãs de domingo. Na semana, apesar de ter recebido a opção por adbicar de continuar abrindo o FM às 6h00, continuei, saindo do estúdio às 8h00 e indo para a redação do jornalismo. Ali, mais uma passagem meteórica, poos Valdir Pichelli, que havia pedido para eu ser aproveitado na redação, pelo bom texto, teve uma discussão político-ideológica com a família Carmargo e, em fevereiro de 1987, fui chamado à direção e soube que o editor estava demitido;demissionário e eu teria de fechar a edição do Cultura Notícias que ia ao ar das 12h00 às 12h45 no AM.
Com meus pais recém divorciados a família rádio me adotou. Tenho gênio forte, persoanlidade, reconheço, difícil, mas de uma coisa não abro mão compromisso com o que faço e com a ética. Claro, hoje, com doutorado e orientando estudantes em iniciação científica em uma universidade federal, minha acepção sobre ética é estruturada, fundamentada, porém jamais me envergonho ou arrependo de uma decisão sequer tomada em meus mais de 25 anos percorrendo redações das mais diversas. Quando decidi, editorialmente, era porque precisava prevalecer a concreta relação de verdade entre o fato coberto me a notícia a ser veiculada. Qualquer coisa fora disso ou eu não cumpriria a pauta ou se cumprisse, a faria da forma como entendia como eticamente correta, e não de acordo com era determinado que eu fizesse. Minha carteira de trabalho, disponível no meu currículo lattes, mostra o número de troca de empregos que protagonizei em quase 3 décadas de redações.
Aquele jovem meio sem rumo com o impacto de um divórcio dos pais foi acolhido no rádio. Minha irmã, Marcilene, que é um ano mais nova, era recepcionista na rádio e por vezes chorou comigo, em casa, quando chegávamos e não tínhamos a nossa mãe, como sempre tivemos. Os finais de semana eram preenchidos cada um à sua forma. Eu aumentei minha carga de trabalho na rádio ao ponto de sair da redação sábado meiio-dia, ser sonopçlasta folguista de Isaías Gomes, o Gordo, no Seertanejo Bom Demais, de 17h a 19h, ficar perambulando pelos arredores da rádio, na Capitão Francisco Garcia, até 23h, quando fazia o programado gravado por Luiz Luz chamado Culturas By Night, até 1h, quando a rádio era fechada.
Eu dormia num sofá que tinha no estúdio do FM, de maneira a conseguir repousar mais (se fosse casa perderia o tempo de sono entre a rádio e minha casa na vila Santa Cecília, e vice-versa) e abrir a rádio às 6h. Dali emendava fazendo o Rádio Criança, de 9h a meio-dia. E então ia pra casa, almoçar. E ainda assim rápido, pois 14h começava a Tarde do Recadinho e eu ia até 17h. Dali em diante assumia Sidnei Santos, que tocava horário até 23h quando, claro, eu retomava o comando da mesa de som e levava o Cultura By Night até 1h. Na segunda a rotina recomeçava, com 6h fazendo sonoplastia do Sertanejo Classe A, com Chicçao, depois indo para a redação.
Os fundamentos no resgate ao passado
Quando fiz mestrado e doutorado na Escolha de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, de 2009 a 2017, tive a oportunidade de estudar com professores que eram (e continuam sendo) os principais referenciais teóricos dos estudos das Ciências da Comunicação no Brasil, na América Latina e, em muotos casos, no mundo. Mas foi no doutorado, pagando disciplina no CRP (Departamento de Relações Públicas, Publicidade e Propaganda), que fui provocado na essência da minha alma. O conteúdo programático abordava os estudos de recepção na perspectiva da persuasão, mas numa abordagem que hoje, 10 anos depois da demanda, ainda considero muito louco, uma piração: neurociência e análises de processos comunicacionais em que partes enunciadoras, de mediação e recepção, logo, ressgnificação de sentidos, são observadas em metanálise. Aquilo mudou radicalmente minha forma de olher e compreender o sujeito social audiência para quem em escrevi, gravei e gerei conteúdos por décadas.
No âmbito da neurociência tivemos, na aulas da pós-graduação, semanais, todas as terças, acessos a cópias em xerox de textos antigos, das décadas da metade do século passado, escritas em inglês por Melanie Klein. Um texto ou outro estava em espanhol e ajudava um pouco mais na compreensão de um doutorando que só estudou em escolas e instituições de ensino superior públicas e não tinha domínio sobre uma segunda língua, estrangeira. Por vezes eu precisava superar essa angústia, qual seja, estar em uma sala composta por laureados, que falavam não só uma mas duas, três outras línguas estrangeiras, chwegando, obviamente, a um nível de compreensão que eu, por arcabouço, não tinha.
