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sábado, 7 de janeiro de 2017

TRADIÇÃO - Festa de Santos Reis na Água do Café, em Platina, SP

Cláudio Messias*

Há 2017 anos, segundo a tradição cristã, três indivíduos seguiram uma estrela que hipoteticamente postava-se no céu, brilhante, e encontraram uma mãe, um pai, alguns animais rurais e um bebê com 12 dias de vida. Aquele bebê teria vindouros 33 anos de existência, morreria crucificado e pelos próximos 1984 anos impactaria de tal forma a vida e as formas de viver no planeta que, afora os exageros, pode-se dizer que a humanidade foi uma antes e outra depois de sua suposta passagem por essas terras.

Já expliquei, cá por essas páginas virtuais, minha opção por ser agnóstico. Creio, pois, em uma Força Criadora, a quem os cristãos denominam ser Deus. E creio em deus. Mas, meu deus tem "d" minúsculo por um fator básico: a Força Criadora a quem denomino deus não foi concebida por igreja alguma, muito menos rende-me a esperança de vida eterna. Sei, apenas, que eu e meus pares humanos somos resultado de um ponto iniciado, criado por algo ou alguém, sem que com isso ou para isso seja necessário um mediador. E quando morremos, tudo findamos.

Mas, sustentar posições como a minha rende situações contraditórias. E uma delas está na minha fé nos três reis magos, que a tradição cristã mostra como tendo ido ao encontro do menino Jesus 2017 anos atrás. Tal crença, minha, advém de 1996, quando, acompanhado pelo fotógrafo e repórter Paulo Cuca, cobri, pelo Oeste Notícias, a festa de reis na Água do Almoço, em Cândido Mota. O festeiro era e continua sendo Toninho Leiteiro, cuja história pessoal realmente ilustra essas condições em que se configura um milagre.

Toninho Leiteiro tinha menos de 10 anos de idade e, acompanhando o pai na rotina rural, caiu do carro de boi e teve a roda do veículo passando sobre sua cabeça. Médicos de Cândido Mota, Assis e região desenganaram, tamanho era o ferimento e, segundo testemunhos que ouvi em primeira pessoa, a gravidade (o crânio da criança ficou aberto, exposto, sem condições de intervenção, pela medicina, na época). Em síntese, o pai colocou a vida do filho nas intenções dos três reis magos e, como contrapartida, prometeu fazer a festa, a cada 6 de janeiro, em agradecimento. Toninho Leiteiro tanto sobreviveu que herdou a tradição do pai e, hoje, tem a ajuda dos filhos para anualmente ceiar pela benção.

Essa história é, nos detalhes, impressionante. No entanto, minha fé nesse período de início de janeiro se sustenta em detalhes outros. E tudo começou no sábado anterior àquela festa de reis na Água do Almoço. Eu e Paulo Cuca fizemos uma reportagem de jornal impresso com cobertura completa de bastidores. Afinal, somos da 'escola' que teve e tem professores como Júlio Cezar Garcia e Ulisses de Souza, com quem aprendemos que a pauta precisa, primeiro, ser vivida para depois ser relatada e só então, publicada. Ser jornalista, pois, é testemunhar o fato, de modo que a edição da realidade a partir de nossa ótica seja o menos possível influenciada pelo ponto de vista pessoal.

E naquele sábado chuvoso, véspera, havia uma multidão trabalhando no sítio em Cândido Mota. Os animais arrecadados como prendas no percurso das bandeiras já haviam sido abatidos. A lenha, seca, apresentava-se em fartura. Aqueles homens e aquelas mulheres eram parentes do festeiro, voluntários e até mesmo desconhecidos uns dos outros. Todos, sem exceção, envolviam-se na produção de um montante de comida que de tanto ver já esgotava a fome. Leitoas, frangos, galinhas, bois... macarrão, arroz, feijão e batata. Um tipo de preparo que tinha hora para começar, mas não para terminar.

E entre esses sujeitos identificados e não identificados estava um senhorzinho que, tocando pandeiro, acompanhava violeiro e outros músicos na cantoria característica das companhias de reis. Paulo Cuca o fotografou cantando. Chapéu na cabeça, pandeiro à mão, mas, principalmente, um impecável lenço cor de abóbora no pescoço, uniforme, digamos, daquela bandeira específica. Ao lado dele sentei, e dele ouvi histórias sobre um Médio Vale quase selvagem, na época da colonização dessa parte do Paranapanema. Um homem com menos de 70 anos de idade, mas mãos calejadas e rosto enrugado com as características de quem muito sofreu no duro trabalho rural.

No domingo eu e Paulo Cuca voltamos à Água do Almoço, antes de a comida começar a ser servida. As mesmas pessoas da tarde e da noite anterior lá estavam, exaustas, com olheiras, mas o sorriso voluntário estampado mais forte no semblante. Uma palavra do festeiro e de seus filhos, outras palavras de quem comandou as bandeiras e a cozinha, uma oração uníssona e a fome da multidão, enfim, foi abastecida com muita, mas muita comida.

Conosco, eu e Paulo Cuca levamos os exemplares da edição de domingo do Oeste Notícias, um jornal que impressionava pela qualidade de dois fatores: linha editoral e impressão gráfica, em cores. E na capa estava a foto daquele senhorzinho do pandeiro. Dei-lhe um exemplar, que ele guardou por dentro da lateral da botina. E depois disso, levantou-se, me deu um abraço de gratidão e confidenciou que nunca teve uma fotografia sua, própria, para guardar. Não titubeei. Fui ao Gol 1000 do jornal e peguei mais alguns exemplares, que era para ele dar de presente a quem conviesse. Novo abraço e um anúncio: era para eu esperar até o final da festa, após o encontro das bandeiras.

