Descendo a ladeira do Monte Santo, rumo à Universidade Federal de Campina Grande, notei, ao sair do prédio onde resido, um senhor que, montado em uma carroça, falava em tom de voz mais alto do que o normal, usando o telefone celular. Visivelmente, o diálogo mediado era feito com a companheira. Já era noite, no sentido de o sol já não provocar uma claridade sequer no céu, mas o relógio ainda não marcava 18h00. Sim, aqui em Campina Grande começa a anoitecer às 17 horas, dada a localização geográfica, a leste, dos estados do Nordeste.
A situação era inusitada. Eu caminhava no meu trajeto, o carroceiro seguia ao lado, na rua, conduzido por seu jumento. Ouvia, eu, aquele diálogo marcado ora por ofensas, ora por algo que sequer consigo definir. E as pessoas que estavam nos estabelecimentos comerciais que há pelo caminho paravam para assistir àquela cena, em que o homem vociferava como se melhor ouvido fosse pela interlocutora que do outro lado da linha, telefônica, encontrava-se.
O trânsito pesado fazia com que ora eu avançasse à frente da carroça, ora fosse ultrapassado por ela no trajeto que coincidia. E algumas quadras adiante o carroceiro, que carregava cocos verdes, já havia desligado o aparelho celular, não o suficiente para que parasse de falar, agora sozinho, ainda refletindo sobre a companheira. Foi quando, em um determinado ponto, de esquina, alguns mototaxistas provocaram aquele personagem urbano, visivelmente conhecido nos arredores.
Lá pelas tantas, um dos mototaxistas grita e pergunta ao carroceiro:
_Ei, quem é o burro aí?
A carroça se encontrava alguns metros à minha frente e quando vi o carroceiro dar ordem de parada ao jumento, logo temi que a confusão pudesse estar armada, pois em uma das mãos, dele, estava um nada pequeno facão, usado, imagino, para cortar o coco.
Reduzi a passada e vi, de frente, a resposta do carroceiro:
_Burro tem dois.
Ao que o mototaxista perguntou, irado, entendendo a provocação:
_O quê?
O carroceiro, dando sequência a seu trajeto, completou, finalizando:
_E um é surdo.
Cerrei o lábio e congelei o semblante para não esboçar o sorriso que, por dentro, soava como gargalhada. Jamais subestime a capacidade de resposta de seu interlocutor. Pois, como me disse, certa vez, professor Adílson Citelli, na ECA-USP, a ironia, para dar certo, não pode, necessariamente, ser entendida por uma das partes.
Claudio, um abraço. Você viu que agora os jornalões da grande imprensa estão fazendo campanha para cobrar mensalidades nas universidades públicas após a desastrosa administração do reitor da USP do governo tucano?
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