Um excerto de texto de Melanie Klein que, confesso, me pegou é ´´Amor, culpa e reparação´´, que lá adiante vai trazer um texto da autora de 1940 (sim, em plena Segunda Guerra), intitulado ´´O luto e sua relação com os estados maníacos-depressivos´´. O ano era 2016, meus pais estava vivos e nem imaginávamos, todos, que dali exatos 5 anos, na pandemia de Covid-19, primeiro iria ele, em 6 de janeiro, e depois ela, em 29 de janeiro. Sim, em 23 dias perdi pai e pandemia. Meu pai pior sequelas finais de miastenia gravis pseudo-paralítica e minha mãe por Covid, provavelmente transmitida do velório do ex-marido que ela fez questão, contra minha decisão, de ir.
A dor desse episódio é que sepultei meu pai dia 7 de janeiro, em Martinópolis-SP. Há 3 salas de velório e, sounbe na época, poucas vezes as 3 foram usadas simultaneamente, pois é uma cidade pequena. Pois naquelas condições de confinamento só podia haver 20 pessoas em velório e como eram 3, circularam 60 pessoas, o que, claro, é mentira, pois não tinha ninguém contando. E foi ali que dona Luzia contrariu o vírus, pois católica que era, foi a cada um dos defuntos, colocou mão sobre mão, fez o sinal da cruz e, caramba, cumprimentou mão a mão os demais enlutados das outras família.
Eu estava na cpoordenação de graduação de meu curso na universidade aqui em Campina Grande e quando fui passar as festas de fim de ano com a família em Assis já comprei passagem de eretorno para 11 de janeiro de 2021, pois estpávamos em trabalho e aulas remotas. Minha mãe almoçou conosco, em casa, no dia 9 de janeiro, um domingo, ou seja, dois dias depois de sepultarmos meu pais. Estava com nariz escorrendo e um pouco de tosse, mas essa sempre foi a marca registrada dela. Mudava a fase da lua e lá estava dona Luzia tossindo, espirrando... Segundo ela, era por causa do aparelho de ar condicionado que eu havia dado a ela de presente de Natal e que fora instalado na sexta-feira após o sepultamento de meu pai (ela se perdeu no ajuste da temperatura do controle remoto e entendemos como normal ter coriza e tosse por passar frio em noite de verão de 30 graus)
Meu voo para Campina Grande sairia de Presidente Prudente às 5h da terça, dia 11. Na segunda à noite, claro, fui à casa de minha mãe despedir, pois a pandemia estava matando assustadoramente em Manaus e, sabíamos, tudo fecharia de novo, como realmente veio a fechar semanas depois. Chegeu à casa dela com Rozana, esposa, e vejo uma dona Luzia abatida, de máscara e recusando abrir o portão, temendo estar com Covid. Renunciei àquilo, pedi que abrisse, pois tanto ela quanto eu, que estaria do outro lado do país, poderíamos contrar o vírus, entrar para a estatística nefasta que coincide com o governo mais assassino que esse país já teve, e depois lamentar não ter dado o último abraço.
Pois abracei a minha mãe, beijei, senti que ela estava febril e suando, preocupei, mas tive que abstrair, pois havia poucos voos semanais de Prudente a Recife e depois Campina Grande e cancelar aaquele voo significaria não saber exatamente quando iria para a universidade, sabendo dos compromissos que esperavam. Fui. Em síntese, na mesma semana ela foi internada por Rozana, a esposa, que se revezou com meu irmão mais velho, Claudinei, no acompanhamento no quarto do HMA. Portadora de comorbidades, teve o quarro agravado, foi do quarto para o semi-intensivo, de lá para a UTI, depois foi intubada e, na noite de 28 para 29 de janeiro, teve uma parada cardiorespiratória na UTI.
Sobre luto e reparação
Comecei esse texto falando sobre minha paixão pelo rádio, pelo analógico, lá na infância. E, criança, ouvia rádio através de minha mãe, que era lavadeira de todas as manhãs recebia as trouxas de roupas de famílias mais ricas para lavar. Nós no terreiro, no quintal, brincando antes de ir para a escola, e minha mãe lavando roupa em fogão feito com bloco e alimentado por pó-de-serra que buscávamos em uma madeireira ali perto, nas proximidades do Tênis Clue, em Assis. Minha mãe cantarolava músicas como Estúpido Cupido, Não se Vá, O Portão, Café da Manhã, mas eu ficava encantado mesmo era com a locução de Lourival Servilha, Luiz Luz, Bentinho, Márcia Giananzzi, Valfrido Nigro, Osvaldo Percone, Chico de Assis, as narrações esportivas de Homero Rabelo.