Não foi sacrifício algum ficar, pois eu e Paulo Cuca tínhamos a missão de cobrir completamente a festa, até o desfecho. E lá ficamos até por volta das 16h00. Foi quando o senhorzinho veio até mim, desatou o nó do lenço que levava preso ao pescoço e me deu de presente. Disse que estava ferindo a tradição por ceder parte do adereço da companhia de reis a que pertencia. Mas que era por uma justa causa. Afinal, eu o havia presenteado não com um pedaço de papel jornal que levava a sua foto, mas, com o registro público de uma prática que tanto o orgulhava, qual seja, compor a festa dos santos reis.

Ao passar aquele lenço em meu pescoço o senhorzinho apenas pediu que eu o guardasse o quanto pudesse. E, em um momento de necessidade de fé, que recorresse àquele objeto, que também não era apenas um pedaço de pano de dor de abóbora. Os três reis nada mais fizeram, na tradição sustentada por aquele senhorzinho, do que mostrar ao mundo que apesar de toda a maldade que impera o coração de algumas pessoas da raça humana, é a bondade que prevalece, sobressai.

Em 11 de fevereiro de 2015 recordei dessa passagem. Reencontrei aquele lenço e, desesperado por ser antevéspera da cirurgia que me abriria o peito e colocaria quatro pontes de safena e uma ligação mamária, pedi a proteção dos três reis magos. Hoje cá estou, prestes a completar dois anos de cirurgia cardíaca bem sucedida e levando uma vida quase normal (há sempre sequelas, mas cabe-nos superá-las ou administrá-las).

Ano passado, em plena produção da versão de qualificação de minha tese de doutorado, fechei-me para a tradição cotidiana e não fui às festas de reis. Mas, em 2017 coloquei isso como meta primordial. E nessa tarde de sábado, 7 de janeiro, cumpri com o combinado com meu amigo Mílton Tomilheiro, indo em famílias à Água do Café, no município de Platina.

Minha meta pessoal configura-se assim: voltar como participante a uma festa de reis e, depois, ajudar como voluntário. Metade da meta cumpri hoje. A outra metade eu cumprirei em 2018, muito provavelmente entre a própria Água do Café ou mesmo retomando a tradição da Água do Almoço, com Toninho Leiteiro.

Fui à Água do Café acompanhado da esposa, Rozana, da sogra, Chica, e de meu tio Luiz Sussel. Minha mãe, Luzia Sussel, católica que honra a esse tipo de tradição, não pode estar conosco por acompanhar meu irmão mais velho em viagem de férias no litoral paulista. Ausência compensada pela família Palma Tomilheiro, que integrou o grupo de doadores de prendas em Platina.

Enfim, o que vi hoje, em Platina, foi tão emocionante quanto o que vivenciei em Cândido Mota 21 anos atrás. Três companhias de reis, um almoço farto e uma organização impecável. Calor sem chuva e um momento de fé que me fez, de novo, colocar-me em sintonia com a Força Criadora. Não sei explicar o que ocorre, muito menos o que sinto em momentos assim. O que sei, apenas, é que a minha fé, agnóstica, em nada difere daquilo que qualquer cristão ou adepto de outra religião sente.

Uma festa impecável, organizada ao extremo, com pessoas humildes e simpáticas na condução de cada tarefa. Fala-se em mais de cinco milhares de pessoas passando o dia todo pela propriedade rural. Mas, seja qual for a estatística, o mais importante é que pessoas de bem encontraram ou reencontram pessoas de bem. E isso basta.

Blogueiro com as mulheres da
Família Palma Tomilheiro: Guta, Luli e Rosana

Foto de celular sai assim, sem foco. Mas, o importante
é a qualidade inquestionável da comida 
e a simpatia de toda a equipe de apoio

Macarronada, arroz, carne de boi. Mas depois o prato
do blogueiro ainda recebeu carne com 
batata, um torresminho e frango

Reencontro com meu amigo Val. Fomos vizinhos no Parque das Acácias

Com meu tio Luiz Sussel, com quem divido os
mesmos problemas cardíacos. Firmes e fortes.

Blogueiro, na realidade, repetiu duas vezes.
Arroz branco, solto... uma delícia.

Sogra Chica e esposa, Rozana

Famílias Messias e Palma Tomilheiro. E não
há nada  melhor no mundo do que amizades 
verdadeiras e sinceras!

Esse palhaço encarou o blogueiro. E o blogueiro afinou, claro.

Nos preparativos para o encontro das bandeiras
 os palhaços se acotovelam para pegar o
 dinheiro lançado pelos participantes

Os festeiros que compõem as companhias se reúnem
 para a cantoria e o encontro das bandeiras

Sogra Chica empolgou com os palhaços (a figura da esquerda
 é, supostamente, uma mulher)

Diz a tradição que criança tem medo de
 palhaço da festa de reis. Foto realmente não mente.

O momento do emocionante encontro das bandeiras.

Espadas ao alto e as bandeiras se encontram.

Não gosto de calcular nem especular número
 de pessoas, mas falam em mais de mil pessoas
 por hora na festa de hoje.

Calor bateu os 37 graus na Água do Café. Jeito foi sentar
à sombra de um pé de manga, ao lado de um 
caminhão, e prosear com o tio Luiz.

Um dos festeiros era santista, quase não serviu
o blogueiro, mas, no final da brincadeira,
provocou: "vou servir porque vocês também
têm título mundial". Cardápio: porquinho frito.



* Professor universitário, historiador e jornalista, é mestre e doutorando em Ciências da Comunicação pela/na Escola de Comunicações e Artes da USP.

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