Um primo paulistano, Marco Antônio, deu de presente um radinho portátil de bolso de cor amarela, marca Prince, modelo Solid State sustentado por pilhas pequenas. Naquela época o espaço não estava poluído por frequências de rádios piratas nem da clandestinidade e as emissoras mantinham seus transmissores regulados profissionalmente. Dessa maneira, com o cair do sol, era possível ouvir as rádio Gaúcha, do Sul, Tupi, do Rio e principalmente a Rádio Bandeirantes, de São Paulo. A Globo chegava fraca. Eu tinha 6 para 7 anos e ouvia aquele radinho todas as noites. As pilhas duravam semanas e até mais de mês. Por vezes levei bronca de meu pai porque por mais baixo que fosse o volume, incomodava, uma vez que doríamos pos três irmas no mesmo único quarto de uma casa de madeira que só tinha quarto, sala, uma cozinha pequena e, sem banhjeiro, uma privada externa.
Modelo similar ao Prince Solid state que ganhei em 1976
Minha mãe comprova pilhas grandes para o Motorádio que ela tinha e as pequenas pra mim, para abastecer o radinho. E me viu começar a torcer para o Corinthians em 1977, no histórico título contra a Ponte Preta, aque ouvi na narração de Fiori Giglioti, na rádio Bandeirantes, mas que os vizinhos todos assistiram na narração de Luciano do Vale, pela Rede Globo. Tonho Nogueira, dono da casa, estava ouvindo pela Jovem Pan, por ser fã de José Silvério. Mas eu resisti à imagem da TV (a sala da casa estava lotada de adultos ou jovens mais velhos que eu) e fiquei fiel ao instável sinal da transmissão do rádio. Sempre fui um apaixonado pelas transmissões da rádio Bandeirantes, desde o jingle de abertura das transmissões esportivas até or jargões de Fiori Giglioti, pra mim o melhor narrador esportivo de todos os tempos, ao lado de José Silvério, Osmar Santos e Osvaldo Maciel.
Dona Luzia, portanto, foi quem me iniciou no rádio. Porque precisamos separar as relações de emprego e trabalho em rádio, como digo a meus alunos de Comunicação Social na universidade, valendo para o mundo do trabalho como um todo (emprego é a vaga que te dão para exercer determinada função, com remuneração previamente estabelecida, enquanto trabalho é o que você, na sua aptidão e uso da estética do sensível, em partilha, faz, tornando-o/a diferente da outra pessoa que ocupa a mesma vaga de emprego que tu). Se, pois, fui para o rádio, fui trabalhar lá, com uma carga de amor pelo fazer cotidiano, herança de uma iniciação que tive em casa, no lar, na primeira infância, naquela fase da vida quer Vygosty definiu como zona de desenvolvimento proximal.
Recordando nesse longo e, reconheço, cansativo texto sobre o rádio e a relação com minha mãe, deparo com dois lutos. O dela, já narrado, mas outro luto atribuído ao rádio desde o advento do cinema falado, depois da televisão, da internet, dos aplicativos de plataformas digitais e, agora, de uso da inteligência arrtificial generativa. O conceito de transmidiação atenua esse discurso fatalista de que o rádio já está praticamente morto, mas precisaremos falar mais sobre isso nos congressos de comunicação como os da Intercom, que é a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.
É na neurociência, ou nos postulados de Melanie Klein, que vejo um Cláudio Messias com recém-completados 56 anos de idade realizado na transição profissional entre comunicador e professor formador de comunicadores e comunicadoras, porém com fantasmas advindos da infância. E encontro na acepção da autora sobre reparação para compreender que há, sim, os gatilhos emocionais aprisionados a partir de vivências boas ou ruins na primeira infância, mas, principalmente uma relação entre mania e depressão que ecoa nos tempos atuais, fugindo do controle.
A não superação de lutos remete a uma contextualização da reparação que, já na infância, conduz o sujeito ao desenvolvimento espontâneo de habilidades que podem estar, enquanto prática, no desenvolvimento de artes e, na perspectiva da empatia, de reconhecimento às próprias manifestações impensadas, agressivas, para compensar o erro reconhecido como forma de atenuar o impacto inicial.
Quando criança eu não tinha noção sobre o quão fatalizado era o destino do rádio. Mas chegando nele, trabalhando, logo aos 15 anos, deparei com essa fase de narrativas, ouvindo de profissionais de quem era fã, antes, que deveria mudar de profissão, dada a falta de expectativas. Hoje, sei, ali estavam pessoas, radialistas, que não protagonizaram a reparação. Foram crianças, tiveram sonhos, acumularam gatilhos socialmente normais, mas transformaram as prospecções em comportamentos maníacos-depressivos.
Depois que saí do rádio e fui para o impresso protagonizei o testemunho de iguais narrativas de fatalização. Se o rádio tinha acabado, o jornal estava na porta do cemitério. Profissionais sempre mais velhos, de vanguarda, prenunciando um caos que, sim, era mais factível do que o fim do rádio. Igual ausência de reparação, fazendo prevalecer o âmbito maníaco-depressivo de quem não via outra solução para o meio impress e, pior, não se esforçava minimamente para colaborar com novas formas de linguagens que permitissem, empaticamente, a transição do jornalismo impresso para o jornalismo online.
Se essa, pois, é uma análise, à luz de Melanie Klein, sobre a necessidade de reparação das relações, minhas, com o rádio desde a infância, como dizer de minha relação minha mãe desde a zona de desenvolvimento proximal? Em reparação, o lado maníaco-depressivo pode ser mais controlado, pois o meio rádio está aindo, sendo reconfigurado, sobrevivendo em forma de rádio em dial, web rádio, rádio online e mesmo na transmidiação com telas como transmissões via Youtube, por exemplo.
Mas a aproximação e o distanciamento, meus, em relação ao rádio, gerando reparação, não conjugam com igual relação que tive com minha mãe. O luto tem uma relação com o estado maníaco-depressivo, atual, que, vejo, explica comportamentos, meus, acumulados nesses últimos 5 anos desde a morte dela, sem haver, ainda, espaço de reparação. Não sepultei minha mãe, pois estava em Campina Grande quando de sua morte, 23 dias após o sepultamento de meu pai, que protagonizei presencialmente.
Minha forma de lidar com a morte, nesses últimos 5 carnavais, mudou. Se antes eu sofria por não estar na minha cidade quando do falecimento de um/a amigo/a, ultimamente, mesmo estando lá, não tenho ido a velórios, apenas a sepultamenteos, e ainda assim na etapa em que o corpo é levado para o cemitério. Se ha a última abertura, procuro não ver pela última vez a pessoa.
Se fosse buscar filosoficamente um parâmetro para justificar isso tudo, diria que Nietzche falaria aos meus ouvidos sobre uma ausência de vontade de potência. Não de negação à vida como caminho ao suicídio, mas, simplesmente, por não conseguir fazer a gestão das formas de reparação a que se refere Melanie Klein.
Há, por fim, um término melancólico em forma de luto. Meu ego, sei, desenvolveu mecanismo de defesa advindos lá de uma infância conturbada em família, com uma mescla de mais frustrações do que realizações e, especialmente, por uma relação familiar de mais vínculo, logo, proteção de minha mãe, do que de meu pai. E quis o destino que eu o sepultasse (ele faleceu em meus braços quando o levada ao hospital), mas não estivesse no sepultamento de minha mãe nos protocolos do auge da pandemia de Covid-19.
Desde então, nesses 5 anos, vejo distanciados os parâmetros que sempre tive sobre perspectivas de longevidade. Meio que em diálogo com Schopenhauer tento prospectar um eterno retorno que remeta, na reparação, corrigir ou alterar anseios, frustrações e êxitos do passado da infância, justificando uma condição futura, de consciência, em paz com o que espero de um fim. Mas o que vejo, factível, é, no âmbito do eterno retorno, eu repetindo a ausência de vontade de potência de minha mãe nos meses que antecederam não sua morte, mas o próprio início da pandemia que a matou. Viúva de meu padrasto, mas sentiu pesadamente a morte de seu irmão, meu tio Luiz, e fatalizava ser suficiente tão somente viver até os 75 anos, idade da morte dele. Pois ela morreu menos de duas semanas antes de completar 75 anos.
Se por um lado vejo reparação, por outro a descarto, quando me vejo num comportamento maníaco-depressivo de viver isoladamente, distanciar de meus sentimentos cotidianos triviais, como na relação com a família e amigos mais próximos. Os lados profissional e de vida pessoal parecem misturar-se, chegando ao ponto de eu, hoje, não saber prospectar quem vai terminar primeiro, sem eu conseguir reverter isso em reparação: o rádio ou eu.
* Jornalista e historiador, é mestre e doutor em Ciências da Comunicação pela ECA/USP e docente em Comunicação Social em uma Instituição Federal de Ensino Superior em Campina Grande, na Paraíba.